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DISCURSO
HISTÓRICO E CRITICO
Acerca do
PADRE ANTÓNIO VIEIRA
E
DAS SUAS OBRAS
POR
D. Francisco Alexandre Lobo
BISPO DE TIZED
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COINIBRA
Imprensa da Universidade
18G7
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DISCURSO
HiaTORICO E CRITICO
DISCUKSl)
HISTÓRICO E CrJTICO
ACERCA DO
PADRE ANTÓNIO VIEIRA
E
DAS SUAS OBRAS
l»OR
D. Francisco Alexandre Lobo
BISPO Dl VIZ£n
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Imprensa da Universidade
lKf)7
DISCURSO HISTÓRICO E CRITICO
ACERCA DO
PADRE ANTÓNIO VIEIRA E DAS SUAS OBRAS
Tem sido nolavelmenle vária, e até contradictoria, a fama do celebre
jcsuila o Padre António Vieira. Passou este homem entre os seus contem-
porâneos por um ecclesiastico de grande espirito e zelo fora do commum;
por -um negociador penetrante c destro em matérias politicas; por prín-
cipe dos oradores cliiislãos, ao menos em Portugal: mas desde o meado
do século WUl, o seu zelo foi tido em menos conta de puro e desinte-
ressado; concedeu-se-llie só o talento de formar e entreter intrigas cor-
tezãs; e foi reputado orador quasi inteiramente desprezível. E António
Vieira, tão preconisado e elogiado em quanto vivo, e ainda largo tempo
depois da sua morte, e que acabou suppondo, com certo fundamento, que
as edades seguintes sequer o não honrariam menos, ficaria bem admirado
e confuso, se ouvisse, passados sessenta ou setenta annos, as vozes já de
indignação, já de desprezo, com que o tem tratado, ou maltratado, a
iwsleridade * ! Grande lição por certo, c claro desengano para os ardentes
' Vieira mesmo em sua vida provou, como se verá na continuação do Discurso,
os golpes da detrarrão e da satyra; mas eram censuras ou sarcasmos de poucos, com-
pensados pelo aiiplauso de quasi todos: e como era natural que elle os tivesse por
nascidos da inveja, lambem era natural que o acompanhasse a esperança de que não
durariam além da sua morte, termo ordinário das tramas e furores da inveja. Veja-se
André de Barros 1. I, 5' XLI, 1. III, ^ CLVII 1; seg., I. IV, ^ CXXXI, e o mesmo
Vieira nas Cartas: e particularmente nas escriptas de Roma e da Batiia.
adoradores do idolo capriclioso, i]iie dizemos rei)ula(;ão e gloiia; a (niem
gastam a vida cm servir e incensar, e por t\m perdem lodo o a[iiiro c Ira-
baliio, que empregaram em suas cançadas idolatrias!
Pelo exame todavia da iiistoria de António Vieira e leitura das suas
obras, teidio formado opinião de que nem a sua edade, nem a seguinte
lhe fizeram inteira justira. O seu século, além de sor juiz menos compe-
tente, deixouse allucinar de certo prestigio, que acompanhava os talentos
nada vulgares, e a incrível promplidão e actividade de Vieira: o seguinte
foi em parle arrastado de ódio, em parle levado de errada antecipação;
cerrou quasi acinlemeule os olhos ao seu indisputável merecimento; e
recusou, com muita injustiça, dar as desculpas, que imperiosamcnle re-
queriam as circumstancias. AniI)Os p(jis tenho a respeito d"elle por injustos:
com a dilferença, que nos primeiros juizes me parece (|ue influiu mais
um erro muito natural, e por isso mesmo muito desculpável; nos segundos
obrou mais ou o rancor, ou deferência cega ao conceito de ardentes e
determinados inimigos.
Vou referir em breve o que com muila diligencia alcancei da sua
historia; e propor o juizo, que lenho feito do seu caracter, dos seus talentos
e escriptos: e cuido que por fim assentarão commigo os leitores d'este
opúsculo, que se António Vieira não mereceu cabalmente os louvores, com
(jue o exaltou o seu tempo, disposições leve da natureza para os merecer;
que as invectivas do tempo posterior foram ainda mais mal fundadas, e
merecem maior reparo; e que tão longe está de obrigar os portugueses
com seus escriptos ao desprezo, que por elles se deve reputar um dos
varijes mais beneméritos da nossa Halria.
Sem desprezar a historia conlempuranea de Portugal, que dando luz a
alguns factos, não accrescentou com tudo o seu num.ero; as principaes
fontes, de que recolhi os successos, foiam as i)roprias obras de Vieira, a
sua vida, composta por André de Barros ', e os escriptos do século pas-
> O jesuíta Andrú du Barros eiitnm iki Cunipanliia cm ICi)l. Fui frcpusito rlarnsa
professa de S. Roque e um dus priíueiíus aradcniicos da Acaduuiia tical da Hisloiia.
Publirou era 1736 as V(i:i's Sai(dnsus do Vieira, e uonipuz a sua vida, imiiressa cm
Lisboa em 174G. Nesta ultima obra é mais pancgyrisla (jiie historiador; largo e até
prolixo em coisas menos importantes, e nimiamente conciso nas mais graves; e emprega
o estyio corrupto, que era estimado no seu tempo. Admirando com razão a simplicidade
e candura das relações que escreveu Vieira, nem por isso o rpiiz imiiar na da sua
vida.
sado, nascidos da renhida e accesa contenda com os jesiiitas. Ao que rofe-
reni Vioiía c Barros dei porém os descontos devidos ao amor próprio, c
aos atToclos da amizade e interesse de Corporação: e das relações do ódio
usei com advertência mnilo cautelosa; separando hcm da snltslancia os
accidenles da còr forte, e talvez grosseira, com (pie a paixão a (juiz desfi-
gurar, li declaro que. se me enganei, foi mais por me deixar illndir da
amizade, que da desalTeição; porque dado que ambas sejam egualmentc
infiéis nas suas pinturas, o intendimenio e coraçãn humano por sua con-
formação (e nesta parle nohre conforniação) é mais piecatado contra os
traços muito rudes e ásperos do ódio. que contra os toques macios e lison-
jeiros da amizade.
O Padre António Vieira nasceu em Lisboa a G de fevereiro de 1608.
Seus pães foram Cliristovam Vieira Ravasco, qr.e nasceu na Villa de Moira
no Alenilejo, e D. Maria de Azevedo, natuial de Lishoa '. lia grande razão
de presumir (|ue Christovam Vieira procedeu de famílias muito hoiuadas
e antigas; ipie tinham alliança C(un os Limpos Lacerdas, a (jue [tertencia o
.-\rcebispo e Senhor de Braga I). Fr. Ballliazar Limpo, tamhem nascido em
Moira-. Da qualidade de D. Maria de Azevedo não temos noticia; e só
podemos conjecturar, sem nuiila temeridade, (\na enq)arelhava com a de
seu marido^. Mas Anlonio Vieira foi um destes hoincns, como hem adverte
o seu biograplin, cuja reptUação e celebridade dá lustre aos seus antepas-
sados, em vez de os receber do esplendor da sua origem: e Christovam
Vieira não seria hoje lembrado, a não ler este fdho. que por notável
engenho c egual applicação foi dislincjo ornamento do seu século em
Portugal.
» Veja-su Aiiiliv d.' li.nirts I. V, § CCLXXXt.
* Tudo islo insiuiia nu lugar cilado André do Barros; i; nós podemus afflrmar i|ue
ha jioucus ânuos (1817), que Limpos Lacerdas. natiiracs c moradores em .Moira, se
prezavam de llavaseos, e repulavam seu lionradu tronco tlny I^ouroriço Ilavaseo, (pie
em 14il passou de Castclla para Moira, onde casou com Leonor de Pino, e de quem
descenderam muitas Taniilias graves do Alemlejo. de Lisboa t: da íícira.
' É de sujtpàr da pnipi^ns.ío oídinaria paivi a egualdade no matrimonio; e mais
ainda, por constar da educ-ac;."io muito culta o polida de I) Maria de A?i'vi'ilo. Veja-se
André de Barros I. V. t CCLXXX.
Não declara André de Barros, nem pudemos saber por outro meio, os
motivos por que Chrislovam Vieira Ravasco deixou o reino, e se passou
com a sua família para a cidade da Bailia de Todos os Santos, noBrazil.
É certo porém que o fez por fins de 1615, quando seu filho António
Vieira não liniia ainda completos oito annos de edade. E como Bernardo Vieira,
filho também de Cliristovam, foi depois secretario do governo naquelle
estado, é de suspeitar que seu pae sahiu do reino, se não com o mesmo
emprego, com qualquer outro encargo publico de alguma importância;
nem se pôde imaginar que se passasse para o Brazil com a família por
outra razão de menor substancia, ou menos airosa. Antes aquella suspeita
é ajudada pela representação posterior dos filhos e filhas de Chrístovam
Vieira, que ou seguiram e exercitaram profissões e cargos honrados *, ou
se alliarara em casamento com as pessoas de mais importância em sangue
e fazenda, que então erão conhecidas naquella parte da America portu-
guesa '.
Posto que alguns engenhos, e não são talvez os menos próprios para
grandes coisas, se expliquem ou desenvolvam com vagar, e até muito de
espaço, são promptos de ordinário os melhores em dar de si decididas
mostras. O de António Vieira foi da teini)er,i destes últimos: e referem-se
delie respostas e ditos na puerícia, (jue quadram com a rara vivacidade,
que ao depois se admirou até 'aos ullimos dias da sua vida ^. Porque é
de notar, como outro argumento de espirito extraordinário, que, se princi-
piou a brilhar muito cedo, nem por isso deixou de luzir até ao ultimo
termo da edade avançada, em que falleceu *. Pelo commum declinam com
* É bem sabido, no que diz respeilo a António Vieira. Seu irmão Bernardo Vieira
foi o primeiro secretario d'estado de todo o Brazil, em que teve por successor seu
filho Gonçalo Vieira Ravasco Cavalcante de Albuquerque, e foi alcaide mor da cidade
d'Assumpção do Cabo-Frio. Veja-se Andr. de Barros 1. V, § CCLXXXVII.
* D. Ignacia de Azevedo Ravasco casou com Fernão Vaz da Costa Uoria; D. Ca-
tharina Ravasco casou com Ruy de Carvalho Pinheiro, o Moço; outra, que se não nomeia,
casou com Jeronymo Sodré Pereira, pessoa de muita qualidade; D. Leonarda de Aze-
vedo Ravasco finalmente casou com o desembargador João Alvares de la Penha; c com
elle, com um filho e quatro filhas pereceu em triste naufrágio no oceano,, quando
voltavam para Portugal. Veja-se Barros ibid. § CCLXXXX, e §§ LXVI e LXVII.
' Veja-se Barros ibid. 1. I. §'. VI.
* António Vieira falleceu de 89 annos a 18 de julho de 1697: e no HI vol. das
suas Cartas se podem ver três, 78. 89, 9:?. escriptás a 24 de junho, 6 e dO de julho do
mesmo anno, em que não acho difrerenca das da edade mais llorente.
os nossos órgãos, por eÉfeito do correr dos annos, as faculdades mentaes
do homem, e poucos são os vcllios, (jue se não (lueixam, com maior ou
menor razão, d'esla triste decadência; e tanto mais, quanto seu espirito foi
mais vivo e vigoroso na cdade florente: ou porque na verdade maior dis-
pêndio da sua forca deve produzir maior cançaço e altenuação, ou porque
muito habituados á sua promptidão e alento, de qualquer signal contrario
são propensos a arguir larga diíTerença. António Vieira, opprimido com o
peso de muitos annos, provado em muitos e grandes trabalhos, combatido
de moléstias varias, dilatadas e perigosas, privado do uso dos principaes
sentidos ', conservou a firmeza da memoria, a subtileza e penetração de
intendimento. e até a facilidade de expressão pura e clara, ([ue suppõem
juntamente a mais prompta reminiscência, e a maior distincção de con-
ceitos e de idéas '*.
Não passou muito tempo, depois- que desembarcou com seus pães na
Bahia, sem se applicar ao estudo de humanidades nas escholas. Os jesuítas
no reino e suas colónias e conquistas estavam então, e estiveram muito
depois, em plena posse da educação da mocidade no tocante ao estudo de
lettras. Se tal posse foi ou não prejudicial á litteratura portuguesa, tem
sido questão muito debatida; e talvez seja mais embaraçada, do que se
julga vulgarmente ^. Desde o principio tiveram entre nós o seu methodo e
propósitos de instrucção clássica graves detractores; e foi este um dos
lados, por que no ultimo conllicto os combateu mais vivamente a animosi-
dade dos contrários. È certo além d'isso que a nossa litteratura declinou
quasi desde o momento, em (jue elles por este modo a entraram a dirigir.
Mas os primeiros detractores podiam ser obrigados ou de interesses, ou de
emulação: as exaggerações dos últimos são tão pitas, (jue põem lodo o
' Nas carias 77 e 78 do vol. III dá uili! mesmo nuticia da falia de vista e ouvido,
scniidos, dos qhocs desfissistidít a alma, quasi está wsta cama nu estado de separada.
' Dão evidente prova as Ires carias allegadas, escriptas, poucos dias antes da sua
morte, á Senhora D. Calliarina, rainha da Gran-Bretanlia, ao duque de Cadaval e ao
seu secretario; em subsl.ancia e estyio bem dignas, as primeiras duas, de Vieira e das
personagens, a (|ue as dirigiu.
' Sem hesiUiíjão se allirma vulgarmente (pic os jesuítas corrom|ieram o liom gosto :
mas quem ponderar bem asrellexòes. que aqui aponlamos, e se lembrar de que ainda
antes dos jesuiUis. ou pouco menos, surgia o máu gosto em Ilalia. c (|ue d'alli passou
para Castella e para Portugal, cuido que resolverá nesta maleria com maior descon-
fiança.
10
Iiomom judiciíis» cm niiiila desconfianra : e sabido é que a lógica mais
acautelada |)roliibc altribuir, som boa consideração, quabiucr elTeilo ao que
proximameiíle lhe precede.
O que não soffre dúvida é que em França, onde os jesuilas iníluiram
na côrle pouco monos, so acaso foi menos que em Portugal, e onde tam-
bém dirigiam a mocidade nas escliolas, o século sempre famoso de Luiz o
Grande abriu e ci.Mrou, durando em flor e vigor esta sociedade ' ; que
alguns dos liomons grandes em IcUras, que o bouraram, foram jesuítas ^; e
que Voltaire se prezava muito de ter aprendido nos seus piimeiros annos
com o Padre Poreo. Não me sinto apaixonado dos jesuilas; nem ba para
que, ou ainda porque : mas a rellexão me tem feito conbecer por varias
vezes, que uma geral e assentada opinião carece era muitos casos de bom
fundamento.
Porém deixada uma questão difficultosa, que acbn, de mais a mais,
mnilas pessoas ainda fortemente prevenidas pela parte affirmativa; não ba
dúvida que António Vieira entrou a estudar as bumanidades no collegio
da Habia : e talvez foi usta uma das maiores razões, se não foi a maior,
por que depois se determinou a abraçar o instituto dos jesuilas.
Se os jesuítas se portassem imparcialmente a respeito do estado o
estabelecimento seguinte dos moços, qne ensinavam, andariam com primor
e desinteresse muito clirislão. Mas têm. sido accusados do desprimor e
cubica em contrario: e se o natural ^desejo a favor da própria corporação
torna este erro desculpável, lambem o torna muito crivei. Para quem se
propõe com ardor os proveitos e credito da sua corporação, é tentação
na verdade muito forte, o conhecer os sujeitos para isso mais apropriados,
e conhece-los em edadc, em (]ue melhor se pôde influir nas suas resolu-
ções. E tal era a condição, em que se achavam de continuo os jesuítas,
com os mancebos qne frequentavam as suas escbolas. Em razão da candura
e franqueza daqueila edade, e da observação e penetração própria, conhe-
ciam perfeitamente as índoles e propensões dos seus alumnos; e desejavam
Ueixaiulo (iiiin.s, ú iml.iri:i ;i ([ulmii leia (iiialiniri- cniiliecimeiai) da liistoria de
Frauça, a grande iunueacia, que na sua corte attribueni (j.s escriptures aos dois jesuítas,
l)or ISSO muito famosos, !e 'Mlicr e la Cham\
» Fez certamente honra áquelle século notável a enidieão vasta c apurada de
Sn-mondo e Petavio: o l\'idre Bourdaloue restituiu e aperfeiçoou a eloquência do púl-
pito; depois das Gcorgicas de Virgílio, lemos ainda com muito prazer as poesias, tão
engenhosas, como elegantes, de Rapin e de Vanière.
n
com affeclo. oii paixão anienlissima, as vaiilagens c lionra do seu insli-
luto, cuja profissão tiiiliam aliás no conceilo da mais segura e crescida
fortuna.
André ilo Barros allribuc a resolução, que tomou António Vieira, de
abraçar o inslilulo josuilico, á sua prt)pria reflexão sobre ccila liisloria
piedosa, (|!;e ouviu referir a um pregador '. E declara que nisto segue
o depoimento, que Vieira deixou por escripto de sua mão. Mas pouco
decidem a declaração e depoimento do um e do onlro. A sagacidade, que
se não pode negar nos jesuilas em grande parle dos seus comportamentos,
levava-os muito a trabalhar [lor caminhos encobertos. Não chamavam dire-
ctamente o alumno, que mais pretendiam; mas por discursos e práticas,
que pareciam ler dilTorente alvo, o dispunham a desejar a perfeição da vida
cenobilica : qnasi certos de que bem inflammado uma vez este desejo,
uão hesitaria o mancebo em preferir por varias considerações o seu insti-
tuto aos outros instilutos regulares. O mesmo candidato cuidava que o
trazia o próprio movimento, quando na verdade obedecia ao impulso alheio.
Assim podia succedcr, e snccedeu [)rovavelmente, a Aulonio Vieira ; em
ijuem concorriam insignes parles, que o faziam mais de cubicar, e (juo por
isso mesmo obrigavaiu os jesuilas a maior empenho e a não menos cautela.
Na noite de 5 de maio de IGÍ3, em cdade pouco acima de !S annos,
fugiu António Vieira da casa de seus [>3es, e procurou o collegio da
Companhia. Foi recebido dos jesuilas com muilo contentamento, e tratado
com o agasalho devido a tal sujeito, e ás mostras, que ellc dava de affeição
à Sociedade *. Seus pães, que liiiham outros intentos, poseram grande
elQcacia em o dissuadir, mas o mancebo resistiu a tudo; e não consta
que os jesuítas, altendendo às instancias de Christovam Vieira, e á verdura
dos annos, cm que seu filho arriscava um passo Ião importante, ajudassem
as diligencias dos parentes, como se devia esperar de pessoas de inten-
dimenlo e desinteresse. K ao menos André de Barros, dando conla do
airororo com que foi recebido, dos combates dos parentes, e da firmeza
com que foram resistidos de Vieira, uão dá indicio algum, d"onde se possa
inferir que os seus .sócios, pondo-se da parte da familia, lhe aconselharam,
em negocio Ião grave, mais vagar e maior pondei'ação.
' Veja-se Andr- do Harios I. I, % Xlll. c o mesmo Vioira vol. Vil Seini. VI
N. iO;i.
* Barr. ibiJ , ^ .\V1.
12
Durou a provação até 6 de maio de 1625, dia em que professou; e
proseguiu logo dos estudos, admirando os coiidiscipulos e os mestres com
a promptidão e alto grau de aproveitamento. O applauso porém dos seus
progressos litterarios não o enlevou de lai sorte, que resolvesse fazer do
estudo das Boas Artes e Sciencias, como succede á maior parte dos bons
engenhos provados nas classes, o emprego principal das suas applicações
e trabalhos. Como que esta gloria, por fácil, era insufficiente a satisfazer
o seu coração! Propôz-se correr por caminhos mais árduos e menos tri-
lhados. Fez voto, pouco depois da profissão, de gastar a vida instruindo
nas doutrinas da religião christã os escravos africanos, e os boçaes
gentios do sertão do Brazil. Aprendeu para isso as linguas brazilica e de
Angola; e sem declarar ainda o voto, que havia feito, entrou a desempe-
nha-lo nas occasiões, que se iam offerecendo. As almas muito activas, e
que do seu poder têm, mesmo implicitamente, grande confiança, alvoro-
çam-se e accemlem-se com as ditficuldades, desprezam o mais seguido e
commum, e só procuram o que é menos vulgar e mais custoso. Tal era
certamente a de António Vieira ; e taes são as dos homens raros, que por
obras extraordinárias enchem de assombro os seus contemporâneos, e dão
largo e durável brado na posteridade *.
Continuava entretanto os estudos de humanidades, em que os jesuitas
costumavam demorar-se. Nos seus edifícios, que vemos ainda hoje, não
procuravam tanto a elegância da forma, como a consistência e duração.
Na profundidade e segurança dos alicerces, na robusteza, travado e apru-
mado dos muros punham o esmero principal. O mesmo era no edifício lit-
terario, de que elles tinham as humanidades, e com razão, por fundamento.
Eu não posso approvar sobejo cuidado em alicerces ; todo o excesso tem
de certo inconvenientes : mas a decidir-me por algum dos extremos oppos-
los, antes escolhera o dos jesuitas, que o dominante hoje em dia por toda
a Europa.
Os alicerces são agora muito superflciaes c mal seguros ; e o que se
' Como o meu fim não é CDcareccr além díi verdade Ijiista, confesso que o assom-
, l)ro, que causou Vieira, e o brado, que deu, nem foi sobejanioute largo, nem promette
a durarão indefinida, que chamamos em taes casos immortalidade: mas o que eu
airmno, e é certo, é que assombrou e deu brado que durou e durará na posteridade,
e que se nas obras não egualou os homens verdadeiramente grandes, podia eguala-los;
pois que as suas faculdades não eram menos extraordinárias, que as de muitos d'elles.
13
segue, é que as uossas aicliilecluras primeiro são ruiiias, que cheguem
a ser edifícios. .Mulliplicaui-sc qu.i>i a inliuilo as empresas deste género;
mas as obras que desafiam o lempo, que promelleui immorlaiidade, são
neuliumas. Kallaudo sem ligura, muitas são. e aiiula mais que uiuilas, as
pessoas que agora recebem aigimia leve tintura de leltras ; porém, se com
isso a impertinente piesumpção v nmitd vulgar, a verdadeira sabedoria
è sempre rara: e stMique u será, [lor mais que se imaginem alvitres de
espalhar larga u rapidamente a instructjão ; us quaes. dado ipie se realizem,
farão, se me não engano, mais presumpçusos e iuciujelos, mas não farão os
homens ao lodo mais sábios, nem melhores*.
Cluando Vieira professou, pouco mais tiuha de dezeselc aimus ; e já os
que presidiam no collegio o encarregavam de compor as carias latinas
annuaes por que a provincia do Hrazil usava conimunicar-se e dar conta
de si ao superior governo da Sociedade na Europa *. Tal encargo requeria
discreção para avaliar e escolher os acontecimentos, prudência para bem
dispor a sua narrativa, propriedade, clareza, e cerla graça de estylo, e de
eslylo latino : e tudo isto uelle reconheciam os discretos da sua corporação.
De dezoito aunos foi mandado para Olinda ler rhelorica ; e nessa edade
compoz Commenlarios ás Tragedias de Séneca e talvez às Metamorplioses
de Ovidio^ K poslo que as severas leis do regulamento lilterario dos
jesuítas lhe não permiltissem Ião cedo frequentar as aulas de Theologia,
nem mesmo as de 1'hilosolia: atreveu-se com tudo a commentar o Livro de
Josué, e até o dos Cantares *. liste arrojo, evidente eífeito de Ímpeto juvenil,
mostra pouco conselho. Só a falta d elle se abalançaria em taes circumstan-
cias, a empresa de tamanha dilliculdade, pela erudição vasta e recôndita,
' Os liUcratos bem aproveitados são .senipri' poucos, já em razão da raridade dos
grandes talentos, já por falta de educação e outras circumstancias; os meios htteratos
são sempre perigosos., pela comliiDação, quasi iuíjllivel, de fiaca sufliciencia com
ousadia presumida: e destas duas aflirmalivas, ou evidentes ou de prova-muito fácil.
I>em se segue que com a vulgaridade dn instruerão lilleraria, ha de crescer o perigo,
sem adíantamentn da suLi'doria.
» Veja-se André de Barr. 1. I. § XX.
' Posto que Barros (ibid. § XXII) dá nuticia d'esli's dois Comuientarios, não
adirma, cum tudo, que fosse composto então o das Metamorplioses; e este é o motivo
d:i nossa hesitarão.
' Barr. ibid. § XXlll, diz que este trabalho foi emprehendido — ainda antes de
limiar 20 annos de edmie — o que da pelo ti-inpo da residência em Pernambuco, ou
({uaái logo.
14
inorunda doutrina llieologicn, c sagacidade de atinado senso critico, que
reqner. 1'orcni mostra ao mesmo tempo uma superabundância de aclivi-
dado, um gentil denodo de resolução, de que Lem se podiam prometler
e esperar grandes coisas em ânuos de mais assentado iiitendimenlo.
Por vinte ou vinte e um de edade, parecendo aos superiores que se
achava em estado de empreliender mais altos estudos, resolveram que
entrasse no ordiuaiio curso de Philosofia, para passar finalmente a ouvir as
doutrinas tlieologicas. Foi neste passo que António Vieira declarou o voto,
que d'antes fizeia, e. publicou a sua tenção de renunciar o descanço e
gloria da profissão das letlras, para se entregar todo á direcção chrislâ
c conversão dos africanos e brazis*. Com o mesmo ardor e instancia, com
que outro pediria que o acceilassem nas escholas, e o admittissem ao
caminho socegado e Iionroso do magistério, rogou e supjjlicou Yieira que
o deixassem no grau mais rasteiro, mas livre i)ara seguir o seu projecto,
tão cangado e diílicil, como era piedoso. Porém os superiores, julgando
que não deviam giaiide allenção a um voto, que em razão da edade se
podia reputar mais pio, que avisado; e não querendo privar. a Sociedade
dos avultados proveitos, que juslamenlo se esperavam dos talentos insignes
de Vieira, foram de outro parecer ; e irritando o voto, o mandaram conformar
com sua resolução : na supposição muito provável de que o fervor aquie-
taria com o tempo ; e que Vieira lhes agradeceria, depois esta opposição
á sua vontade actual. A experiência todavia provou o contrario; porque na
edade madura, Vieira mostrou o mesmo alvoroço e brio para seguir a(juelles
propósitos.
Obedeceu coiiiludo e conformou se com a resolução dos superiores,
principiando a estudar Philosofia. Da sua penetração cm comprehender,
da subtileza e força em arguir falia aqui o biographo nos termos mais
encarecidos ^ E a julgar pelos argumentos de penetração e sulitileza, de
que abundam os seus escriplos, e os sermões em especial, devemos crer
que Barros não exaggera. É admirável a finura e agudeza com que elle,
jias suas empresas mais extravagantes, parece sondar peifeitamente abys-
mos, apartar duvidas, e sahir dos euleios mais im[)licados^' Não é muitas
BaiT., ilíid., s§ XXIV— XXVI.
BaiT., ihid., §§ XXVll.
Occorrein » Ciulii passo nos siTinòcs arguiiirntus il\>sla pcnctiarrid c sulHileza :
15
vezes, senão fábrica phaulaslica, ou magica, que c^.in o menor impulso da
razão se desfaz e resolve em fumo e nada ; mas tem appareucia (pie illude.
prova grande poder e cerla virlude creadora na privilegiada niLiile, ijue
a levantou. Laslima-se o leitor, e porventura iudigna-se, de ver lao mat
gasta tamanha virtude de engenho: mas não pôde deixar de a reconhecer
com certo assombro e maiavillia.
Ia tanto adiante dos mais o vasto alcance deste espirito raro, que em
quanto era nas aulas ou\inte de Pl.iiosufia, compunha no seu particular um
curso phiio.^oQco '. li «pian.lo dei.ois frequentava as aulas theologicas,
sahiu com tratados e questões de tal substancia e valia, que teve dos
superiores, não direi disi.ensa ou iseiu;ão de mero tavor, mas i)OMli\a
determinação, para não tomar as posliUas de oulreni. Era o mesmo que
confessar, que ao tempo, em que se considerava como discípulo, possuía
cabedal bastante para si-r mestre. Declaravam com elíeilo os mestres, que
não tinha que apprender dclles ; e promptos estavam os companheiros a
lhe conceder a primazia sem emulação: que talvez é o triumpho mais raro
e menos equivoco, que pode ganhar um grande talento, reduzir os que
estariam na razão de lhe disputar o passo como emulos. a reconhecerem
que lhes não é permillido entrar com elle em competência.
\utes de se ordenar de presljylero em dezembro de 1G35, e nos annos
posteriores até 1()U), seguiu na Bahia e suas vizinhanças o púlpito com
•M-ande heqnencia ; em cujo ministério assentou a maior parte da sua cele-
bridade, e consistiu, quanto a mim. a menor do seu verdadeiro mereci-
mento*. No volume Xli dos sermões se acha estampado um, que pregou
em 10;]3 ; o volume V oilerece outro pregado em 1034 ; e nos volumes
desde o II ao XI vem dispersos dez ou onze, que inconteslavehnente
foram compostos de lU3o até IG40 3.
guando M. Tullio aos vinte e oito annos da sua etlade deleudeii a mno-
e cm muito maior fioiiuuncia nos íciiuõcs menos Ji^nos de estimarão. E iromo aquella
.•a5ta (1.; talento era tida dos contemporâneos cm muito incn., fui uma das maiores
razões do aiipiaiíso de Vieira.
' naiT. 1. 1., S XXVIII.
« o mercdmento indisputável de Vieira, em quanto escriptor, consiste, se me nao
engano, na propriedade, clareza, decoro dos escriplos, ipie não são oratórios, o no
perfeito uso da lingua portuguesa cm todos: mas os oratórios é que o lizeram famoso,
e não sei se diga. que em razão dos seus vicios.
' De 23 até :}2 annos de edadc; pois que Vieira nasceu, como dissemos, cm 100».
16
cencia de Roscio Araerino, os bons juizes notaram, e notamos nós ainda
agura na sua oração, aquellas verduras e signaes de gosto errado ou im-
perfeito, que elie reconheceu e emendou depois', e de que se mostra tão
afastado na defesa famosa de Ligario, e nas invectivas contra Catilina e
contra Marco António^. É com tudo claro, que o defensor de Roscio já
promette o de Ligario e de Milão ; e que d'aquelle primeiro discurso se
podia e devia inferir que os annos consumiriam o sobejo viço, e trariam a
eloquência sã e robusta, que devia maravilhar e ensoberbecer Roma, como
na verdade veiu a succeder.
Este nosso Tullio porém, posto que entre vinte cinco ou vinte seis annos
e vinte oito de edade não haja grande differença, nem podia admirar ura
juiz bera entendido, nem lhe podia prometter grande melhoramento, e
muito menos eloquência consummada de futuro. Não quero antecipar espé-
cies, e guardo para occasião mais opportuna, quanto á rhetorica do púlpito,
o exame e reprehensão dos defeitos de Vieira, e das suas causas. Mas
direi brevemente, que Tullio mostrou a favor de Roscio maiores e mais
próprias disposições para a eloquência ; que o seu vicio era tal, que cora
o tempo quasi necessariamente se devia corrigir ^; e que nos reparos dos
seus competidores e bom juizo d'aquella edade achava razões poderosas
para a emenda : alem de dar já bem a ver que estava senhor dos bons e
sólidos princípios da arte oratória. Em Vieira era tudo pelo contrario:
fracos princípios ainda da arte ; juízo pervertido dos contemporâneos e
rivaes ; defeitos, que o tempo devia, não corrigir, mas adiantar e confir-
mar*; e talentos, que se bem em absoluto egualavam, que fora muito dizer
que excediam, os de Cícero, nesta matéria porém, como se dirá melhor era
seu logar, lhes eram sem duvida muito inferiores.
Para fazer rigorosa justiça, devo comludo declarar, que no sermão
1 A uimia abundância, certo gosto de brilhantes e contrapostos, mais ardor de
phantasia, que uso de bom discurso.
- Modelos acabados, .na verdade, do bom senso, allectos e adaptada expressão ; em
que se cifra a eloqueiii'ia perfeita I
^ A copia e ardor naturalmente diminuem e esfriam com os annos, e com o uso e
com a lima da razão. Mulíum indr decuqutml umú, muUum ratio limabit, aliquid velut
vsu ipso deteretur : diz Quinctil., 1. II, C. IV.
< Quando na primeira parte da vida falta o fogo de imaginação, e o coração fácil
de se tomar de alfectos, d'onde provém ao discuiso alma, movimento e formosura, que
se pôde esperar das edades seguiutes ?
1
17
de KkU, on o decimo quarlo do vuluiue V, se eiicoulraiu varias senlenças
exceHenles', e se nola um coiihccimenlo do mundo e do homem bem
siiporior ã edade de vinte e seis annos, e não sei se ao que Cicero mostrou
na primeira Oração ; que no sernjão decimo quarto do volume II, pregado
em G:]7, se acham algumas verdades profundas, e hem c devidamente decla-
radas-; que no decimo do volume VI, pregado na presença de muitos
ofBciaes militares de sangue nobre, pertencentes ás esquadras portuguesa
e castelhana, que em 038 se achavam fundeadas na Bahia, diz coisas muito
de approvar, enijirega tom giave e accommodado exactamente ao auditório,
e ua dignidade e aviso, com que falia, representa, aos trinta annos talvez
incompletos, um maduro mestre ^ ; e finalmente que em todos os sermões,
compostos no espaço de tempo, a que agora nos limitamos, a linguagem,
exceptuando a do primeiro de lodos e a do decimo terceiro do volume Vil,
é por abundância, propriedade, correcção, pouco menos, se acaso menos,
([ue perfeita.
Apezar de ser lastimosamente pervertido o gosto do seu tempo, o que
ni-slas composições havia de bom e estimável era até certo grau apreciado ;
os defeitos, que o século tinha por virtudes, lhe eram ainda mais levados
em conta de merecimento : e mostrava elle em tudo feliz promptidão de
engenho e memoria, ainda reaíçada com raro desembaraço e segurança,
que foi um dos dons particulaics. com que o enri(iueceu a natureza. E
como por outro lado era confessada pelos mestres, reconhecida dos cou-
discipulos, e notoi'ia geralmente a sua dislincção e superioridade nas
escholas ; tudo isto junto o fazia olhar como espécie de prodígio, de que
as gentes se maravilhavam, e se promelliam em lettrasos progressos mais
agigantados : que todavia não corresponderam a tamanha esperança, posto
que milito fundada nos talentos e disposições egrégias do sujeito. Tão
honrado credito, e tão universal, atalhou pois a resolução, que tinham tomado
os seus superiores de lhe comiijetterem o ensino de Theoiogia, e empenhou
' Veja-se só o exórdio e os eonsolhos di; Doeg a Saul, e as resoluções de David
áeerca do rei Arhiz, logo nos números Wó e 4G(j.
- Sobre a dependência, que a paz do mundo tem da justiça ; sobre a união intrín-
seca, que as mais virtudes tèm com a verdade ; sol)rc ó pouco caso e esquecimento
dos vivo? para com os mortos, se não é pelo respeito de outros vivos, etc, ctc.
^ Veja-se as más consequências ilo desprezo de um liom conselho nas facções
militares, expostas e apertadas com grande dignidade e aviso, nos números 306 e 307,
com o exemplo de Holofemes em Bethulia.
2
Í8
Vieira em caminlio inesperado; trazendo-o da província do Brazii para a
Europa, por uma occasião tão celebre, como gloriosa na historiado nosso
reino.
Esta occasião, certamente celebre e gloriosa, foi o levantamento de rei
natural na pessoa do duque de Bragança D. João, em dezembro de 1640 ;
successo, que pelo valor, pela prudência, pelo segredo, talvez tenba poucos
na historia conhecida do mundo, que se llie possam comparar. Governava
então o Brazii, e residia como vice-rei na Bahia, D. Jorge Mascarenhas,
primeiro marquez de Montalvão, homem de intendimenlo e esforço, por-
tuguês leal e cidadão de grandes serviços ; os quaes, não por sua própria
culpa ou desprimor do príncipe, mas como por empenho adverso da for-
tuna, lhe foram pagos, como o poderam ser avultados desserviços*. O
novo rei poz logo muito cuidado em expedir para a Bahia noticia do que
passara no reino, e ordens discretas, para que o Brazii seguisse a mesma
voz de Portugal ; e o marquez de Montalvão as cumpriu com promptidão
e fidelidade dignas de um fidalgo iionrado, e de um português amante
verdadeiro da sua pátria. E julgando que ainda com isto não tinha feito
tudo, resolveu mandar ao reino seu filho D. Fernando Mascarenhas, para
que por seu pae e por si desse os parabéns e prestasse a devida home-
nagem a el-rei. Não quiz porém mandar seu filho sem um companheiro
capaz de o dirigir ; e a grande fama e porventura próprio conhecimento.
' D. Jorge Mascarenhas veio preso da Bahia para Lisboa por errada execução das
ordens d'el-rei D. João IV. Em Lisboa foi preso em outra occasião, e logo solto por
decreto muito honroso ; mas novamente foi preso no Castello, onde falleceu, passado
pouco tempo. Os historiadores depõem das suas grandes qualidades e innocencia, e
auribuem claramente os seus desgostos, e a ruina da sua casa á imprudência da mulher
e filhos. Veja Hisl. Genealog. da Casa Real Port, tomo XI, pag. 692, e Portugal Restau-
rado, vol. I, liv. III, pag. 144, i47 e 148 da ediç. de 4.°, liv. VI, pag. 401, vol. II,
liv. VII, pag. 90, VIII, pag. 115. *
* N- JB. Fernão Martins Mascarenhas, capitão dos ginetes da guarda de D.João II,
teve de sua segunda mulher, D. Violante Henriques: 1. D. Nuno Mascarenhas, pae de
D. João Mascarenhas, o defensor de Diu; 2. D. Pedro Mascarenhas, Visorei da índia, que
instituiu o morgado de Palma; 3. D. Manuel Mascarenhas, pae de D. Francisco Masca-
renhas. Este D. Francisco Mascarenhas casou com D. Jeronyma de Castro, e d'ella teve
D. Jorge Mascarenhas, marquez de Montalvão. Era pois o marquez D. Jorge bisneto do
capitão dos ginetes de D. João II ; e seu pae D. Francisco Mascarenhas era primo com
irmão do defensor de Diu, e tanto elle como o defensor de Diu, eram sobrinhos de
D. Pedro Mascarenhas, Visorei da índia e instituidor do morgado de Palma.
19
I ((pie tiulm de António Vieira, o tielcrminou a escollié-lo, e a pedir com
inslaucias o seu consentimento '.
Com I). Fernando Mascarenlias e o padre Simão de Vasconcellos largou
António Vieira da Bahia em Hl de fevereiro de 1G41. A navegação loi
pro.-^pera até quasi ás aguas de 1'urtugal. Jlas por meado de abril foram
assaltados de temporal tão temeroso, que os obrigou a alijarem o batel, a
arlillieria, e mesmo a aguada, ijue traziam: e quando apenas respiravam
d'estc primeiro susto, sobreveio nova tempestade, que os poz em egual ou
maior risco. Devia de os afastar muito da terra o ímpeto dos ventos, ou
vou-os o temor a fazerem-se outra vez muito na volta do mar; [jorque
.i.cançando-os a tormenta em 13 e 14 de abril não muito longe das cosias
desle reino, só a á8 é que sahiram na praia de Peniche, onde os aguar-
dava perigo de outro género, mas em que não tiveram as vidas muito
meuos arriscadas -.
O amor da liberdade, principnlir.cnto no momento em que ella se recobra,
I é muito estremecido e suspeitoso. Os portugueses acabavam de a recobrar
com um ardor honrado, que dizia bem com o brio e nobre horror de
estranha sujeição, que haviam mostrado bizarramente em outros tempos:
e por um infeliz acaso a mãe e irmãos de D. Fernando Mascarenhas tinham
(lOuco antes dado provas de menos aíloiçoados á liberdade, que ao triste
iMptiveiro da sua pátria. Fosse agradecimento aos favores recebidos dos
reis de Castella, fosse effeito da persuasão de alguns partidistas interes-
sados no dominio castelhano, D. Pedro Mascarenhas, filho primogénito do
niarquez de .Montalvão, e seu irmão D. Jeronymo Mascarenhas tinham fur-
tivamente saindo do reino, para se ajuntarem aos nossos inimigos : e sua
mãe D. Francisca de Vilhena, além de suspeita de acompanhar seus filhos
na deslealdade de pensamentos, houve-se cora tão pouca discreção, ou
Ícom Ião descomposta imprudência, que el-rei D. João IV se viu obrigado
a mandal-a encerrar no castello de Arraiolos^. E este successo por ser
' Veja-se Andri; de Barros I. 1. g XXXII.
í Barros ili. § XXXIV, e Puiiiig. lírstaur., vol. I, 1. III. pag. Ii8. D. Fernando
Mascarenlias foi conde de Serem, conlirmado no ofllcio de marectial do reino, general
da provineia da beira, e do conselho de guerra : falleceu em 1(>19, deixando uni fillio,
qne foi segundo ronde de Serem, e acabou sem tomar estado.
^ Portugal Restaurado, vol. I, pag. i:ii. Mas saiiiu da prisão, tanto que chegou da
Bahia seu filho D. Fernando Mascarenhas. — O outro filho D. Jeronymo, que tomou os
20
acontecido de fresco, e pela importância de taes pessoas, e outras mais
notáveis, envolvidas na mesma culpa, trazia o reino alvoroçado, e as gentes
em grande desconfiança, de que se originavam, com qualquer motivo,
graves tumultos e muito arrojados procedimentos.
Bem o experimentaram agora D. Fernando Mascarenhas e seus com-
panheiros, em sahindo na praia de Peniche. Tanto que constou que era
chegado um filho do marquez de Montalvão, alvoroçou-se o povo, por não
saber distinguir as suas tenções das de seus irmãos, e tendo-o por impli-
cado no mesmo crime. D Fernando trazia uma das mais agradáveis noti-
cias, que se podiam desejar neste reino, e nella argumentos evidentissimos
da fidelidade de seu pae e da sua ; e comtndo foi recebido como inimigo
e como traidor á mesma pátria, em cujo serviço navegara desde o Brazil.
Recebeu uma grave ferida na cabeça, e propunham-se os alvoroçados a
tirar-lhe a vida ; mas o conde de Athougia, que se achava governando em
Peniche, teve occasião de acudir ao tumulto, e de o pôr a salvo, recolhen-
do-o em sua casa, onde o fez curar e tratar com grande humanidade e
corlezia. Perigou também a vida de António Vieira, e ainda esteve preso
no dia 29 de abril ; todavia desfez-se em breve a cerração, e o mesmo
Vieira escreve, que no dia 30 partiu para Lisboa, e chegou a ver a el-rei *.
Aqui tem propriamente principio a vida publica de António Vieira, que
neste novo theatro não fez menos luzida figura, e deu muito maior exer-
cício á sua natural e rara actividade, que no primeiro. O ministério evan-
gélico abriu a entrada ; seguiu-se a graça e favor d'el-rei, que como recahia
em conhecimento da sua muita capacidade, não a quiz deixar ociosa : antes
a empregou com frequência, escutando o seu consellio em matérias muito
relevantes e espinhosos negócios, de que abundava aquelle tempo e fiando
da sua destreza, fidelidade e zelo empresas, que requeriam em alto grau
aquellas qualidades. Se António Vieira, contra o que era de esperar do
graus de Theolugia um Coimbra, e.se passou com o mais velho para Casteila, foi lá
promovido a bispo de Segóvia, onde morreu nomeado para Astorga por 1670. Foi homem
de instrueção, mas contrario acérrimo da restauração portuguesa, e com estranheza
dos mesmos Gastellianos. como diz D. Luiz de Menezes, ibid. pag. 131.
I Portugal Rfislaiir., vol. I, pag. 148, o mesmo Vieira no seguinte fragmento, alle-
gado pur André de Barros 1. 1, § XXXV: Aos 28 de 641 chegámos a Peniche, onde qui-
zeram malar ao Marchai. Ao:i 20 de 641 me quizeram malar, e me prenderam ; e parli
para Lisboa aos 80 de 641 : cheguei a Lisboa, e vi a S. Majestade.
21
seu eslado, c dos peiísaiueiitos, que d"aiiles o occupavam, se tornou aulico
e se einpenliou em negócios políticos, por correspondência ao favor, com
que o tratava o príncipe, ou por zelo da pátria, que corria muito risco, ou
por elTeito da sua mesma actividade, ou enifim por tudo isto junto, mal
podemos aHumar sem alguma hesitação. Como |)orL'ui se davam todas estas
razões, e o modo, por ijue obrou Vieira, é d'ellas natural consequência,
cuido (pie de todas realmente procedeu. Mas sempre julgo, que o caracter
de Vieira me dá fundamento para suppôr, que no impulso, que o deter-
minou, o zelo da pátria foi muito subordinado à própria actividade e ao
ilesejo de servir ao príncipe, cuja graça, por ser de priucipe, e de prin-
iipe que sabia grangear corações, devia ser na verdade muito poderosa.
Entrou a pregar António Vieira em Lisboa logo desde 1042, e no pri-
meiro dia deste anuo pregou á corte na capella real '. A novidade, o
gosto do tempo, a opportunidade de algumas lembranças, o louvor e mesmo
acerto, com que fallava da nossa restauração, a facilidade e pureza de
linguagem, o desembaraço do orador, fizeram o seu natural efileito. Foi
louvado, applaudido, seguido de todos, cultos e incultos. A estes últimos
enlevava a clareza, o tom pelo commum decentemente familiar, o sal às
vezes bem picante, a eflicaz intimativa de Vieira : os mais instruídos admi-
ravam com applauso a noticia vasta das escripturas, a sua ap|)licação
nimiamente engenhosa, a subtileza de grande parte dos argumentos e a
urgência de todos, a finura dos conceitos, a muita agudeza dos pontos e
brincos pueris, com que se deleitavam até os melhores ouvidos d'aquella
edade. As pessoas mais dadas à piedade e devoção, não se cançavam de
lhe ouvir propor a moral mais rígida e desenganada, com uma força de
convicção, com um ar de naturalidade grave, a que sò as paixões obsti-
nadas podiam fazer resistência. Lisboa inteira corria pois a ouvi-lo, ante-
cipavam-se muito as horas, enchiam-se, a não poder mais, os templos de
maior capacidade '; e os ouvintes sabiam por fim, uns commovidos, outros
' Mão posso afflrmar se pregou em Lisboa ainda dentro Jo anno de 1641. O sermão,
de que aqui se falia, é o undécimo do volume do mesmo iiumeru. Mas é de nolar, que
no dito volume iraz a data de 16il ; o que certamente é erro, pois que Vieira chegou
a Lisboa em 30 de abril do liito anno. Esta observação, e outras, me obrigam a ter
por menos seguras as datas, que se acham em frente dos seus sermões impressos.
' Não só o diz André de Barros no logar citado, § XXXVIII, e Francisco de S." Maria
no Oúirio Portuguez, no dia 18 de julho n." IV; mas até o confessa o auctor da Deducrão
Chronologica, P. I, n " 361, o mais ardente adversário da gloria de Vieira.
22
satisfeitos, e todos admirados do engeniio, do saber e espií-ito do pregador.
E se os applausos, que no foro e senado romano ganliava a eloquência sã
e formosa de Cicero, eram certamente mais bem merecidos e gloriosos ;
não eram comtudo mais sinceros, nem mais capazes, supposto o modo de
pensar dos tempos, de lisonjear o animo do orador.
O conceito próprio e a geral opinião determinaram el-rei a escoilie-lo
para seu pregador, de que no anuo de 1644 llie mandou patente por um
grande do reino, que o biographo não nomeia. Tal distincção com as par-
ticulares e repetidas conferencias, em que sobre os maiores negócios o
consultava e ouvia com grande confiança, lhe grangeou largo credito de
privado do príncipe. Á inveja d'esta privança e do commum applauso attribue
André de Barros a forte contradicção e viva censura, de que então foi com-
balido '. É certo que os privados dos reis poucas vezes escapam aos tiros
da inveja ; e bastante causa era esta para Vieira soffrer contradicções,
assim como a distincção dos seus talentos, e o louvor, que com elles
lograva, eram bastantes para irritar os humores e desafiar as satyras dos
que pretendiam ser seus rivaes. Mas parece-me que é preciso confessar,
que Vieira, por seus ditos picantes e liberdade em certos casos menos
ponderada, accendia ainda mais a inveja ; e que nos vicios de sua eloquência
offerecia muito, de que podesse lançar mão a rivalidade. Os ouvintes, pelo
commum, ou não advertiam nestes vicios, ou os desculpavam em favor de
reaes ou de imaginadas virtudes ; mas a rivalidade mais aguda e menos
indulgente tomava delles occasião para se vingar com sarcasmos e motejos ;
a que Vieira, comtudo, segundo refere o seu biographo, só respondia por
meio de generosa e bem intendida indifferença ^.
Teve ainda o valimento e cabimento com el-rei outra consequência
pouco agradável para Vieira, que não era muito de esperar. Parecia que
os jesuítas tinham razão de se comprazer de que um tal sócio tivesse
grande trato e valia na corte : muito mais porque foram notados em todo
o tempo de procurar entrada nas casas dos soberanos, e influencia nos seus
conselhos; e é certo (jue a'historia não desmente este reparo dos seus
desaffeiçoados. Cuido porém que algum passo pouco advertido de Vieira
lhes deu tal ou qual motivo de desconfiança, e que se temeram de que a
sua grande vivacidade, encostando-se ao favor do príncipe, desprezasse os
í Barros, ibid. §§ XLI e XI-II.
' Barros, ibid. § XLII.
23
.il)erta(ios vínculos de sujeição, por que a interior disciplina continha todos
iis professores do instituto : e não lia duvida que André de Barros alTirma,
que receosos de que ajudado d'el-rei quizesse introduzir novidades na
sua corporação, se mostraram menos satisíeitos, e até ciiegaram a pôr em
conselho o demitti-lo '. Mas ou porque Vieira não dava na verdade justa
causa de desconfiança, e os jesuitas reconheceram a sua iniiocencia, ou
porque mudou seriamente as suas resoluções, o descontentamento cessou,
e o encontro não teve mais elleito, do que mostrar a grande conta em que
(i tinha el-rei, e dar um novo e claro exemplo da paixão, com que todo e
qualquer jesuíta amava o seu instituto; paixão, que tive sempre por admi-
rável, e cujas razões sempre me pareceram dignas do' mais considerado
exame.
El-rei informado da desconfiança dos jesuitas, e dos incoramodos, que
ella causava, ou podia causar, a António Vieira, propoz-se a valer-lhe por
qualquer modo ; e até lhe mandou offerecer pelo secretario d'estado Pedro
Vieira da Silva algum dos bispados vagos, para sahir airosamente da com-
panhia. E António Vieira declinou neste ponto o favor real, respondendo
ao secretario d"eslado nos termos mais expressivos de devoção e respeito
á Companhia : que allega André de Barros, como formaes, e que são muito
para notar: Qiif a todas as mitras, de que Sua Majestade podia dispor,
antepunha elle o viver no logar mais humilde entre os jesuitas. Que se estes
chegassem a o despedir, e nem para servo o quizessem admiltir de novo, ficaria
da parte de fura lastirmndo-se e chorando, até acabar a vida junto daqucllas
amadas portas, deitíro das quaes lhe tinha ficado a alma toda ^.
Se tão ardente devoção e respeito fosse singular em António Vieira,
seria ainda notável coisa, que um espirito dotado de tamanha vivacidade,
quando linha motivos de se resentir dos seus sócios, e achava no throno
protecção Ião decidida, perseverasse com tal firmeza em pensamentos de
* Barros ibid., § XLllI: Que se temeu o coração de Vieira que a Compaiúia o demit-
iitse de si. Mas do antecedente se infere bem, que este temor tinlia por mulivo o com-
portamento dos seus sócios.
' Barros, itiid. § XLV. Na Dedurçlo Clirnnnl., P. l, n." .378, e nas Provas n." XLVI
vem copiada uma carta del-rei com data de 6 de setembro de 16'i4 para o provincial
António Mascarenhas, a qual intendo que se refere a este suecesso. El-rei diz, que se
haverá por bem servido de que António Vieira não padeça vexação e accrcscenta: cto/-o
encommendo assim o mais apertadamente que posso.
24
profunda veneração. Mas a verdade é, qne este modo de se haver com a
sociedade, se não era em rigor de lodos, era o commiim enlre os seus
alumnos. A concórdia (ao menos no que ajiparecia) era inalterável, a
sujeição inteira, o amor da corporação e a satisfação de ,llie pertencer
intensa, e com bem raras excepções universal. Aquelles mesmos, que a
deixavam, aquelles mesmos, que eram d'ella demittidos, mostravam-se por
toda a vida respeitosos e saudosos da congregação, a que haviam renun-
ciado, ou que os tinha por algum principio notado de menos aptos. Pheno-
meno estranho, novo, único em todas as historias do mundo!. . . E em
uma corporação espalhada por tão distantes partes do globo ! . . . Nume-
rosa, e muito numerosa, em cada uma das suas próprias províncias!...
Pelo dilatado espaço de mais de dois séculos!... Fora coisa incrível, a
não ser comprovada por tantos, tão claros e irrefragaveis documentos de
amigos, de inimigos, de indifferentes. Por que arte prodigiosa davam os
jesuítas tão estupenda harmonia a tal variedade de humores? contentavam
toda a sorte de affectos? fixavam as inconslancias da humanidade, tão
propensa e tão facíl de se alterar e se mudar? Resolveram nm problema
tão diíTicultoso, como importante: mas o secreto meio, por que o resolve-
ram, foi sepultado, talvez para sempre, na mesma ruína memorável dos
seus inventores '.
O auctor da Dcdncção Chnmolofjica c Áiiahjlica, sem se fazer cargo
desta dilTerença, que houve entre os jesuítas e António Vieira, sustenta,
que com elles conluiado, lhes serviu de instrumento, com que enredaram
e perturbaram a corte, e exercitaram no animo d'el-rei muito criminosa
influencia -. Mas a ser verdadeiro o seu pensamento, ou não houve tal
differença, ou foi entre Vieira e os seus sócios totalmente sinudada. Se
porém a não houve, como a refere por miúdo e com formalidade de
1 Eutre todds os documoutos favdniveis aos jesuítas merece muita distincção o
testimunlio do poeta Gresset na obra intitulada Adienx aux jcmites, que se lô na edi-
ção de Paris, 1806. voi. II, pag. 123. Exulta o poeta de ter quebrado as prisões que o
detiuliani ua Companhia, em que havia enU'ado : comtudo recommendando a sociedade
com o mais alto e desinteressado elogio, e detestando as falsidades com que a calu-
mnia a denegria, úh :
Et si dans leurs foyers desarmais jc n' habite,
Mnn roeur me survit aiiprcs d'pnx.
' É a substancia de tudo n mw se (;ontém ua Part, I, e números desde 354 ate 379.
25
palarrns Aiulré de Uarros? Se foi simulada, comi) durou a sua uoticia; e
a que Qm a refere seriamente André de Barros, onde queria exaltar o
seu heroe, a quem, no modo de pensar do iiistoriador, a susiieita, que
teve d'elle a Sociedade, não era por certo airosa? Não é impossivel, que
o pretendido conluio tivesse logar, passado este conHicto, que não durou
muito. Mas o valimento de Vieira com el-rei não f(ji depois maior, e já é
preciso conceder um tempo, em (jue não teve aquelle propósito. E em fim
a paixão, com que discorre o auctor da Dcdticrão Chronnloyica, acerca dos
jesuitas, 6 hoje conhecida geralmente; e onde ha paixão conhecida, qual-
quer ai-gumeiílo contra os fados que ella refere, tem além da sua força
natural a que a paixão contraria lhe accresceiíla sem o saber, e certamente
sem o intentar. A seu tempo mostrarei (pie não pretendo ser adulador de
António Vieira ; mas se não quero ser lisonjeiro, também estou muito longe
de o querer injuriar, abraçando cegamente as temerárias affirniativas de
seus declarados inimigos '.
Na carta, com que abre o segundo volume das de Vieira, escripta ao
secretario d Estado no anuo de 1644, temos claríssima prova do muito
peso, que o governo do reino snppunlia no parecer de seu auctor em
qualquer matéria, e ao mesmo tempo do grande fundamento que tinha
para fazer similliante supposição -. Vcnlilava-se se conviria fazer guerra
ollensiva ou defensiva na campanha seguinte contra Castella ; e sobre
questão de tanto melindre e tão alheia do modo de vida e estudos de
Vieira, foi pedida de palavra e por cscripto a sua opinião ^. A opinião é
offerecida na dita carta cora tal eflicacia de razões, tal copia de arbítrios,
lai resolução de difliculdades, qual se pudera esperar de um politico e
soldado de largas e aproveitadas exjjeriencias; e juntamente lançcida na
linguagem mais precisa, mais clara, mais própria, mais natural, e todavia
culta, que pudera empregar um escriptor consummado: sem se esquecer
além disso dos preâmbulos ou satisfação da decente modéstia, que o bom
' Não precisa de outi"as provas a inimizade derlarada do auclor da Ucdiur. Chrn-
nolog. a respeito de Vieira, que o virulento c descomposto cstylo, por que lalla dclle
em toda a parte.
* Se pude na verdade parecer estraulio, que soiírc similiianto assuni|ito se consul-
tasse António Vieira, a sua resposta desengana do bom fundamento que tintia o governo
para o consultar.
' Obedeço a V. S., principia acarta, <• puiiliu empapei o que depalatro lhe respondi
acerca da gxtena, que lonvém fazer a Caskllaj e dos cabos, a que se deve fiar.
26
senso requeria da edade pouco provecta, e sobre tudo da proflssão e
exercício tão distantes das medilaçijes politicas e militares •.
Mas um dos primeiros e mais graves negócios, em que Vieira foi
ouvido del-rei, e seguido o seu conseilio, foi o modo mais próprio e
prompto de engrossar os meios para acudir ás necessidades urgentíssimas
do reino. Não havia erário; os povos estavam exgotados por tributos ante-
cedentes; as fortunas eram geralmente apoquentadas por entorpecimento,
se não quizermos dizer antes lotai falta, do commercio: era entretanto
immiuente e inevitável uma guerra muito empenhada e laiga nas fronteiras
ou no coração de Portugal; se a guerra das fronteiras pedia enormes
cabedaes, não pedia menos a necessária diligencia para recobrar e con-
servar as colónias e conquistas ; e na fluctuação de tudo, nas irregulares
circumstancias de occasião tão extraordinária, não se podia esperar stricta
economia. Lembrou Vieira, e sustentou com grande força de razões, a
instituição de duas companhias com os títulos de oriental e Occidental,
encaminhadas aos proveitos na índia e America ; advertido, como parece
confessar, pelo exemplo de Ilollanda, que de similhante expediente havia
tirado grande fructo. Procedeu pois el-rei a instituir a occidental; mas não
teve effeito, por motivo que ignoramos, a oriental : do que o mesmo Vieira
se lastima em graves termos, por esperar d'ella, no tocante ás índias,
resultados egualmente felizes que os da occidental; a que attribue a res-
tauração de Angola e a de Pernambuco "^.
O trato politico com as cortes estranhas foi outro ponto gravíssimo,
em que el-rei se determinou a empregar a penetração e diligencia de
Vieira. Mal podia a estreiteza de Portugal medir-se por si só naquella
occasião com a grandeza de Castella. Ilavía-se medido só, e braço a braço,
e com victoria assignalada, nos campos de Aljubarrota em tempo de
D. .João I; mas o competidor era então muito differente: e basta, para se
alcançar bem a differença, advertir que uma única batalha, porque o mais
1 Acceile V. S., continua logo, estas mal concertadas razões, como de quem as não
professa, e sirva-lhes de desculpa dictá-las o zelo da pátria, e escrevê-las o respeito, que
a V. S. devo.
2 Yeja-se especialmente a caria CXVIII do volume II, escripta ao conde da Eri-
ceira, pag. 387 e scg. O primeiro negocio, que propuz a Sua Majestade, depois da sua
felice restituição, foi que em Portugal, á imitado de Uollanda, se levantassem duas com-
panhias mercantis, ete.
27
foram coiiflictos a que não cabe nome Ião ap[)araloso, quebrantou e desen-
ganou os nossos inimigos; quando nas contendas da reslauraijão não
chegaram muitas balailias gloriosas a ser inleiramentc decisivas.
Apezar das suas perdas tão avultadas e tão repelidas, apezar dos seus
apertos por outras e muitas vias, e apezar da nossa constância bem aju-
dada da fortuna, Castella não largou o campo pelo dilatado espaço de
muitos annos ; e por fim cedeu, mais obrigada das attribuladas circumstan-
cias do interior, que da nossa, certamente valorosa e honrada resistência.
Grande foi, não ha duvida, o eathusiasmo português; e muito pode o
enthusiasmo de um povo de homens em defesa da sua liberdade : mas
Sagunlo, Niunaucia e Carthago são forle argumento de que enthusiasmo
valoroso não é bastante; e nos exem[)los, que [iodem ser allegados em
contrario, seria fácil mostrar a razão diversa, ou na pusiilanime leviandade
do poder maior, de que naquelle caso não podemos arguir Castella, ou
no concurso de outros estados, que por seu auxilio, mais ou menos decla-
rado, contrapesaram as forças, e desfizeram em favor do menos poderoso,
a natural desegualdade dos antagonistas,
À sagacidade del-rei D. João IV e do seu conselho não podia escapar,
nem escapou, o muito proveito, que devia seguir-se ã sua causa, dos
soccorros, das diversões, e até das meras correspondências amigáveis
entre os mais estados da Europa e Portugal novamente separado de Cas-
tella. A rivalidade de uns, a inimizade de outros a esta ultima potencia,
ou aos seus naluraes e íntimos alliados, convidava por uma parte, e faci-
litava por outra as negociações. Inglaterra era rival por interesses princi-
palmente de commercio: Ilollanda era inimiga, como quem só na oppres-
são e quebrantamento de Castella podia assegurar bem a sua independência:
Suécia contendia com animosidade por abater os Imperiaes, cujas pieten-
sões, por parentescos e pactos entre os seus príncipes, eram ajudadas
dos castelhanos: França, pela emulação ordinária entre os estados limi-
trophes, pelo ciúme de poder, e muito mais pela opposição das conve-
niências, ainda quando não tinha guerra declarada, como tinha de presente,
estava sempre disposta a favorecer o que podia causar detrimento á
colossal grandeza da familia de Carlos V.
Tinha muita importância mesmo a alliança com Catalunha; levantada
naqaella occasião, e lidando por meio das armas, ou para ficar inteiramente
senhora de si, on ao monos para obter mais avantajadas condições. O seu
mesmo perigo a tornava um alliado mais fácil de allrahir e mais seguro;
o trato com ella era um passo, que devia obrigar mais a nosso favor o
28
governo da França, muito empenhado por Calalunlia; e a sua posição, sem
nos impedir as communicações, divertia para longe de nós grande parte
das forças do inimigo. Quanto ás negociações com Roma, a piedade do
novo rei e a dos vassallos as requeriam egualrnente; e com ellas se devia
tirar um pretexto ás declamações dos contrários e ás duvidas e hesitações,
de outros estados menos resolutos. E ainda que desde logo se previram e
recearam difficuldades, e pelo menos largas demoras, o nosso prompto
recurso, e a reverencia, de que procedia, justificando o nosso acatamento
à Igreja Romana, e com elle a firmeza na fé dos maiores, satisfaziam á
nação portuguesa, punham em cuidado Gastella, e obrigavam a politica
itahana, ou a condescender, movida da justiça proposta com respeito, ou
a arriscar muito no juizo do mundo o seu credito de imparcial '.
Desde o anno de 1641 despachou pois a politica d'el-rei D. João IV
sujeitos, em quem confiava, encarregados de tratar allianças com vários
governos^. A 28 de fevereiro do dito anno sahiram de Lisboa, para França,
Francisco de Mello, mouteiro mór do reino, para Inglaterra D. Antão de
Almada, para Hollanda Tristão de Mendonça; e a 18 de março seguinte
partiu para Dinamarca e Suécia Francisco de Sousa Coutinho, um dos
negociadores mais beneméritos por destreza e zelo da pátria, de que temos
noticia na historia de Portugal ^. Não faz ao nosso intento o que se passou
nas negociações com Inglaterra e Suécia ; mas como António Vieira foi
depois mandado a Paris e llaya, necessário é tecer em breve a relação
1 Á primeira vista parece o comportamento da sé romana para com Porlugal^
naquella occasião, talvez menos paternal, do que o espirito do christianismo catliolico
o requeria; mas uma boa consideração vem a reconliecer, que Roma, declarando-se
logo em favor de Portugal, arriscava muito mais os interesses da religião, do que
tomando o partido moratório, que com elTeilo tomou. A uecessidade, além da piedade
própria, obrigava rigorosamente ei-rei D. João IV, a mna resignação, (jue era muito
menos de esperar da corte de Madrid. Por mais que se notem os procedimentos da
Guria, tenho para mim, que na maior parte são dictadus por discreção; e muitos
d'aquelles, que são reputados imprudentes, merecem outro conceito a quem os examina
sem preoccupações e com boa noticia.
2 Sigo aqui a relação de D. Luiz de Menezes, que julgo a mais copiosa e a mais
bem fundada, que posso seguir. D. Luiz quevia escrever a verdade, c possuiu grandes
meios de a alcançar.
' A grandes talentos ajuntou Francisco de Sousa muito uso. O duque de Bragança
D. João, depois el-rei D. João IV, o nomeou para lesidir em Madrid, logo que falleceu
o duque D. TlieodosiOj seu pae, em 1630.
29
das iiegociiKÕos neslui; duas capilaos. Suppiíaha-se, e suppuiilia so com
verdade, muita disposição em ambas, para recouliecerem a nossa inde-
pendência e se alliarem comuosco. Foi piompto com effeito o reconheci-
menlo: mas a convenção, peia cubica de lloliauda e pelas variedades e
apertos domésticos de França, foi demorada, e por fim mal succedida
com Ilollanda. e com França muito menos vantajosa, do que se esperava '.
Tristão de Mendonça concluiu com os holiandèses uma tregoa por dez
annos. (jue ou por pouco precatada nos veio a ser muito prejudicial, ou
foi caviliosamcute ilUulida peia cubica pouco escrupulosa da Republica.
Procedeu esta, ou procederam em nome delia os seus cabos, contra
Angola e o Maraníião; e ei-rei viu-se obrigado a mandar-lhe fazer enér-
gicas representações sobre esta matéria. E como Tristão de Mendonça
Unha voltado a Lisboa, foi mandado á llaya com este encargo Francisco
de Andrade Leitão, o qual em termos muito vebementes se queixou aos
estados; mas tirou fraco ou nenlium proveito das suas justificadas quei.\as.
Principiou entretanto o tratado de Westphalia ; e como a el-rei não fosse
concedido mandar a elle ministros com representação própria, tomou o
expediente de os mandar como addictos aos de outros governos: e foi um
d'elles Francisco de Andrade, que estava na Haya ^. Partiu para Osnabruck
Francisco de Andrade na primeira occasião; e para seu logar em Ilollanda
foi nomeado Francisco de Sousa Goutinlio, que no espaço de sete annos se
houve de maneira que a Republica em muitos casos, ainda que embara-
çada e incommodada pela agudeza destra das suas negociaçiJes, admirou
o seu exaltado e sagaz patriotismo.
Não tinha Portugal que 0[)pòr á cubica e forças niaritiraas de Ilollanda,
senão allegados da justiça, de (jue os cubiçosos fazem sempre pouco caso.
Como, porém, a oppressão bollandèsa sobre os portugueses dAmerica, o
o brio 6 valor natural d'estes últimos excitassem commoções, com que a
aucloridade ou dominio dos usurpadores se tornava mal seguro; deram
' Da politica e vigor do cardeal de Hichelieu e.sperava-se muito empenho em favor
dos portugueses: mas o cardeal e o rei Luiz XIII, mornMam Ingo: seguiu-se a meno-
ridade de Luiz XIV, e com ella os embaraços, incertezas c distracções, que costumam
acompanhar as menoridades dos reis.
* Havia sido collegial de S. Pedro e lente de Instituía em Coimbra. Nas cortes de
1640 recitou a Oração em nome do estado secular. Em 1641 foi enviado a Inglaterra
com D. Antão de Almada; de Inglaterra passou para Ilollanda ; e da Haya para Osna-
bruck, com Luiz Pereira de Castro, em 1648.
30
estes successos occasião a Fraucisco de Sousa Coutinlio, para fazer uso
fios seus eminentes talentos na arte de negociar. Corriam nestas circum-
slancias duas opiniões. A uns lembrava, que comprassem os portugueses
o que d'olles havia conquistado Iloilanda ; lembrança, a que os Estados,
por isso mesmo que a posse se ia tornando precária ou difficultosa, deram
ouvidos. Lembrava a outros, que entregássemos ou restituíssemos o que
se havia recobrado em Pernambuco, augmentando com grave ponderação
sobre as conveniências e sobre a força duríssima do império da necessi-
dade. Se não repugnava, hesitava ao menos, e com grande fundamento,
em abraçar qualquer d'estes dois partidos a corte de Lisboa: e da sua
hesitação nasciam demoras, respostas equivocas, e daqui por ambas as
partes frequentes desconfianças •.
Era nestes termos muito apurada a condição de Francisco de Sousa.
Mas previsto sempre e alerta occorria a tudo com promptidão, e cuidava
em tirar proveitos das mesmas perplexidades. Os Estados entretidos com
as negociações remittiam nos soccorros, que deviam mandar para a Ame-
rica, e a sua remissão confirmava e adiantava as commoções, de que
falíamos. Mantendo em certo ardor aquelias negociações, tratava pois com
todo o empenho Francisco de Sousa de dilatar a suspensão dos soccorros.
Demorou por este modo a expedição de uma armada, que devia largar
quanto antes dos portos da Hollanda: e como os Estados por uilhno se de-
terminassem decididamente a envial-a, acudiu com um arbítrio por certo
muito arrojado, que detendo ainda a armada desde julho até dezembro, a
empenhou nas verduras do inverno, obrigando-a, depois de três tentativas
infructuosas, a ficar emfim recolhida nos seus portos, com allivio de Per-
nambuco, que principalmente ameaçava-.
• De todas as missões diplomáticas d'aquelle tempo era para nós a mais difficul-
tosa a de Hollanda. Foi ventiiia o caber ao insigne Francisco de Sousa Coutinlio : que
na má fé e astúcias da Republica, nos vagares das decisões dos Estados, e até nas sus-
peitas da sua própria corte achou difflcuidades gravíssimas, que encarou sem sossobro
e venceu com grande credito. Quanto ás suspeitas da própria corte veja-se Port. Rest.,
ediç. de 1759, tom. 2, pag. 313.
2 E rendo que a armada partia sem duvida, valendo-se de algumas firmas em branco,
que tinha d'el-rei. prometleu aos Estados a restituirão de Pernamhuco, c com grande
brevidade deu conta a el-rei do que havia executado sem sua ordem, pedindo-lhe em
premio dos seus serviços, que logo o mandasse prender, e se fosse necessário, lhe cortasse
a cabeça para satisfação dos Estados. Port. Rest., part. I, L X, 1647, tom. 2, pag. 249.
I
J
3d
Eiu Fraiiija o monteiro-niór Francisco de Mello, chegando a Paiis em
margo de 1G4I, foi bem recebido d el-rei, e nas coiifereucias com o car-
deal de Kiclieiieu foi muito bem ouvido (Feste celebre ministro; de sorte
que se concluiu logo um tratado de amizade reciproca, mostrando o car-
deal por sua parle tão favoráveis disposições aos negócios de Porlugal,
que não falta (juem accnse o errado pundonor de Francisco de Mello, por
não tirar delias melhor partido '. Para obter uma Liga, foi mandado em
iG42 o conde da Vidigueira D. Vasco Luiz da Gama. Porém, achou o car-
deal já enfermo da moléstia, de que falleceu em breve tempo. E se a morte
do cardeal de Richelieu, dentro do mesmo auno de 1042, rompeu as ne-
gociações e entibiou as esperanças do conde da Vidigueira; não recebeu
menos incommodo e damno da morte d"el-rei Luiz XIH, succedida em 14
de maio de 1043. Por este acontecimento licou o goveino a cargo da rai-
nha ua meuoridade de seu fllho Luiz XIV, e ficou quasi inteiro aibilro do
animo da rainha regente o cardeal .liilio Mazzarini; cuja politica, partici-
pando das inceitezas e oscillações do seu poder, deu grande e inútil e.\er-
cicio á efficacia e á paciência do conde da Vidigueira'.
Mas posto que o conde da Vidigueira pouco ou nada adiantava no prin-
cipal negocio de concluir a Liga entre França e Porlugal, já porque as dis-
sensões do reino de França impediam um ajuste firme e seguro, já porque
Mazzarini mais se determinava por seu próprio interesse, do que pela
honra e conveniência da nação francesa, e daqui vinha em muita parte a
variedade de suas opiniões e a pouca firmeza de suas promessas; o conde
todavia fez á pátria muito serviço, porque sustentou a amizade entre as
duas coroas, e porventura leve mão na paz apressada com Castella, que
era de esperar, e que se esperava da natural inclinação da rainha regente.
França de mais a mais houve-se a nosso respeito nas conferencias de
Westphalia, que iam procedendo, com energia e firmeza, que se bem não
Se enganar enganadores não serve aqui de desculpa a Francisco de Sousa, o arrojo,
ao menos pelo que tem de patriótico, é digno de grande louvor.
• O cardeal oITereceu aos embaixadores ainda mais do que pediam ; mas eiies não
acceitaram, respondendo com errada phanlasia, que não precisavam tanto. Veja-se
Port. Rest.. part I, 1. IH, 1641, tom. 1, pag. 162.
* Se Mazzarini tinha por si a benevolência da Rainlia regente, linha lambem contra
si a mà vontade da maior parte dos grandes. Em razão d'isso o seu ministério foi muito
agiudo; e elle precisou de grande industria e valor para se suster, principalmente até
á paz dos Pyrcneus.
32
livernm por effeito o geral reconliecimeiito da nossa independência, deram
á nossa causa bastante importância, e penlioraram o governo francês com
mais este motivo de perseverança em nosso favor: e é de crer, que nisto
tiveram muito influxo a diligencia e approvados comportamentos do conde
da Vidigueira ; que na verdade sahiu com lionrado credito de Paris, quando
em fevereiro de 1046 se recolheu a Lisboa com licença del-rei, deixando
a António Moniz de Carvalho a agencia dos negócios de Portugal com o
titulo de residente.
Pouco mais de oito ou nove mezes se deteve o conde em Lisboa, por-
que el-rei tendo-o assim por necessário, o mandou de novo a Paris, aonde
chegou por princípios de 1G47, condecorado já com o titulo de marquez
de Niza, e com logar no conselho dEstado. Renovou o marquez as nego-
ciações com egual empenho; e lambem com a mesma falta de successo.
A rainha inclinava-se ainda mais claramente á paz com Caslelia, e a mesma
inclinação tinham alguns dos seus ministros. Desejavam ao contrario a con-
tinuação da guerra Mazzarini e o príncipe de Conde; posto que Mazzarini
com grande esforço e artificio dissimulava o seu desejo'. Não podia por-
tanto o governo francês seguir um plano fixo e constante acerca de Cas-
tella; o que necessariamente impedia a final conclusão com os portugueses.
Intendeu por ultimo o marquez, que França não concluiria comnosco, sem
se ultimar o congresso de Mimster. e que provavelmente poria termo á
guerra contra os castelhanos; e na supposição de ficarmos sós em campo
com os nossos antagonistas, entrou a negociar soccorros^. Nesta negocia-
ção, porém, experimentou dilliculdades não menos graves, e causadas de-
moras, que apurando muito o seu soffrimento, puzerara em grande emba-
raço a corte de Lisboa.
No estado de cuidado e de suspensão, em que acerca dos negocies da
Ilollanda se achava el-rei D. João IV, e no momento, em que com licença
sua voltava de Paris para Lisboa o conde da Vidigueira em 1G4G, é que
este príncipe se resolveu a mandar pela primeira vez o padre António
Vieira a Paris e Haya ^. A 8 de março do dito anno chegou à Rochella, e
' Voja-se Porl. Rest., p. I, 1. X, lfi't7, tom. 2, pag. 239 c 240. O prineipe queria
novas occasiões de grangear gloria e poder por suas proezas militares; o cardeal queria
dar entretinienlo aos espíritos e fazer-se necessário.
2 Veja-se Port. Rest., ibid., pag. 241.
3 Só em André de Barros, 1. I, §§ L e LII, acliei nolicia d'esia primeira jornada a
3;]
1 lá lie abril já se achava de volla de Paris em Calais: em cujo porto se
embarcou para Flessinga, e na llaya eiilrou a d8 do mesmo mez. Era a
sua commissão uesla primeira jornada, conforme o (jue diz André de Bar-
fos, informar-se do verdadeiro estado dos negócios em ambas as capitães,
ex|)lorar os génios e ca[)acidades dos seus ministros, e penetrar os seus
ínais occultos desigiiios e resoluções. Parece aqui com effeilo muito pro-
vável o dito do liiograplio; porque se de uni lado os precates (Tel-rei e
a demora das negociações o deviam ter desejoso de se inteirar perfeita-
mente do que passava; é de presumir por onlio lado, (jue não seria menor
a empresa, que se ílava de um liomem tão conceituado de agudo e sagaz,
como Vieira'. Como quer que fosse, o mesmo Harros diz, que voltou da
llaya a Lisboa passado pouco tempo; e é certo, (jue lemos razão de sup-
pòr, que já no fim de agosto era chegado ao reino -.
No verão de lGi7, em que a resolução do governo francês sobre os
soccorros de Portugal se demorava com tamanha impaciência do marquez
de Niza ; e em que l-Yancisco de Sousa Coutinho empregava os últimos
recursos, para impedir que a armada bollandésa partisse para Pernam-
buco, os receios e pungentes duvidas da nossa corte a determinaram a
enviar António Vieira novamente a França e Uollanda. Fez caminho por
Inglaterra: chegou a Londres a 2á, e de Londres a Douvres a 30 de
setembro. Partiu de Douvres, tomadas todas as precauções para não ser
demorado na ^)rn.ida por França, chegou a Paris em novembro, e á Haya
ainda dentro do ileziMubro seguinte ^. Barros o dá nesta segunda occasião ■
por vencedor das politicas de Mazzarini, imi)edinilo que viesse a portiigal,
como era voto e tenção do ministro francês, o priucipe de Conde; e toca,
posto que levemente, as diíTerenças de opinião, que surgiram entre António
França e Uollanda : mas não o posso suppOr aqui mal informado, ou desejoso de en-
ganar em ponto semelhante.
' Na Carta 118 do vol. II, a pag. 38G, asslgna o mesmo Vieira este motivo i sua
jornada: mas não é bem claro se lia de Inlemlerse da primeita, se da segunda; lia
razão para o Intender de qualquer d'ellas.
' O sermão decimo da duodécima parte foi, segundo a sua inscripção, pregado em
Lisboa a 17 de setembro, e entre o encargo e o desempenho devia mediar algum teuipo.
Não occulto porém que as datas d'estas inscripções nem sempre me parecem verda-
deiras. 4^
' Vejam-se as cartas I, II, III, do vol. I, das de Vieira. O que se não comprehende
hem, é que qualquer d'estas missões occupasse Vieira por tão pouco tempo.
3
34
Vieira e o niarijuez de Niza. E com elíeito, como na vinda de Conde se
implicava a continnnção da guerra com Gasleila, que a rainha e seus
njinistros, fora de Mazzarini, não desejavam, pôde ser que a opposição de
Vieira fosse neste ponto efficaz contra os propósitos do cardeal : e D. Luiz
de Menezes não encobre, que as idéas de Vieira e as do marquez de Niza
eram diversas, e que o marquez dosapprovava muito altamente as do
jesuita '.
Em Ilollanda demorou-se António Vieira communicando com Francisco
de Sousa Coutinho o traio dos interesses de Portugal. Porém a sua habili-
dade era escusada, onde tanto se distinguia a do companheiro; e parece
na verdade, que Vieira no tocante aos negócios, que nos importavam na
Haya, não fez outra coisa, que ser teslimunha das baldadas tentativas da
armada de Pernambuco para se fazer ao largo, ou anles testimunha do
grande triumpho, que a finura de Francisco de Sousa havia ganhado sobre
as dobrezas da Republica-. Se porém onde estava Francisco de Sousa tinha
pouco em que se empregar o talento de Vieira, não perdeu este comtudo
o tempo para o serviço da pátria, segundo conta o seu biographo: porque
foi nesta occasião, que elle por via de Hamburgo mandou para Lisboa em
uma de três liagatas de guerra, que fez construir, a importância de
cincoenta mil crnzados em petrechos militares; entre os quaes veio a arti-
lharia, que depois serviu com tanta honra e utilidade nossa na celebre e
venturosa jornada das linhas d'Elvas ^
Como os nossos agentes nas conferencias de Westphalia não haviam
sido admittidos com representação própria, e nellas linha muita influencia
o parlido dos nossos inimigos, soffriam os agentes portugueses, e soffria
o reino nas suas pessoas grande desar *. Mandá-los recolher absolutamente,
1 Porl. Rrst. p. I. 1. X, tom. 2, pag. 269, ediç. de 1739.
* Vieira na carta III, do vol. I, em postseiiplo de 3 de janeiro do 1648, da noticia
da armada, dizendo: « Armada tem arribado duas vezes, perdeu já nlQuns navios, rai-llie
morrendo genic, etc.
' Veja-se André de Ijarros, 1. 1, § LXI. No relatório porém, que Vieira faz dos
seus serviços politicos na carta 118 do vol. II, não acho este apontado, como era de
esperar.
N. B. Aelia-se apontado em um memorial manuscrito, apresentado por António
Vieira ao Príncipe D. Pedro Regente de Portugal; que me foi communieado do archivo
da Academia.
* Port. Rest dita edição, part. 1, 1. X, tom. 2, pag. 314.
35
<;eria inoslrar ciesesperação luuilo arriscada, e lalvcz perder alguma occa-
sião favorável, ijue ou podia deparar a fortuna, ou proporcionar a politica
de França e de Suécia, em cuja amizade linliamos razão de pôr confiança,
imaginou LllUei neste aperto um meio termo, ijiie suppnnlia bem acertado,
e que viulia a ser: mandar uma pessoa de alta qualidade, a quem uãO
pudessem uegar-se justas altcnções, c que com o seu respeito moderasse
ao menos os eiTeitos pouco decorosos do rancor o politica castelhana *.
Eácollieu para isto D. Luiz de Portugal, que se achava em lloilanda, e que
como neto do lYior do Crato, era bisneto do infante D. Luiz, c terceiro
nelo (l"el-rei D. Manuel; e deu ordem a António Vieira para partir em
companhia de U. Luiz para Westphalia "-: mas esta idéa não chegou a
pòr-se em pratica, porque emquanto se apercebiam para a viagem os novos
enviados, se romperam, ou se concluirauí em outubro de IGi8 as confe-
rencias do congresso; assentando Hespanha paz com Holianda e Suécia, e
determiiiando-se a proseguir contra França c contra uós com maior erape-
uho a guerra.
I>esvanecido este jirojeclo, quiz el-rei deixar na Haya, como ministro,
António Vieira: ou porque Francisco de Sousa requereu successor, ou
porque o desejavam os estados, a quem as destrezas de Francisco de
Sousa inconunodavam muito, ou emíim porque nos era prejudicial a des-
conliança da sua pessoa, procedida dos passados acontecimentos ^. António
Vieira recusuu-se, allegando as repngnancias do seu Instituto; e el-rei
acceitou a sua aliegação, ficando por isto Vieira desimpedido para se tor-
aiar ao reino. Não me consta precisamente o tempo, em que voltou ; mas
ha fuiulaniento para allirmar, que já eslava em Lisboa em agosto de 1049,
' ÁQ rancor e politica casleliiana se ajuntou para a dosaucloiifiade dos nossos
ministros a discórdia entre eitos mesmos; que chegou a lanio, que o mar(iuez de Niza
escreveu a el-rei, <iue mandasse para suas casas t^rancifcu de Andrade e Luiz Pereira
descunrar do muito que tinham trabalhado um tonlra o outro. Port. Hest., ibid. pag. 242.
» Porl. R>'st, p. I, 1. X, tom. â, pag. a 14, e André de Barros, I. I, § LVIII. D. Luiz
Guilliemie de Portugal era fillio de D. Manuel de Portugal e de uma irmfi do principe
de Orange, HiM. Gcneal. da Caxa Rml Port., tom. 3, pagg. 391, 401.
' O Porl. Resl. ibid. pag. 313, refere, que os Estados mandaram despedir Francisco
de Sousa.
A'. B. Vieira diz, na carta Ms. ao conde da Ericeira, e que coiTesponde á H8 do
vol. II, mas nmito mais ampla, que recebeu a credencial, e immediatamcnte partiu
para Lisboa, onde allegou as suas escusas.
30
e Barros deciíliilamente refere, que veio receber, no dilo aiino, a recom-
pensa dos seus trabalhos e serviços pi)liticos, nas approvações e gracioso
acolhimento do monarciía; que deu pouco depois inteira prova da sua
satisfação, fiando de Vieira empresa não menos relevante e delicada •.
D. Luiz de Menezes, se bem confessa que Vieira, a quem de caminho
concede grande eminência na oratória cliristã, commnnicou com os prín-
cipes estrangeiros e ministros, muitos negócios de grande importância,
insinua comtudo, que a sua politica foi pouco venturosa nos successos. A
superioridade do juizo de Vieira aos negócios, de qne provinha em os
tratar uma subtileza, que não alcançavam aquelles com quem conferia, é a
razão, que elle dá d'esta pouca ventura. E assim como de um politico
antigo disse o grave Corn. Tácito, que tratou felizmente as matérias
dEstado, porque seu engenho nem era inferior aos negócios, nem supe-
i'ior; assim dá o auctor do Porlugnl licslawado a intender, que as nego-
ciações commeltidas a Vieira se mallogravam, porque eram excedidas do
seu juizo 2.
Acho eu na verdade provável, que um homem costumado ás disputas
muito subtis das cscholas, e aos raciocinios muito remontados, que reque-
ria a oratória do tempo, e cuja profissão e exercícios eram tão diversos,
descendo d'aquelle mundo imaginário ao real, se achasse exlranho; e ou
por não ajuizar bem ao justo das differenças, ou por se não querer accom-
modar com ellas, errasse os caminhos, e não achasse boa sabida, onde um
pratico do paiz, ainda dotado de talento mediano, poderia acertar com ella
sem grande maravilha. O marquez de Niza, de cuja habilidade e destreza
fizeram conceito honrado as cortes de Paris e de Lisboa, rejeitou altamente
em Trança os pareceres de Vieira; e o mesmo escriptor refere, que as
offertas muito liberaes do jesuita, feitaá ao cardeal Mazzarini, causaram
grande damno ás negociações portuguesas, e o causariam muito maior, se
o marquez não as impedisse, declarando formalmente a resolução, em que
estava de não as assignar ^. Vieira emfim, defendendo-se d'aquellas insi-
1 Veja-se André do Barr. 1. 1, § LXXV. Em 1649 recitou pm Enxobregas a oração
fúnebre de D. Maria de Atliaidc. (Scrni. p. IV, n. XIII), falleeida cm 26 de agosto do
mesmo aimo.
2 P. I, I. X, tom. II, da dita edição, pag. 242.
3 Qne foi neressurio uu marquez de Niza resiMir com tanta vclmiienda a attjnmnx
promessas exhorbitantes, que o padre António Vieira determinava fazer ao cardeal, que
lhe disse, que antes havia de deixar cortar as mãos, que firmá-las. ibid., pag. 269.
37
nuações de 1). Luiz de Menezes, aiuda que aponta alguns arbítrios úteis,
alguns avisos aiitecipaiios, de que foi auctor em Lisboa, não dá uma coar-
tada cabal, quanto eu posso intender na matéria, de se llie desvanecerem
as negociações em paizes estranhos; nem se encarrega, ao menos que
conste dos seus escriptos impressos, de responder á imputação do damno,
procedido ao negocio da Liga das suas offertas muito exorbitantes a Maz-
zarini '.
Pedem porém a verdade e justiça, que façamos a este respeito algu-
mas ponderaçijes favoráveis ao credito de Vieira, deixando por fim ao leitor
a isenção do próprio juizo, e o conceito da nossa imparcialidade. O auctor
do Portugal Restaurado, seja por convicção pura, seja por convicção e
affeclo, mostra-se muito inclinado ao marquez de Niza, que em França
reprovou sem duvida alguma os arbitrios de Vieira. Esta falta de accordo
entre o marquez e o jesuila podia muito bem nascer de ciúme no marquez;
para o que seria fundamento bastante a ordem, que lhe foi de Lisboa de
não fallar á rainha e a Mazzarini, senão de companhia com Vieira. Se esta
ordem foi ou não prudente, não disputo aqui; mas (jue podia desconsolar
e causar no marquez muita desconfiança, tenho por evidente *. A indispu-
tável discreção (e com isto concluo neste ponto) d el-rei D. João IV, parece
que julgou dilTerentemente das negociações de Vieira: pois que o tornou
a mandar a França e Holianda em 1647; que o quiz mandar ás conferen-
cias de Westpbalia com D. Luiz de Portugal ; que o quiz deixar na Haya
em logar de Francisco de Sousa; e que emfim o mandou a Roma com o
ponderoso encargo que fica indicado, e de que continuaremos a fallar
agora.
Achava-se Portugal cansado de uma guerra tão activa, como dilatada;
e as suas ordinárias contingências faziam sempre temer desastres. O animo
d"el-rei, posto que não era apoucado, inclinava-se muito á paz ; desejando
• Devia responder, no caso de d.nr a este artigo resposta, na caria 118 do voi. II,
porque sendo a dita carta uma directa refutação das censuras do conde da Ericeira,
e sendo esta uma das censuras principaes. não era bem que esquecesse : ou porém
ewiueceu. ou Vieira não teve modo de a desfazer.
S. B. Na carta Ms. ao conde da Ericeira, que fica apontada, e que da Academia
se me communicon. não aciío aiLida a coartada cabal.
•* A dilTerenca do marquez de Niza ou a sua desaiipiovação das politicas de Vieira,
nascendo d'a(iueíle ciúme, e a nou de D. Luiz de Menezes, nascendo da paixão em
favor do marquez.de Niza, perdem evidentemente muito da sua força.
38
sabiamente o mais seguro, sem faltar nas opportunas occasiões ás empresas
(lo maior risco. E como Ulippe IV tinha por única iierdeira a infante D. Maria
Thereza, sua filha, occorreu a el-rei, que Gastella podia dar ouvidos á pro-
posta do seu casamento com o príncipe D. Theodosio; e que por esta via
tão airosa se poderia obter paz honrada para Portugal; ajuslando-se mudar
para Lisboa a residência dos monarchas '. Estavam até então muito verdes
as desconfianças castelhanas, e por isso tal negocio ainda não se podia
tratar directamente. Podiam porém toraar-se as alturas, e ir-se aventurando
algumas insinuações, que conforme o que delias resultasse, ou se conver-
teriam em formal pretensão, ou se poriam de parte. Com esta tenção foi
António Vieira mandado a Roma, onde era embaixador de Gastella o
duque do Infantado; porque além da confiança nos talentos e zelo de Vieira,
dava a este alguma facilidade de negociar a circumstancia de ser o duque
sobrinho de um auctorizado jesuila, o padre Pedro Gonçalves de Men-
donça *.
Os napolitanos, sempre inquietos e ao presente mal soffridos do domí-
nio castelhano, procuravam todos os meios de se lhe escaparem. Entre
outros arbítrios dirigiram em profundo segredo propostas a el-rei D. João IV;
e este príncipe sem as ter em grande conta, julgou que não as devia
desprezar de todo. Quando d"aqui não podesse residtar accrescentamento
de território aos estados de Portugal, procederia sempre occupação incom-
moda e desagradável a Gastella; e Outra diversão da parte de Nápoles,
como a de Gatalunha, tinha para nós conveniências, e suppria de algum
modo a de Ilollanda, que havia cessado com os ajustes de Westphalia.
Mas o caracter dos napolitanos obrigava a grandes cautelas; e cm todo o
caso não devia el-rei empenhar-se, emquanto não tivesse muito particulares
noticias das pretensões, dos meios e da capacidade e influencia das pessoas.
E porque em Roma as poderia haver a penetração e diligencia de António
Vieira, esta foi naquella commissão a segunda parte das instrucções, cora
que el-rei o enviou, dando-lhe na substancia e no modo os signaes menos
equívocos de estimação, e mesmo de affecto ^
' Em 1650, Filippe IV nãci tinlia do segundo matrimonio filho algum, e do primeiro
não tinha mais, que a infante D. Maria Thereza, depois mullnT de Luiz XIV de íranea.
2 Veja-se André de Barros, I. \, §§ I^XXV c seguintes, e especialmente oLXXXII.
3 D'isto convence bem o fragmento das instrucções secretas, que el-rei deu a
Vieira, copiado por Barros no livro citado, §§ LXXVIII-LXXIX.
39
À 10 de jaueiro de 1630 largou António Vieira do porlo de Lisboa, e
desembarcando em Leorne, partiu para Roma, onde chegou a 10 de feve-
reiro seguinte. Principiou quanto antes a cumprir com as instrucções, de
que ia encarregado; e não passou muito tempo sem mandar acerca dos
negócios de Nápoles informação c parecer, por que el-rci se determinou a
desprezar inteiramente as propostas, que lhe tinham sido feitas '. A matéria
do casamento requeria maior demora. Foi espreitando e entrevendo pouco
a pouco as opiniões; e à proporção que as foi tendo por hiclinadas ao
casamento da infante com o [irincipe de Portugal, foi insistindo nos motivos,
cm que assentavam, e inculcando-os e expondo-os com solidez e com a
energia própria da sua grande intimativa. Casar a infante com um príncipe
liespanhol, e o restitnir-se por este meio a paz á monarchia, e o vulto e
poder, que tinha antes de 1640, era o voto de todos os sisudos; mas a
residência da corte em Portugal ou em Castella, era difficuldade gravís-
sima em que todos topavam : havendo os castelhanos a residência em
Lisboa como repugnante aos seus commodos e muito desairosa ao seu
capricho e pundonor, e liavendo os portugueses a residência em Madrid
como opposta totalmente á sua justa liberdade *.
Esta difficuldade, que então era nuiito grave, e que o será sempre
para a união bem curdeal dos dois estados, emquanto imprevistas circum-
slancias não destruírem pelo habito de séculos a memoria ou da grandeza
de um d'e!les, ou da independência do outro, esta difficuldade, digo, ia
Vieira desfazendo com ponderações [dausiveis sobre as vantagens da situação
de Lisboa, e os inconvenientes da de Madrid ; e a castelhanos de bastante
representação iam parecendo bem os seus argumentos. Mas quando elle
andava mais enlevado nestas praticas, a corte de Castella mandou muito
apertadas ordens ao seu embaixador, para o fazer sahir de Roma sem
demora; e pôz na sua execução o embaixador tamanho empenho, que
chegou a declarar, que se Vieira não sahisse para logo de Roma, se arro-
jaria a mandar-lhe tirar a vida. E porque estas ameaças pareceram muito
' Vej.i-se o fragiueuto du outra carta (l'el-rei para Vieira, copiado por Barro.s,
ibid, I XCIV: íHffereiite conccUo fazia das cousa-s de Xapoles, anli:f de parlirdcx d'esla
còrle... fazendo juizn dos inronienientes, (jue apontaes no principio d'esla carta, me
pnreceiíi mais certos, iiiie a.s utilidades, cuni que me posso animar a mandar continuar
esta empresa.
* Não é tão fácil, como parece, resolver a (juestão do ponto, em que deve residir
a corte dos monarcbas de toda a Ilespanlia. Ha muitos argunienlos especiosos por
parte de Lisboa: mas não pôde negar-se. que fica muito na extremidade occidcntal.
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effeclivas, e por ellas toda a esperança de bons efleitos da negociarão ficava
cortada, tomou Vieira o expediente de ceder aos desejos muito encarecidos
do governo de Madrid *.
Não consta ao certo d"onde procederam desejos tão impacientes ; mas
não é conjectura desprezível a que os attribue a alguma noticia, que das
propostas de Na[)oles tivesse chegado ao governo casteiliano. Parece pro-
vável que esta fosse antes a sua origem, do que a prática sobre o casa-
mento: porque se a dita prática não podia dar em qualquer supposição
cuidado ã corte de Filippe IV, podia dar-lbs muito o occulto fogo, que
lavrava em Nápoles, sendo soprado desde Roma pela sagacidade tão activa
de António Vieira. E o certo é que el-rei de Portugal na carta, que anteci-
padamente lhe escreveu, por aquelle lado é que mostra receio dé perigos
para a sua pessoa, estado e instituto; e trata de os prevenir, mandando-o
acompanhar por Manuel Rodrigues de Mattos, que a Sua Majestade servia
de agente na praça de Leorne ^.
Como Vieira pregava em Lisboa já por novembro ou dezembro d"este
anno de IGaO, é de suppôr que teria sabido de Roma em agosto, ou, pelo
menos, em setembro ^. Não alcancei porém noticia mais precisa e certa. E
só é fora de duvida, que, ainda datava de Roma em 30 de maio a famosa
carta dirigida ao príncipe D. Theodosio, que é a quinta do primeiro volume :
carta, egualmente notável por aidor marcial e primoroso estylo, que provo-
cou as reflexões, muito cáusticas, se me não engano, do auctor da Dc-
ducção Chronologica ^ . Não é de prcsuuíir, com effeito, que António Vieira,
quando recebia del-rei tamanhos favores, se empeniiasse em dividir d'elle
o príncipe, e em incitar o ultimo á desobediência; e D. Luiz de Menezes,
faltando da jornada do príncipe ao Alemtejo, cm 1651, não a representa
* Vieira uão só interrompeu, retirando-se promptamente de Roma, o negocio do
casamento do príncipe; mas também o projecto de apresentar ao Papa Innoccncio X,
iim memorial sobre a conversão dos liereges do norte. Barros, ibid., § XCVI.
2 Fragmento copiado por Barros, ibid., % LXXIX: Mas porqiir a exeair.ão d'eUu
pôde ser de ulguma indecencin ao vosso estado, e ter ineonvenientes para a vossa Religião.
e sobretudo o periyo pura a vossa pessoa... mando ordenar a Manuel Rodrigues de
Mattos. . . passe a Roma em vossa companhia.
N. B. No memorial ao principe IJ. Pedro, declara Vieira esta mesma razão
' O sermão V, da part. Ill, foi pregado na primeira dominga do Advento de 1650, o é
um dos do juizo fnial, particularmente reconmiendados e recommendaveis entre os do
auctor.
* Veja-se a Deducção Chronol., part. I, § 378, not. (a).
41
com siiuilhantes cores, mas ao contrario a trata de uma honrada gentileza
acouselliada somente pelo próprio valor, e que a intriga da corte reprcisou,
impedindo por einulai;ão prováveis conseipiencias muito venturosas '. E a
verdade é talvez, que não passou de uma galliarda resolução do príncipe,
approvada de muitos, mas tida cm diversa conta por el-rei, que com agudo
e justo jnizo, sem lhe notar culpa, lhe divisou graves inconvenientes, que
a sua prudência tratou de remediar a tempo.
Com esta volta de Roma para Lisboa tiveram termo por então as coni-
missões ou negociações politicas encariegadas ao padre António Vieira.
Mas a sua rara actividade, que não [lodia solTrer inacção, nem ainda des-
canço, entrou por outras vias a procurar logo alimento e exercício. Sahiu
com o padre João de Soto-Maior em missão á villa de Torres-Vedras : e no
volume sexto dos sermões anda impresso um dos que por aquella occasião
pregou na dita villa '. .\ missão tinha acabado antes do meio de junho de
1651, pois que em caria, escripta do coUegio de Santo Antão ao padre
Nuno da Cunha em 17 do mez, falia d'ella como concluída^. Recolhido
porém a Lisboa de[)ois da missão em Torres-Vedras, principiou ou conli-
mioa a projectar trabalíio do mesmo género, muito mais largo e muito
mais dilDculloso. Aijuelle voto, que dissemos annullado pelos superiores,
quando com elle se escusava de entrar no estudo das sciencias mais graves,
ou nunca foi posto de parle, ou foi recordado agora com lodo o escrúpulo
de uma coiisciencia delicada, e o resolul(» empenho de quem desejava
muito gastar o restante da vida nos mais ardiios serviços do christianismo,
e do seu instituto jesuítico.
O .Maranhão com os sertões immensos, que são cortados dos seus rios,
foi o campo vastíssimo, que agora se escolheu para o arrotear, e para
depositar nelle a semente do evangelho. .\ religião, o estado e a humani-
dade fariam grandes interesses, se esta empresa fosse accommetlida e
proseguida com zelo discreto e bem encaminhada dihgencia. Innumeraveis
' Deliberou-se o principe a esta jornada, só aconsflliado do seu ritlor . ■ . rendo o
príncipe, que prevaleciam os que iinulos dn suo grandeza, otc, Porl. Resl., vol II,
pagg. 361 e 364.
' Barr. I. I, §§ C. e seguintes. O sermão é o XIII, do VI vol., que na insfiipçãi»
tem a data de IG52. a qual não concorda com a data da carta ao padre Nuno dadunlia,
que é de ICiJI.
3 Eu na minfia missão passei bem; e só me faltou acompanhar a Y. It. na sua paru
twlla aprender, etc. Fragmento copiado por Barros, 1. I, § CII.
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selvagens trocariam os incommodos de vida errante e brutal pelas doçuras
do trato civil ; o império português grangearia cidadãos e largos territórios,
de que apenas tem ainda hoje confusa noticia, e grangea-los-liia com pe-
quena despesa e menos trabalho; a Kgreja cathoiica se dilataria, e com ella
todos os proveitos de espirito e de politica, que são inseparáveis da crença
religiosa e da moral evangélica ; e até as sciencias e artes cresceriam com
experiências e noticias, e em matéria riquíssima das suas reQexões e tra-
balhos : e Portugal recolhendo o cêntuplo e muito mais do cêntuplo dos
seus empregos, só leria que admirar o zelo invencível de homens heróicos,
e que abençoar a religião santa, que exaltando assim os inleudimentos e
reforçando os peitos humanos, é capaz de obiar por meios pacíficos e suaves
tão estupenda maravilha *.
Mas a continuação d'este discurso mostrará, que ou o zelo uão foi bem
discreto, ou os seus effeitos foram impedidos de estranhas causas ; e que
Vieira depois de cansadas tentativas foi obrigado primeira e segunda vez
a desistir; até que emfim detido por quasi vinte annos na Europa, só se
tornou á sua America, agora tão desejada, quando os annos e moléstias o
determinaram a procurar o clima favorável, e o repouso suave da quinta
do seu collegio da Bahia^. A vontade d'el-rei, a da rainha e a do príncipe
D. Theodosio oppunham-se com muita determinação ao intento de Vieira
em 1632. Quiz elle embarcar-se occullamente ; mas não teve eífeito a sua
industria, porque o atalhou a ordem real. Recorreu, vendo-se assim ata-
lhado, a representações e rogos, e por seu meio chegou a obter licença
e favoráveis provisões datadas de outubro. E posto que el-rei ainda mudou
de resolução, e de novo insistiu na sua demora em Portugal, o empenho
de Vieira, favorecido de accidentes, não sei se casuaes, se premeditados,
' Em mil casos tem a religião chrislã obrado desde o seu nascimento esta mara-
vilha estupenda cm todas as partes do globo. E mesmo por este lado só, a historia não
oITerece instituição cgualmente benemérita da humanidade. No zelo para intentar com
resolu(;ão e perseverança, na caridade para solTrcr e attrahir, na generosidade para
desprezar interesses e grangeos, que são os mais próprios e suaves instrumentos da
redacção de bárbaros, é e tem sido singular e incomparável. Tem realizado as mila-
grosas musicas da fabula pagã, e o que na gentilidade não eram senão sonhos, são
acontecimentos verdadeiros no christianisiiio.
- Segunda vez voltou Vieira do Maranl)ão para a Europa em 1661, e de cá voltou
para a Bahia em janeiro de 1681.
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lhe facilitou occasião de se embarcar, e de saliir scni estorvo da barra de
Lisboa '.
A ii de novembro de 163á saliiu do Tejo o padre António Vieira, tro-
cando as estimações e valias, que os seus talentos e serviços Ibe tiubam
merecido na ÍMiropa, por trabalhos árduos, em remotas, pouco conhecidas
e quasi impraticáveis regiões. Se a uma resolução tão estranha o não
determinaram, como eu creio, escrúpulos do primeiro voto, e motivos'
inteira e puramente chrislãos, será preciso atlrihui-la a um gosto de sin-
gularidade, que pelo commum se nola nos espiíilos muito activos, e de
que Vieira pôde ser suspeito com gramle verosimilhança. Pelo menos eu
não alcanço outras razões de procedimento tão encontrado com o modo
ordinário de pensar e de obrar dos homens. Mas deixando motivos recôn-
ditos, que não é possível assignar sem alguma temeridade ; a caravella,
em que se emliarcou António Vieira, depois de provar ora tormentas, ora
calmarias, abordou em 20 de dezembro na villa da Praia e ilhas de Cabo
Verde : onde se deteve pouco tempo, que Vieira, nunca ocioso, empregou
em fazer doutrina e pregar aos moradores ; e foi dar fundo no Maranhão
em 17 de janeiro de IG3.3'-.
A poucos dias da chegada de António Vieira ao Maranhão, levanlou-se
descomposta tormenta de commoção [)opnlar contra os jesuítas. Uma lei
real, que dava por livres todos os escravos daquelle districto, e que se
promulgou com soiemnidade, olTereceu a occasião. Suppoz-se solicitada e
diligenciada pelos jesuitas ; e sem mais consideração se arrojou contra elles
o povo em tumulto, de maneira que [lerigariam nniito, a não lhes valer a
interposição de força armada '. Os jesuítas negavam aberta e resolutamente ;
e a destreza e eloquência de Vieira fizeram aquietar o tumulto e esfriar
o primeiro ardor. Comludo a desconfiança continuou ; e d'ella foram pro-
• Veja-se a carta, que Vieira escreveu ao provincial do Brazil, allcgada em parte
por Barros no 1. 1, §?; CV c seguintes, e ioda tianscripla nas Vozes SauddSdS com o
titulo de Vn: desenganada, e a provisão d'el-iei. Darr.. ibid., § GXV.
» Veja-se Aniiré de Barros, 1. I, § CXXIX— CXXXIX. Os de Cabo Verde fizeram
grandes instancias, para que os jesuitas ticassem residindo na terra, ou ao menos se
demorassem por mais tempo. Veja-se lambem a I carta do III volume das de Vieira.
Na primeira edição d'este opúsculo se leque Vieira abordou á ilba de S. Tiiomé; erro
de que o auetor foi advertido por um zeloso amigo.
' Barros, ibid., §§ CC e seguintes.
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cedendo rebates frequentes, e resultaram, segundo as apparencias, todas
as contradicções, embaraços, e por fira damnos e injurias, que naquella
parte da America soffreu depois a companiiia, e com eila o sou campeão
e principal manteiiedor António Vieira. Fosse razão, fosse particular inte-
resse, os jesuitas defenderam com grande constância os direitos dos indios,
assim antes, como depois dos resgates ; e confirmando por este modo as
antecedentes suspeitas dos portugueses alli estabelecidos, conservaram
sempre e accenderam mais, em alguns casos, a inimizade pouco soífrida
d'aquelles povos *.
Na disputa muito renhida e larga, que então se tratou com muito ardor
entre o Pará e Maranhão de uma parte, e os jesuitas de outra, os jesuitas
increpavam os seus contendores de armarem á escravidão dos indios só
com a mira nas próprias conveniências, e com total desprezo das da reli-
gião e reino, e aflVonta da boa razão e até da humanidade: e os povos do
Pará e Maranhão accusavam os jesuitas de armarem unicamente ao seu
interesse, pretextando motivos piedosos e simulando vivo zelo pelos pro-
veitos communs. O governo português daquelle tempo mostrou confiar
mais nas allcgações dos jesuitas ; os inimigos d"estes no século passado
deram por injustamente aggravados em tal matéria os contendores h ao
ler os escriptos de Vieira, que se conservam e se referem á dita disputa,
os seus sócios parecem plenamente justificados ; ao ler as declamações
contrarias, a que alludimos, mal se defende o leitor de os pronunciar réus
da culpa, que pela parte opposta lhes foi attribuida : se os allegados emfim
dos jesuitas e a sentença do goveino contemporâneo, pela razão da causa
própria e affecto d'aquelle governo, se tornam suspeitosos; o descoberto
ódio, que respira a impugnação dos detractores, não obriga hoje o obser-
vador imparcial a menos desconfiança.
1 Que 08 jesuitas defenderam constantemente a liberdade dos indios, não tem du-
vida: os seus contendores não o negavam, porque era evidente, e d'ahi tinlia a con-
tenda principio. Auribuiam porém a dita defesa a segundas e perversas tenções.
* Quando leio as affiniiativas nesta parte do auctor da Deducnio ClironoL, e as
comparo com as suas Provas, nem posso achar força nem mesmo ligação e claro sen-
tido, se bem que noto impeto e vehemencia, que podem deslumbrar quem for menos
precatado. Será talvez preoccupação minha ; mas confesso, que com tanto gosto leio os
escriptos de Vieira sobre esta matéria, como com desgosto e enjoo leio o affectado e
pedantesco aranzel da Deducção.
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Diflicullosa cousa, seuão impossível, é resolver agora duvida tão iui-
plícada; e até o teiUa-lo parecerá muita confiança. Uetermino-me comludo
a declarar o meu parecer, por isso mesmo que se não pode reputar subor-
nado por paixão, de que faltam motivos. É tão verosímil, que a cubica dos
colonos portugueses na matéria da escravidão dos índios atropelasse a razão
e as conveniências publicas, como deixa de o ser, que os jesuítas pelo
interesse de cultivar melhor uma chácara, e dominar em miseráveis aldeãs
ou arraiaes, allVontasscm traliaihos tão árduos e tão aturados, quizessem
incorrer na inimizade dos seus compatriotas, e prejudicar tão abertamente
aos interesses do nosso reino. E se a cubica dos colonos é certa, e os seus
maus elleítos são bem de jiresumir, também é muílo de suppor, que ven-
do-se encontrada e cruzada pela opinião e procedimento dos jesuítas, recor-
resse a todos os meios de desaggravo, e enti'e elles á falsa imputação de
razijes sinistras e motivos odiosos. Da parte dos jesuítas somente cuíilo,
que muito fiados na sua valia com a corte de Lisboa, e muito esperan-
çados na íniluencia exclusiva, que tinham com os índios, se esqueceram da
sua sagacidade ordíuaria, e neste negocio combateram, muito ao desco-
berto e com ar em demasia víctoríoso, os interesses e a vaidade daquelles
colonos ' .
. Em socegando a popular tormenta do Maranhão, de que falíamos. Vieira,
despedidos padres para o Pará e nomeados os que deviam ficar na cidade
de S. Luiz, foi provendo em todo o necessário para a presente e futura
execução dos seus grandes desígnios: sem levantar conitudo mãu do ordi-
nário trabalho, em que se empregava incansavelmente, ou pregando, ou
ensinando nas ruas, ou visitando enfermos, ou propondo e seguindo arbí-
trios de caridade piedosa, com que despertava em uns a religião, e em
outros remediava a necessidade *. Ealtava na cidade o recurso de um lios-
' Os jesuítas não se defendiam sompre de siiberba e arrogância ; c estes vicios,
que por um lado irritavam mais a inveja dos seus succesos, e llie davam motivo ás
accasações e queixas, por outro lado os tornavam muito delicados c sensíveis ás oITensas;
d'onde lhes vinha grande propensão á vingança. Tal foi, cuido eu, a razão da guerra
perpetua, que sustentaram deídc o principio, e a verdadeira causa da sua ruína. Cou-
ta-se, (|ue nos últimos paroxismos da sociedade dizia ainda o seu geral Hicci — sint ut
tunt, aut non sint; este dito e;n occasião tão critica mostra bem a sua arrogância, e
explica a sua catastrophe.
» Veja-se Barros, 1. II, §§ XXVI— XLVII.
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pitai, com o sabido detrimento dos pobres, inconveniente e pouco credito
(l;i republica. Acudiu com suas exhortações a este ponto António Vieira, e
j)rÍMcipiaram a concorrer esmolas e offerecimentos : mas como tamanha
fabrica não podia ser eíTiMto de um eutlmsiasmo passageiro, a ausência do
motor e director principal a deixou naquella occasião pouco mais do que
em idéa. Se o espirito de Vieira a tudo se dirigia e a tudo era bastante,
os que se pegavam de seu ardor, ou não eram capazes de emparelhar a
sua energia, ou o perdiam de todo, quando faltava o poderoso alento, que
o havia communicado.
Os trabalhos na cidade de S. Luiz não eram senão ócios e folgas, com
que se preparava para as fadigas e riscos nos emmaranhados sertões do
seu districlo. A estas fadigas e riscos é que elle aspirava sobretudo; e ellas
é que o haviam ciiamado dentre as estimações e commodos da Europa.
Tanto pois que lhe pareceu chegado o tempo, delerminou-se a ir procurar
os Índios, que se chamavam Barbados, subindo por um rio, que tem por
nome Tapicuru. Não havia destes indios mais que fama muito incerta no
Maranhão, e a noticia duvidosa devia accrescenlar na phantasia o receio
de desastres e de empenhos mallogrados. Mas o que podia acobardar os
ânimos do commum, estimulava mais o de António Vieira. Assentou com
o capitão mór na jornada, e na occasião, em que convinha que se flzesse;
e sem demora procedeu a tomar todas as medidas, intendendo-se com
pessoas práticas e procurando indios de serviço, de quem fosse acompa-
nhado. Porém o capitão mór, em cujos grangeos andavam occupados estes
indios, desejando acudir primeiro aos seus amanhos, deleve-os emquanto
os requeriam as lavouras, de tal sorte, que quando vieram a ficar desim-
pedidos, a occasião era passada ; com grande sentimento de Vieira que
saboreava antecipadamente as delicias de peregrinar por desertos e bos-
ques, convidando á civilidade e religião esses poucos homens, que vagavam
com bem fraca differença de animaes brutos pelo seu âmbito vastíssimo*.
O capitão mór do Maranhão atlendia mais á cultura de seus tabacos,
do que á cunvcrsãu e civilisação dos indios; mas a cubica do capitão mór
do Pará não se contentava com tão pouco. Vendo Vieira frustrada no
Maranhão a sua esperança, passou-se ao Pará, determinado a remontar o
grande Amazonas, e a ir recolhendo pelas suas margens os lanços, com
que a Providencia quizesse galardoar as suas boas tenções. Teve entretanto
> Barros, ibid., %% XLVIII— L.
47
por noticia que a nação dos Púquiz, que vivia sobre o rio dos Tocantis.
eslava inclinada a receber o Cin-islianisnio e encorporar-se no estado por-
tnguès. Julgou que devia aproveitar occasião tão favorável. Tratou o negocio
com o capitão mòr ; leuiLrimJollie, (jue el-rei desejava a reducrão, e não
o captiveiro dos iudios, e que recomuiendára muito aos jesuítas, (jue gran-
geassem christãns e cidadãos, sem muiliplicarem barbaramente escravos.
Ouviu o capitão múr, e em seu animo escarneceu tão importuna adver-
tência; mas dissimulando com Vieira, despediu-o com uma escolta, que
devia obrar ás ordens de um cabo por elle escolliido, e a quem deu ins-
trucções, publicas para satisfazer Vieira, e particulares para com despre/o
das ordens del-rei e injuria das obrigações da iionra e liiimanidade fartar
a sede da sua avareza e da dos seus apaniguados*.
Queria el-rei D. João IV, com zelo de príncipe piedoso e discurso de
bom politico trazer os indios â fé christã e parlicipação dos bens civis no
seio do seu império. Mas não queria liga-los ao dito império com outros
vínculos, que os de livre e lionesla vassallagcm. E somente nos casos, em
que alguns fossem adiados caplivos e destinados á morte por outros bár-
baros, é que permillia que fossem remidos, e ficassem como escravos enti-e
nós. Por esta coinmntação suave aquelies infelizes lucravam a vida em
troco da liberdade ; que ainda, ou por seus serviços, ou por generosidade
dos scnbores, ou por acasos da fortuna lhes podia ser restituída. Este
regulamento, no caso de poder ter execução, era próprio de um estadista
humano, pio e intendido; que mesmo nos casos indicados de escravidão,
só a consentia, para com o seu engodo levar os colonos ao resgate das
desgraçadas victimas da ferocidade selvática. Estas viclimas porém eram
poucas em comparação das despezas e diíTiculdades de um resgate ; as
necessidades da cultura nas colónias eram muitas; e ainda as multiplicava
mais a baixa e crua avareza de certos particulares. Estavam portanto os
decretos d'el-rei neste ponto em opposição com os interesses, bons e maus.
dos colonos; e ifaqui devia resultar, que ou se não tratasse de descer os
indios de suas habitações primitivas, ou se tratasse d'esta matéria com
aggravo da justiça, e sem o respeito devida ãs ordens reaes *.
' Veja-se André do Barros, 1. II, §§ LI e LII.
- As reaes providencias eram sabias e justas em absoluto; mas a sua- oxecuíão
naquellas circumstancias era quasi impossível. O modo unieo de medrarem ao mesmo
4»
Em cumprimento d'ellas pelo contrario, em conformidade com o espi-
rito do Ciirislianismo e com mira de dilatar a Egreja lidavam, quanto parecia,
os jesuitas por favorecer os iiidios em todas as entradas, que por sua dili-
gencia se faziam ao sertão. Só os índios chamados de Corda haviam de
ficar escravos; todos os mais, depois de descidos, deviam ficar meramente
christãos e vassalios. A isto é que repugnava altamente a cubica dos
colonos: e va!iam-se de todos os meios para ilhidirem as ordens e frusta-
rem o zelo; pouco attentos ou muito indiflerenles aos damnos gravíssimos,
que da sua dureza deviam provir aos indios, ao estado português em geral,
e ás mesmas colónias. Nem eram, por desgraça, os que governavam os
menos culpados d'esta barbara indifferença ; antes servindo aos outros de
exemplo muito escandaloso, além de réus de próprias culpas, se tornavam
responsáveis também das alheias '.
Serve de prova a tudo isto o modo baixo e aleivoso, por que se houve
agora o capitão mór do Pará, (pie até havia recebido antecipadamente o
preço das victimas da sua avareza. Partiu Vieira com a escolta e com o
cabo, que lhe fora destinado ; è quando se tratou de realizar a descida dos
Póqiiiz, então percebeu que o cabo era vez de guardar as publicas instru-
cções, procedia romo se tivesse levado as contrarias. Foi a vontade dos
missionários resistida ; o mandado del-rei desprezado com insolência ; e o
effeito da missão na maior parte desvanecido. Voltou promptamente ao
Pará António Vieira em busca do conveniente remédio. Mas se ainda tinha
alguma duvida sobre as ruins tenções e vil astúcia do capitão mór, desen-
ganou-se em breve, e veio no inteiro conhecimento de que o remédio não
podia achar-se no Pará, que antes era o próprio assento do mal; e que ou
se havia desamparar o empenho da conversão e reducção dos indios, ou
se haviam de pedir a el-rei disposições mais capazes de sortirem o seu
effeito 2.
tempo as missões e as coluiiias seria prover ás necessidades das colónias por outros
braços, que os de indios, ao menos em quanto estes não fossem conformados aos nossos
usos, e eguaes em direitos aos cidadãos portugueses ; e tirar ao governo civil toda a
influencia sobre as missões e a primeira educação dos indios, salvo a de as auxiliar e
de as vigiar com inteireza quanto ao cumprimento de boas leis. Mas para o provimento
por outros braços não suppriam o? cabedacs ; para conlcr asarrogações da auctoridadc
civil não bastaria em tamanha distancia a força do governo principal.
' E o que diz André de Barros, o que em vários logares insinua Vieira, e o que
é fácil de crer a respeito de alguns, não só capitães mores, mas ainda governadores.
* O acontecido com os dois ca])itães mores refere Barros^ ealém da verosimilhança
49
PosU» eió òonsellio dos jesailas o perplexo estado da einprôsa das
Aiissões e o seu remédio, tomaram por fim o arbítrio de se tornar Vieira
a Lisboa; esperando da sua valia, zelo e destreza, que ellícaz é promptá-
mente negociasse o que se iiuvia mister, para correrem as missões send'
emliaraço, e com os proveitos religiosos e teniporaes, que se podiam
esperar. Snjeilouse Vieii'a ao voto connuum, e passou logo ao Maranhão;
onde em grande segredo foi dispondo a viagem, e ponderando com vagai*
o que serviria mellior ao desvio dos presentes obstáculos e á cautela
contra os qne pudessem sobrevir. INHo bastava conter o commum do povo
nas colónias e por freio ;i cubica caprichosa dos seus governantes; ainda
era necessário chamar á unanimidade e accordo os sacerdotes, que uão
eram jesuitas, a cujas insinuações, ou suggestões, na opinião dos últimos,
se deviam attribuir em boa parte a desconfiança dos colouos e a repu-
gnância, ijue estes oppuulianí aos projectos da Companhia de Jesus, na
matéria da reducção dos Índios *.
Chegou por meado de junlio de IGol a occasíão de se embarcar Vieira,
que com elTeilo embarcou occullanieule a lo ou 10 deste umjz. Não quiz
porém dei.\ar o Maranlião, sem fazer conhecidas de seus moradores as
culpas e aggravos, cuja reparação o trazia de novo ao reino; e no sermão
de Santo António, pregado três dias antes da sua partida, desafogou o seu
zelo, cobrindo-se com véo de allegoria, e e.xprobando aos peixes o que de
si deviam intender os homens: e feito este preparo começou a viagem,
em (jue devia experimentar giande i'igor da Ibrluna, compensado todavia
por soccorro da Providencia -.
«los factos, uão parece razrw siispuitá-lo n(|iii de linitimciilo. Mas se os factos são ver-
dadeiros, evideute liça, que se da parte dus uiissiuiiarius pudia liaver zelo, da dos
Colonos uãii havia senão cruel avareza
' A realidade d'esta insinuação parece confirmada pelo enii)enlio, com que ajunta,
presidida pelo duque de Aveiro, regulou a parte, que deviam ter nas missões as mais
ordens religiosas. Mas até a persuade a natural emulação, a dianteira que levavam os
jesuitas, e a indisputável arrogância dos últimos; raras vezes no modo, mas na sub-
stancia das cousas quasi sempre arrogantes.
* O sermão, de que aqui se falia, é o XI da parte II, allegoria, que no tempo é
natural (|ue interessasse pelas allusões, mas que agora parece nuiito exótica e mesmo
ridicula. .4 innii annlinha e o iiinão polvo parecem extravagâncias muito absur-
das. Todavia ainda sem fazer conta com a cxcellente linguagem, paga em varias pas-
sagens o trabalho da leitura: e com eITeito Isto mesmo se deve dizer e intender dos
seus sennòes, ainda os mais desprezíveis; e pôde ser que não clieguem a Ires os que
sirvam de excepção.
4
50
Teriam passado dois mezes, navegavam pela altura da ilha do Corvo,
qiiaudo os carregou tormenta desfeita, cuja fuiia voltou o navio, mettendo
a borda do mar ate meio do convez. c obrigando a gente a passar-se para
o costado, onde es[)erava ser comida das ondas por momentos. Alliviado
comtudo de maslos o navio, a mesma força do mar o virou segunda vez
e pôz a direito; de sorte (jue os naufi-.iganles poderam recoiher-se dentro,
como vinham de primeiro. A falta ãr. maslos, a de velas e enxárcias os
tinha sempre em grande o justo receio, quando avistaram de longe uma
nau, que corria com a mesma tormenta: mas o vishimbre de esperança,
que então lhes raiou, desvaneceu-se depressa, porque a nau tornou logo
a desapparecer. Accresoentou-se o horror daquelle triste estado com o da
noite, que no emtanto sobreveio, e que cada ura suppôz que seria a ultima
da vida. A nau, ()ue tinham avistado, fez-se todavia em outra volta; e sem
o saber veio de noite atravessar-se com o navio, que boiava á discreção
dos ventos. Era um corsário hollandès, que vagava, commettendo roubos
por aquelles mares, e de quem não podiam esperar tratamento muito
generoso; se porém fez presa no navio, recolheu a seu bordo os naufra-
gantes, e passados nove dias os foi lançar, postoqne despojados e até
despidos, nas praias da ilha Graciosa.
Com largueza muito de admirar nas suas circumstancias proveu An-
tónio Vieira, ajudando-se dos seus créditos na Graciosa, a necessidade dos
seus companheiros; de (luera logo se apartou, passanilo-se á ilha Terceira
e da Terceira á de S. Miguel. Depois de alguma demora nesta ultima, em
que pregou o conhecido sermão de Santa Thereza, partiu em um navio
inglês a 24 de outubro de 1054 para Lisboa, onde, soffrendo ainda no mar
outra grande tempestade, deu fundo finalmente já em novembro do mesmo
anuo '.
El-rei D. João IV achava-se em Salvaterra gravemente infermo, e foi
preciso esperar a sua melhora e convalescença, para dar principio a reque-
rimentos. Pregou |)or aquelle tempo alguns sermiJes em Lisboa António
Vieira, e entre elles o da sexagésima, a 19 de fevereiro de 1055. Neste
sermão, que é um dos menos defeituosos do auctor, se houveram [)or
censurados os prégad()res do tempo; qiu' soffrendd muito mal a censui"),
« Veja-se Darros, I. lí, ^^§ LXVIK-LXXVIII. O suimiin de Santa Tlieroza é o VIU
da part. IV, muito admirado no tempo por suas fmuras o alíoctações. Não se deve
confundir com o XV da part, III, também de Santa Tiíereza.
òi
(ralaram de se desaggravar, conibalendo Vieira com Ioda a acrimonia dd
reseulimeiíto e da emulação, (]iie se reputa oITuscada e vencida *. Vieira
poréui uão deu neste caso, como era outros do mesmo género, mais coar-
tada ijue nobre e airoso silencio; a única, com eITeilo, que o homem supie-
rior deve dar ás provocações ou de vingança injusta, ou de imprudente
semrazão.
Recobrando el-rei a saúde necessária para se entregar aos negócios,
propõz António Vieira o seu. Matéria tão grave não devia ser tratada sem
egual ponderação. Os interesses públicos e particulares neila envolvidos
eram muito relevantes. Do Pará e Maranhão foram logo mandados a
Lisboa procuradores, que justificassem o passado, e que obstassem a reso-
luções inconvenientes á utilidade das colónias. .\mor próprio, cubica,
interesses presentes repugnavam á humanidade, justiça e proveitos remotos,
porém mais certos e maioi'es. Asseulou a prudência del-rei em commetter
a decisão a pessoas de conheciJ;is leltras, do inteireza e respeito. Mandou
formar delias uma junta, cuja presidência fiou de .sujeito |ior nascimento
e titulo tão eminente, como era o dni]ue de .\veiro D. Itaymundo de Len-
castre. A junta, depois de ouvir os jesuítas por bôcca de António Vieira,
de ouvir os procuradores das colónias, e de considerar tudo com grande
madureza, achou por parte dos jesuítas a razão e interesse discreto, e
tomou o acconio conforme; cm que os mesmos procuradores convierara,
e que por ultimo roborado com approvação real. foi mandado pôr em
inteira e.xecução *.
Queria Vieira ser o portador d'estas noticias e das ordens reaes. Mas
el-rei, sempre desejoso de o ter mais perlo, insinuou aos jesuítas, que
pondo entre si esta matéria em conselho, lhe impedissem a partida;
intendendo que este seria o meio mais eííicaz para o demorar. Vieira
porém alcançando licença para entrar no conselho, que sobre isto faziam
os jesuítas, e para orar a sua causa, ponderou taes razões de utilidade
commura, e de vocação, honra e delicadeza própria, c allegou-as com
tamanho ardor e valentia de discurso, que se resolveu a pluralidade dos
I São censurados ua verdaJí;, c justameule censurados, porém do modo vago. O
>ermão é o I da I parte, que secve de introducção a todos os mais com muita proprie-
dade.
* Esta junta, com o nome de junta das missões, se tomou depois permanente por
conseilio e a instancias de Autoniu Vieira; e linha as suas sessões em S. Roque.— Barr.
ib., §§ XCY-CVI.
52
vogaes a ceder antes á força dos seus allegados, do que ajudar o gosto
especial d'el-rei '. Não obstou por outro modo a discreta condescendência
do monarcha; e Vieira, negociados os despaclios necessários, e governado
tudo o que requeria a viagem e o seu propósito, embarcou no porto de
Lisboa a IG de abril. A jornada foi mais venturosa, os mares e ventos
menos descorlezes, e a 17 ou 18 de maio seguinte cbegou ao Maranhão.
Mas não costuma a inconstância do oceano abonançar por algum tempo,
senão pai'a erguer depois maiores serras de suas ondas, e jogar com
maior ludibrio os tristes aventureiros, que se fiaram de sua mansidão
apparente, e que por fim são obrigados, pelo menos a desistir de sua
empresa ; ainda que possuam tão denodado brio e coração tão seguro,
como era evidentemente o com que a natureza dotou e ennobreceu a
pessoa de António Vieira.
Seis annos bem completos e bem trabalhados se deteve agora António
Vieira nesta parte da America portuguesa -. Hecebido com melhor rosto
no Maranhão, auxiliado pelo zelo do governador André Vidal de Negrei-
ros, entrou a cumprir com o regimento, (jue levava d'el-rei. Deu o pri-
meiro cuidado ás aldeias vizinhas, que compoz com prudência, e proveu
de pastores e mestres, tendo em vista não só a religião, mas também a
educação civil dos indios, (lue se achavam já d'antes aldeados. Porém,
como as suas idéas vastas não podiam satisfazer-se com tão pouco, voou
logo mais largo com o pensamento. Em uns logares do sertão viviam po-
vos, que tendo abraçado e professado o cliristianismo caiholico, por effeito
das conquistas liollandésas e das perturbações, de que foram acompanha-
das, primeiramente o corromperam e depois o desprezaram: em outros
havia povos, que tentando se em tempo passado a sua conversão, ou a
repugnaram, ou foram delia por quakjuer modo divertidos: em toda a
parle emfim havia bárbaros, que convidar para o seio da Igreja, e que
trazer á união com os vassallos da coroa portuguesa e á cultura e policia,
que d'esta união lhes devia resultar. A todos estes objectos estendeu Vieira
os seus illimitados designios; sem o amedrontarem trabalhos e perigos,
sem o estorvar a consideração de rios, serranias, brenhas, areaes, desertos
• Barros (ib. § CXII) .allcga como formaes as palavras de Vieira; e certamente
que nào parecem de outrem. Barros não sabia imitar Vieira, cujo estylo, fora dos ser-
mões, era sempre natural e elegante.
2 Chegou em maio adiantado de 1635, voltou por fins de 1661.
53
e tantos outros obstáculos, que em um dilatado paiz, pouco ou nada pene-
irado dos liomens, costuma oíTerecer á ousadia dos enipreliendedores a
natureza. E porque para tão imniensa seara o numero dos seus obreiros,
dado que fosse mais crescido, não podia ser sullicieute, ainda projectava
passar pessoalmente à Bahia, e pedir ao provincial ajudadores, com que
reforçasse os que possuia já, e os que eslava esperando da Europa*.
Se empresa tão gigantesca não era maior, que o coração, ou que a
pliantasia de Vieira, sem duvida era muilo maior, que as suas presentes
forças. Nos ânimos e disposições dos bárbaros accresciam diíliculdades;
a falia de cooperadores ou não admitlia remédio, ou o linlja diílicultoso,
lento e sempre apoucado; e a repugnância dos ci lonos, ura mais tímida,
ora mais resoluta, diflicultava os e.xpedienles, perturbava os planos, tor-
nava sem eITeito as lenlalivas. Apesar de tudo, fizeram-se por direcção de
Vieira varias entradas ao sertão com muito bom successo; renovou-se a
missão da serra de Ibiapába; reduziram-se alg:umas nações, conbeceram-se
outras; grangearam-se noticias de Jogares e produclos, ainda que muito á
custa da paciência, da saúde e até das vidas dos operários jesuítas. E se
bem António Vieira dava os arbilrios e communicava o impulso desde as
colónias, parte porque a primeira mola devia ter alli o seu logar, parte
porque dispondo-se em alguns casos a ir pessoalmente, foi pelo poder
superior embaraçado : nunca esteve comludo Ião quieto, que não fizesse
repetidas viagens do Maranhão ao Pará, e pelo contrario: que não fosse
com summo trabalho visitar e alTeiçoar a missão de Ibiapába; e com maior
risco socegar e amansar os Miccngaibas, cujas hostilidades, que tinham as
colónias como em apertado sitio, não ponde o governador Pedro de Mello
conter por outro meio, que a industria e animosa diligencia de Vieira*.
Ás repugnancias e encontros dos colonos, que foram mais delermina-
' São muito para conliecer c admirar os projectos e trabalhos de Vieira e os dos
seu? sócios em todos estes seis annos. Refere-os Barros (ib. desde o § CXXV até ao
lim do livro II), e a sua relação ainda que pudera ser menos larga e mais simples, é
comtudo curiosa. Isto bastara, quando mais nada soubéssemos, para ter Vieira na conta
de homem fora do çommum.
' O que respeita á missão de Ibiaiiábn. rnnia o mesmo Vieira no primeiro papel,
que entre as Vozes Saudosas se intitula Vnz Histórica : e no tocante á sua pessoa, da
pag. 8:1 em diante. O que respeita aos Mieengaibas . conta Barros no I. III, §| 1 a L, e
o mesmo Vieira na carta a el-rei D. AfTonso VI, que vem no ultimo tomo dos sermões,
e é datada de 11 de fevereiro de 1660.
54
dos logo que constou do fallecimento del-rei D. João IV, foi resistindo
com animo e prudência. A rainha regente, sim, deu signaes de querer con-
tinuar favot ás missões do estado do Maranhão : mas devia causar pouco
receio o vigor de uma regência, embaraçada de mais a mais com cuida-
dos de guerra, com intrigas de corte e com discórdia entre os maiores *.
Vieira resolveu comtudo soíTrer fume a tormenta, e aguardar, sem pôr de
parte o começado, por tempos mais serenos. Porém os moradores do Ma-
ranhão, que talvez esperariam que os jesuítas á força de suas contrarie-
dades voluntariamente se retirassem, e ao menos se sujeitassem; vendo
que succedia contra o que imaginavam, romperam em motim formal e
prenderam os jesuita.»--. Informado deste successo, correu António Vieira
ao Pará, d"onde andava ausenle, por ver se alli atalhava egual rompimento.
Mas a prevenção foi inulil; |)ori|uc com seus companheiros foi elle mesmo
preso e remettido para o Maranhão. Tratou de se justificar, qniz fazer re-
presentações e exhortações^: mas os do Maranlião não quizeram ouvil-o,
os do Pará leram os seus protestos sem ;;!gum bom elfeito; e Vieira com
os mais jesuítas, entre desprezos e vilipêndios, foram obrigados a navegar
para Lisboa, cujo porto Vieira tomou ainda dentro do anuo de 1661.
Se Lisboa, mais culta e menos apaixonada, por seu agasalho e brando
trato consolasse António Vieira do descomedimento grosseiro, cora que o
' Veja-se a carta da rainha com data de 12 de maio de 1639, que Barros (l. III,
§ LI) traz ciipiada: c em que se louvam as suas diligencias, e se llic lecoramenda a
conlinua^iãu e a parlicipação dos impedimentos, que foicem occorrendo.
2 Veja-se Banos, I. Ill, desde o § LXXXIV, c o mesmo Vieira no papel apontado
em a nota seguinte.
' Os jirotestos e exhortações, dirigidas desde a caravella, em que foi mettido, à
camará do Pará em data de 18 de agosto de lC6i, podem verse no I. Ili do Barros,
que as allega em parle desde o § C; e ao todo nas Vozes Saudoxas com o titulo de Voz
Parenelica, a pag. 189.
N. B. Em Ms. se me communicou do archivo da Academia a cópia de uma peti-
ção, que desde a caravella dirigiu Vieira ao governador D. Pedro de Mello, e em que
requeria que o deixassem vir com os mais jesuítas na nau Sacramento, e não sepa-
rado d'elles na caravella: que segundo elle diz, não era mais que um liarco sardinheiro
de Setúbal, roto e sem marinhagem, mais azado para fazer naufrágio do que viagem.
Esla petição não é de menos serviço para representar os encontros e acintes (pie então
solTreu, do que a Voz Parenetiai.
55
estado (io Maranhão, entre tantas circumstancias de insulto bárbaro e vio-
lência alTronlosa, o arrojou de si; poderia elle pelas allen(jões da pátria
esquecer-se fucilmenle das injurias e ingratidão da lerra estrangeira. Po-
rém a sua volla para Li.sboa não loi reslitui(,ão á pátria, íoi desterro; em
que não Ibrain menores os aggravos, accrfscenlados ainda com a lem-
brança de tempos mais venturosos, e a rellexão de que para seu abati-
mento e ruina a mesma pátria conjurava com a terra estranha. Do que
temos contado se colhe a estimação, em qae o tivera el-rei D. João IV, e
a constância de nffccto. com que o mesmo lei, sen íillio o princi[)e D. Theo-
dosio e a rainha D. Lniza em todas as occasiões o honraram. Mas el-rei e
o príncipe L). Theodosio iram íallecidos; e a raiidia D. Luiza. posto que
ainda continuava com o governo do reino, dispunha-se já para o entregar
ao príncipe successor, e achava-se em tal condição, que só podia ajuntar
a outras maguas a de se ver desatlendida nas pessoas dos que mais favo-
recia '.
Logo a 6 de janeiro de 1(502 pregou Vieira na capella real, tendo por
ouvinte a rainha, que. como dissemos, ainda regia o reino. A festividade
e o evangelho, referindo e celebrando a primeira conversão da gentilidade,
traziam á memoria a conversão do gentio da America, e davam occasião
para lastimas do seu desamparo: lançados e atropellados os mestres e
pastores, e elle entregue de lodo á rudeza barbara dos seus matos, ou à
sorte mofina de injustos captiveiros. Não a perdeu o pregador, que com
nmito es[)iríto e até elegância rcpiesentou a miserável orfandade dos ín-
dios, e contou os desatinos dos colonos e as injurias feitas aos missioná-
rios*. Foi ouvido com geral sentimento, e moveu-se especialmente a rainha
a remediar os daunios, a emendar os aggravos e a castigar a insolência
de vassallos refractari(js. Com este propósito principal nomeou novo gover-
nador para o Maranhão; fazendo-lhe ellicazes reconmiendações a favor dos
Índios, em satisfação c auxilio dos missionários seus defensores, e contra
as ousadas pretensões da cubica. (Jueixam-sc os jesuítas do pouco res-
peito, que o governador guardou a estas recommeudações^: e é certo que
' Vcja-se o Port. lirsl., |iarl. 11. II. V c VI.
' E.slc siTiiião !■ n XV tia pari. IV, pap. 4!)!. Vrja-si! fy|ircialiii('iilc o § III, ii." 5.'I2
ali' 5\\ : LeidiUnu exie fumo. ou assoprou cslc incêndio enlre as piilkas de quatro chou-
panas, que com nome de ridade de Belém puderam ser pátria do Anti-Christo.
' Veja-se Barros, 1. III, §§ CXXXVII e CXXXVIll.
56
um século depois não havia meliiorado o negocio fia conversão e reducção
dos Índios; que deixaremos agora, para seguirmos Vieira luctando em
Portugal com fortuna egualmentc contraria.
Desde muito antes mostrava a rainlia I). Lniza, e provavelmente sem
astuta simulação, viva impaciência do encargo do governo. Na declinação
da edade, na desconsolação da viuvez, combatida de escrúpulos por uma
consciência religiosa, deviam opprimi-la muito tantos e tão graves cuidados,
em occasião de guerra, entre desuniões da nobreza e desconfianças dos
povos. Porém el-rei D. AlTonso, por infermidade, por descuido, por con-
versação de pessoas rasteiras, dava pouca esperança de dirigir o Estado
com acerto; e esta duvida suspendia a determinação da rainha e inclinava
o parecer dos mais zelosos a que ella continuasse. Accrescia o desejo de
pôr casa ao infante e de ultimar o casamento de sua filha; pontos, que
requeriam madureza e ao mesmo tempo expedição, que não esperava dos
descuidos d"el-rei, ou da vontade dos seus conselheiros. Mas como ambos
estes negócios se achassem era 1662 já concluídos; como se tivessem as
razões de impaciência augmentado; e como el-rei. que já contava 19 ânuos,
não occultasse o desejo de reinar por si, e mesmo propensão de o fazer
sem guardar à rainha o devido respeito; tomou esta princeza a resolução
final : deixando ao parecer de intendidos e leaes, unicamente o modo mais
discreto de a pôr em eíTeito '.
Satisfazer a el-rei, sem desar da rainha regente e sem escândalo da
nação, era dilficultoso. El-rei queria tomar por suas mãos o que lhe devia,
segundo a boa razão e antigos usos, ser entregue por mãos de sua mãe.
As formalidades e cautelas, que a rainha queria usar para manter o seu
decoro, reputava seu filho destrezas para dilatar a regência. Parecia de
mais a mais coisa importantíssima, e na verdade o era, á honra d'el-rei e
ao bem do reino, tirar do seu lado, antes que lhe fosse entregue o governo,
as pessoas de baixa sorte, que o traziam aliucinado e sujeito a seus inde-
corosos caprichos. Mas este expediente vigoroso não era fácil de tomar; e
ferindo-o em parte muito sensitiva, podia ter gravíssimas consequências.
E se el-rei não obrava em taes matérias inteiramente por seu arbítrio,
também não obrava pelo das pessoas indignas, que mais conversava, mas
sim por impulso de quem ajuntava habilidade com a energia e perseve-
> A primeira tentativa da rainlia para Largar o govcran c referida iio Porhtg. Red .,
p. II, liv. V, pag. 378 e seg. da dita ediç. de 1759, tom. I!I; a segunda e efíicaz é refe-
rida, ibid., tom. IV, pag. 54 e seg.
57
rança da ambição. A rainha portanto, ainda qno tinlia grande inlendiniento,
devia em lai aperto, mesmo quando liasse muito do próprio conselho,
mostrar que se governava pelos alheios. E na verdade houve-se neste
imphcado negocio, até á entrega dos séllos a 23 de jmiho do dito anno,
com muito acerto; e sempre de accordo com sujeitos tão conhecidos por
sua agudeza, como dignos de confiança pela devoção á sua pessoa *.
Foi um destes sujeitos o padre António Vieira; ouvido com os mais
em todo aquelle negocio e assignado no papel, que o secretario dEstado
leu a el-rei na occasião em que foram presos os dois irmãos Coiitis e seus
companheiros. O resoluto procedimento da dita prisão snccedeu a 20 de
junho. El-rei saliiu logo do paço e passou para Alcântara, instigado e
acompanhado dos condes de Castello Melhor e Alhougiiia, e de Sebastião
César de Menezes. Devia acabar sem demora a regência da rainha: e não
havia duvida da sua parte. Mas ou porque os conselheiros d"el-rei na ver-
dade suppozessem que a havia, ou porque de proj)osilo se quizesse fazer
com irregularidade e rompimento o que in)i)ortava muito ser feito com
quietação c boa forma; el-rei repugnava ao que se lhe propunha da parte
da regente sobre esta matéria. A crise era delicada, os ânimos andavam
em grande perturbação; comtudo a regente e os que ella consultava
governarara-se tão judiciosamente, que o arrojo d'el-rei e a ambição dos
que o instigavam tiveram que ceder a conselhos mais moderados : e a
entrega do governo fez-se com tranquillidade, ao menos aiiparenle, c
segundo a conhecida prática dos maiores *.
A mesma discreção, com que os conselheiros da rainha I). Lniza enca-
minharam o negocio da entrega do governo a um e.xilo formal e pacifico,
sem desanctoridade da regente e sem descrédito del-rei, os fazia mais de
recear para os que tinham a direcção principal do presente reinado. O
triumvirato, como lhe chama com certa propriedade U. Luiz de Menezes,
que dentro de pouco tempo se devia embaraçar comsigo mesmo ou dis-
solver, não se demorou em ir com forças ainda unidas coiitia os inimigos
communs '. D. Nuno Alvares Pereira, primeiro duque de Cadaval, foi
' Veja-se o 1'ort. lirftaur., tom. IV, pag. ."16 e scg.
* Conseguiu->e, de|»iis do varias propostas e rciilicas. qnij el-rci vollasse para o
paro, e que a raiuha Itio entregasse; de sua mão os sellos em presença das pessoas, a
que rompetia, e |)ara isso convocadas.
' Pouco depois se tomou suspeito o conde de Atliouguia, e sendo alíronlado nas
58
desterrado para Almeida, onde esteve até 1G64; o conde de Soure, o de
Poinbeiro, o monteiro-mòr e Pedro Vieira da Silva foram mandados para
outros logares em distancia de oO léguas da corte; e em razão de egual
distancia foi António Vieira mandado para o sen collegio do Porto. E d'este
mesmo contratempo, da causa e dos companheiros nelle, se colhe bem a
iniluencia, que lograva com as personagens mais auclorizadas da antiga
corte, e quanto aos contrários pareciam de temer os seus recursos e con-
selhos *.
A distancia do collegio do Porto, onde Vieira chegou em agosto, e tal-
vez mesmo em julho de 1GG2, [tarece que ainda não era grande no conceito
ou na vontade dos que haviam maquinado o seu degredo ^. Foi elle avisado
de que o intento era fazé-lo conduzir a Angola ou ao Brazil ; e outros
avisos estendiam-se até á índia ^. Porém ou estes avisos foram mais fun-
dados no temor de quem os fazia, do que era realidade, ou mudaram de
intento os seus oppostos. E o certo é, que em vez de se augmcntar, se
dimiuuiu a distancia da corte; pois que em princípios de 16G3 teve ordem,
com que logo cumpriu, para passar do collegio do Porto para o de Coim-
bra. Esta ordem insinua elle ser procedida de suspeita, a que deu occasião
uma carta sua, dirigida a D. Roílogo de Menezes *. Entre as correspon-
pcssoas de seus amigos e ii;iroiites, priíiciíiioii didefença entre eite c o conde de
C.nslello Mellior, que se aiigineMlnii cada v(^z mais até liiial desconcerto. Sebastião
César por suspeitas e ciuniiís foi tamliern desterrado; logo para as vizintiaiiças de
Lisboa, e emfim para o convento da liatalha. Port. licst., tom. IV, pagg. 191-194. Para
o desterro dos conselheiros da rainha 1). Luiza, vcja-se ib., pag. 81.
' Que se temiam de António Vieira, não pódc entrar em duvida, e também a não
pode ter, que o que d'elle lemiam, eram os pareceres c expedientes *.
* JV. B. No memorial ao princii)e I) Pedro diz Vieira: no anno de 61, governando
já a rainha que está em (jloria, íiimbem amstin sempre em todas as juntas de ministros
mais confidentes de S. Majestade e de V, Alteza, sendo elle o instrumento mais immediato,
que i>or ordem dos mais, propunha e solicitara us ultimas resolvções.
2 Tire (iriso haverá gninzc dias, que me estava decretado novo desterro: uma versão
diz, que para o Brazil. outra para o Maranhão, outra para Anijola. Carta de Vieira,
n. XVIII do vol. 1, cujo sobrcscripto está errado, jiorque é ao duque de Cadaval,, quando
deve ser para o marquez de Gouveia.
3 Cá tive meus rebates como o anno passado, de me quererem mudar o deyredo para
mais longe nesta occasião de nau da, índia; mas não são necessárias as calmas de Guiné,
uew íís lariiteiitas da caho da Boa Esperança, etc, vol. I, cart. XXIV.
* Veja-se a carta III, do vol. Ill, das de Vieira.
59
dencias, que Vieira continuou por caria, desde que saliiu ile Lisboa, no-
lam-se as (jue teve com este lidalgo e com o marquez de Gouveia; lie
ambas as qunes conservamos monumentos, que não são imlilTercnles para
a historia de Vieira e a do seu tempo, e que são muito para estimar em
razão da sua forma. K como de Vieira dão noticias, que servem a esta
relação, será necessário dar summariamente ao leitor algum conhecimento
da condição, em que se achavam estes dois fidalgos, e da substancia das
cartas, que possuímos, encaminiiadas a um e outro.
D. João da Silva, segundo martjuez de Gduveia, e nllimo dos que eram
por varonia da casa de Portalegre, não desafiou tanto a inimizade do
triumvirato, e por esse motivo não Ibi comprcliendiílo no numero dos
desterrados. Mas como em razão das disposições, que na casa d"ei-rei se
fizeram pelo arbilrio dos novos conselheiros, se viu sem influencia no paço,
e coarctado no exercício e prerogalivas de cargo de mordomo mòr, em
que succedera a seu pae o primeiro marquez de Gouveia ; com isto desgos-
toso, pediu licença para se retirar da corte. Negou-sc-ihe ao primeiro
requerimento; mas instando, foi-lhe concedida: com a declaração de que
não tornaria á corte sem ordem d'el-rei. Helirouse então para a sua villa
de Gouveia por janeiro de 1G63, e ao tempo d'este seu retiro c um pouco
mais adiante é que se refere boa parle das cartas, que Vieira lhe dirigiu,
e de que agora nos fazemos cargo Dão a ver as ditas cartas, que o des-
gosto do governo presente era commum ao marquez de Gouveia e a Vieira:
porém ainda que Vieira uma ou outra vez lhe aponta as altas esperanças,
em que o traziam acerca de futuras prosperidades portuguesas as suas
prophecias, é muito levemente; e da pessoa do infante não lhe falia, senão
pouco e sem grandes desafogos: donde infiro, que cultivando a amizade
do marquez, e fiando de seus oHicios em opportuna occasião meliioramento
de fortuna, punha comtudo na sua aíTeição e caracter menos segurança,
do que no de D. Hodrigo de Menezes '.
Foi D. Rodrigo de Menezes, filho du segundo conde de Gantanhede, e
irmão do primeiro marquez de Marialva, o vencedor das linlias d Klvas e
de Montes Claros. Seguindo o caminho das leltras, que estudou em Coim-
bra, veio a ser presidente do desembargo do paço, regedor das justiças e
' As cartas escriptas ao marquez de (Jouv(!Ía desde Coimbra vèrii no vdl. 111.
entre V e XXVIII; mas uma ou outra se acham tamljein nos vol. I c II. Na Yll e VIII
do dito vol. III, se pôde ver o que diz das suas altas esperanças.
60
do conselho destado; e por seu nascimento occupou os logares de cama-
rista e estribeiro mór do principe regente. Acceito em todo o tempo a
este principe, não tomou comtudo parle nos successos, com que a regência
da rainha D. Luiza se conchiiu. Não o alcançou pois o turbilhão, que
arremessou para Almeida o duque de Cadaval, para Loulé o conde de
Soure e para o Porto António Vieira. Sem embargo disso, ou porque a
sua casa nos annos de 1662 e 63 se viu menos favorecida do governo; ou
porque não podia accommodar-se com os desconcertos, se não eram insa-
nias, do paço, allestados uniformemente pelos contemporâneos ; ou porque
emfim muito entregue ao partido do infante, se julgava implicado nas
desatlenções e riscos, que este principe corria; parece certo que inclinava
muito para outra ordem de coisas, e que desejoso de mudanças, sentia
com os mais, que as desejavam, e especialmente com Vieira, que além de
as desejar, ou por isso que as desejava com ardor, as imaginava e antes
sonhava, não só infalliveis, mas até muito chegadas.
Esta commuiiicação de desejos e pensamentos consta claramente da
correspondência. O infante pelos symbolos de Santelmo e do Corpo Sanln
é apontado com frequência e inclinação visivel; os vicios e erros da côrle
são referidos ou alludidos com encarecida lastima ; os seus descuidos
apparenles são commentados com empenho ; os mesmos successos felizes,
se não abatidos ou delraliidos em razão da muita parte que nelles teve o
marquez de Marialva, ao menos são reputados pouco bastantes para a
completa restauração do reino '. Porém sobretudo são inculcadas com toda
a clareza, que as circumstancias solfriam, as esperanças vastas de um
largo império e brilhantíssima gloria portuguesa, e de prodigioso triumpho
da Igreja catholica sobre a infidelidade mahomelana, e até sobre a rebel-
lião das seitas chrislãs separadas. António Vieira dá conta das prophecias,
em que as suas esperanças assentavam; communica a obra mysteriosa,
em que as ia desenvolvendo, e os seus progressos; pede a D. Rodrigo de
Menezes a coadjuvação de conselho e de livros: e bem se alcança, que a
amizade de D. Rodrigo lhe não faltava com estes soccorros *.
' As carias escriptas do Coimbra a D. Rodrigo de Menezes podem ler-se (c mere-
cem ser lidas) principalmente no I vol., números XX-IjXXXI. Algumas poucas vêm
no viil. II.
2 IJe tudo isto é Ijaslante prova o seguinte fragmento da carta XXI do I vol. :
Aqnrlle papel ,se vae fazendo, quanto o permitte a frieza do tempo e a fraqueza da xaude ;
was não o verá o mundo, sem que V. S. o veja e o emende primeiro. Aquelles documentos.
61
Nenhum homem pôde ser inteiramente superior ao seu século. As idéas
e opiuiões, nelle dominantes, o hão de sujeitar mais ou menos. E ou porque
n3o ha intendimento tão agudo, que penetre a muito larga distancia do
ponto, a que alcança a totalidade dos seus contemporâneos; ou porque
não ha espirito tão isento, que chegue a se hbertar de todos os [irejuizos
e preoccupações ; ou emfmi porípie não ha audácia tão atrevida, que se
lembre de alTrontar em cheio o commum sentir da geração a (jue [)erteiice:
é certo, que os mais adiantados nunca o são a perder lolainieute de vista
aquelles, com quem entraram na mesma carreira; os mais singulares
guardam sempre essenciaes analogias com o commum; os maiores origi-
naes nunca excluem toda a similliança. Aristóteles no tempo de Cecmps
não fora Aristóteles: e Newton, alongando-se tanto da sua edade, sempre
mostrou que não era de outra. E assim como a virtude mais pura tem
sempre certa liga da imperfeição da natureza humana ; assim o mais bri-
lhante engenho nunca discute plenamente as sombras, de que se acha
esciu-ecido o próprio horisonte. Os espíritos extraordinários, de que a
bisioria nos refere o apparecimento em séculos tenebrosos, nunca passaram
de luzeiros fracos e incertos; e não avaliamos o seu grande poder tanto
pela claridade, que communicaram, como pelos obstáculos da cerração
densa, por que romperam.
Se António Vieira por mera condescendência sacrificou nas nraçi5es do
púlpito ao gosto do tempo, que tinha por estragado; muito sinceramente
ao contrario abraçou as credulidades, e se entregou ás visões, ou abusões,
que ainda no século XVII, dominaram mais ou menos toda a Europa. Não
ha século, que não se iiluda com engauos, que não abrace e não adore
erros: e se algum presumisse de si esse privilegio de infallivel, não pudera
offerecer do seu engano e erro argumento mais decisivo. Rimo-uos da
sisuda gravidade, com que nossos passados creram e defenderam illusões:
pagar-nos-lião na mesma moeda os nossos vindouros; e pagar-lhes-ha
lambem a elles a sua posteridade. No presupposlo Qrme de nossas opiniões,
no fervor de nossas emprezas, parece-nos o engano ou erro incrível; e
em que {aliei na curta passada, não dêni cuidado a V- S., porque ainda depois do en-
trudo rirão a tempo. E na caria seguinte diz : As jusli/irarões do livro do Beato Amadeu
estimei tjrandemente ver peta variedade e incerteza, com que nelle faliam os auctores. . .
As de S. Fr. Gil tomara também ver, e me lembra que as tinha antigamente um espar-
teWo das portas da Mouraria.
62
aiuda quando ostentamos duvidas modestas, a duvida sahe á lingua ou á
penna, mas a convicção fica no animo. E chega a tanto aqui a nossa fra-
queza, que mesmo observando bem o que aconteceu aos que nos prece-
deram, nos ficamos lisonjeando de mais isentos. Esta mal considerada
arrogância do amor próprio é proveitosa, porque de outra sorte o género
humano se precii}itaria em um pyrrhonismo incrle, mais prejudicial, que a
dita arrogância: mas notemos de caminho, quão pouco deve blasonar de
poderes inteliecluaes uma natureza, a quem é preciso eutregar-se a certos
defeitos, para fugir o damno de outros mais perigosos.
Os portugueses do século XVII criam as profecias de Gonçaliaaes
Bandarra, esperavam o encoberto, assustavam-se de cometas, liam futuros
nas estrellas, sabiam cora prognósticos '. Não eram elles todavia os únicos
europeus, que no seu tempo se podem notar d'esta fraqueza: porém as
suas desgraças desde a bataiiia de Alcácer, os seus receios depois da
acciamagão de 1040 os tinham talvez mais crédulos; visto que o homem
nos grandes males e temores costuma ser mais ceito ludibrio da propensão,
que todos temos, por um lado a engrossar na phantasia os temidos desas-
tres, e por outro a converter os nossos mais vivos desejos em ardentes
esperanças. Tegou-se também d'este contagio António Vieira. E como tinha
tanto de agudo e de especulativo, não só foi adiante de todos os outros,
mas foi o corypheu e oráculo dos mais ^. Não poniio duvida em que alguma
vez encarecese as próprias opiniões, ou que apurado pela disputa e contra-
dicção, procedesse mais longe, do que ao principio intentara ; mas o modo
de pensar dos tempos, o das pessoas, que tratava e respeitava, a sua
franqueza pelo commum muito resoluta, persuadem que se houve alguma
hyperbole nos accidentes, na substancia de seus conceitos sobre a matéria
sujeita não faltava sinceridade ^.
Consta que sobre similhanles assumptos escrevera Vieira já antes do
• Quando não constasse de outro modo, das cartas de Vieira se manifesta pelo que
toca aos grandes e aos doutos; d' onde se pode fazer argumento para a gente do povo.
2 Nem foi outra a razão, por que empreliendeu a obra, de que falia a D. Rodrigo
tle Menezes.
' As razões apontadas são graves; e é certo, de mais a mais, que em toda a
correspondência, que temos de Vieira impressa, não se acha uma palavra, que desminta
a nossa afflrmativa. É porém provável, que disputamlo ou arguiiulo, passasse além
do próprio convencimento.
63
desterro para o Porto, e que no Porto e em Coimbra continuou a escrever.
Para se ajudar na composição d'esta obra, é que pedia a D. Rodrigo de
.Meuezes os opúsculos do ahhade Joaquim e outros de lai natureza. Mas não
alliruiarei, qut! esta obra ora a mesma qnií o pa[iel iuliluladu ]'siicraiir(i.'í
lie Portugal, (/idiuo império do mundo *. Esle [)apt'l liavia já sabido da sua
mão, quando ainda durava aqnelle Irabaliio; porque por clle foi delatado,
e a seu respeito foi inquirido, ao mesmo tempo qm aflirmava aos seus
correspondentes, que se ia occupando com a obra referida. Comtudo sus-
peito, que se o papel denunciado não era absúlulameníe o mesmo, seria
d'elle extracto ou parle de algum vullo, que Vieira separou e communicou;
pois que não só é muito de crer, que cunviubam no propósito c maleria,
mas lambem é certo, que o auctor nas cartas, escriptas de Coimbra antes
de outubro de 1603, falia de papel commnnicado, que segundo o que
parece, dizia respeito ao mesmo assumpto *.
O pa[)el intitulado Eifprranças de Portugal, quinto império do mundo,
foi denunciado por principios de 1003, ou pouco adeanle. O santo oíBcio
de Lisboa maiidou-o examinar com escriipulo, e o mesmo praticou a con-
gregação de Homa. Toparam os censores, tanto os portugueses, como os
romanos, com algumas proposições arrojadas, que notaram gravemente.
E accrescendo ainda denuncias de proposições erróneas, que o auctor
arriscara ou no [julpilo ou em particular conversação, foi António Vieira cha-
mado á inijuisição de Coimbra. O promotor do tribunal olTereceii libeiio
por outubro ou novembro do dito anno ; e liavido Vieira como reu, pro-
* o modo. por (jiie da obra falia a D. Kndrigo de Mouezcs, inculca sempre que
sobre ella linliaiii fallado pessoalmente; o que só podia ser em Lisboa antes do des-
terro. Veja-se particularmente a carta XXV, do I vol. Na carta n. XXXVll, diz: o do
ablmde Joaquim espero roíd airororo.
■ Suppiíz que V. S. Ifirmii por bem.qiii' eu corltiííte este pequeno retalho da peça. . .
Por eslu rausa fiz rleirão d'afiueltcs eapiliilos mais rapazes, etc. Cart., vol. I. n. LIX. Xa
carta XF.Vl do vol. II. falia porém d(! papel escripto ao bispo do Japão, durando ainda
o governo da rainlia M. l-uiza. de que pelo mysterio e mais circunislancias se poderia
conjecturar que foi n papel delalado ao santo olticio *.
• -V. B. Não lia duvida que o papel delatado ao santo oíDcio foi o mesmo quinto
império, que António Vieira dirigiu desde o Amazonas ao bispo eleito do Japão, logo
depois da morte d el-rei I). Jnão IV : não era pois o mesmo ou parte do (|ue compunha
por ma.) e em que fallava a D. Rodrigo de .Menezes; mas timho que convinham na
substancia.
64
cedeu o seu negocio, correndo os termos usados, e acudindo elle com as
coarladas e respostas, que julgava opportunas, já por escripto, já de viva
voz, nas occasiões, em que para isso ia do coilegio á inquisição. Mas largas
6 fortes moléstias, que llie sobrevieram, impediram muito a marclia do
processo; de maneira que ainda em 14 de setemijro de ItJGfJ apresentava
muitas mãos de papel escriptas em sua defesa '. A correspondência porém
com D. Rodrigo de Menezes, com o marquez de Gouvéa, com o duque de
Cadaval e seu irmão 1). Tlieodosio, continuou em todo a(]uelle espaço de
tempo tão frequente, tão desassombi-ado e com tão forte tintura das mes-
mas opiniões, de que em juizo era arguido e processado, que não é
possível inferir d'ella, se exceptuarmos poucas, breves e não muito claras
passagens, que o agitava cuidado tamanho, e menos ainda que succumbia
ao justo receio das suas consequências ^.
l'or princípios de outubro de 10C5 tomou o tribunal do santo officio a
resolução de o deixar recluso em uma das suas casas de custodia. As razões
d'esta resolução aponta a sentença por termos tão vagos, e modo tão con-
ciso, que não podem comprehender-se ao cei'lo. É uma d'ellas achar-se que
as proposições e denundaçues accrescidas coiilinhain não sô doutrina nova,
perigosa e falsa ; mas lambem outras matérias de grande peso e importância.
Porém não alcanço como a doutrina das primeiras nove proposições se
possa reputar menos perigosa e falsa, que a das accrescidas : e as matérias
•outras, que as dontrinaes, por maior peso e importância, que se llies queirai
suppor, a não tocarem, como parece que não tocavam, em ponto de cos-
tumes, ficavam fora da jurisdicção de um tribunal erigido contra a heré-
tica pravidade. A outra razão apontada é, parecer muito conveniente por todos:
ns respeitos averigua-las (as proposições e denuuciações accrescidas) com a
maior madureza e circumspecção, e com a segurança da pessoa do réu.
« André di; n;irros, 1. III, § CLXII. E supponlio ser este o segundo papel por elte
offereeido, de que falia a sentença n.° 45.
^ As passagens breves e pouco claras, de que fallo, podem ver-se nas cartas LII,
LV 8 LVI do I vol. Na LV diz elle a este respeito o seguinte : V. S.peta mercê, que me
faz, não tome pena peto que digo, que o meu corarão é muito grande, e muito costumado
a navegar com grandes tormentas, e só me fatta nesta o altivio da communicarão de V.
S., que ile tudo o mais me rio, e verdadeiramente é para rir. Bem a propósito da tor-
menta vinha agora o senlior Sanletmo. Dizia o nosso príncipe, que não havia peior gente
que os semidoutos (e ainda são peiores sem boa vontade). Deus sabe o que faz, e porque,
e para que.
65
Porém a reclusão não se representa de muito serviço para a madureza dás
averiguações : e os fnndamenlos por que amciíifia a seyuraiira da pessoa do
réu. como não são declarados, mal podem ser agora aduiiltidos, nem ainda
intendidos do leitor.
Comtudõ, porque à critica modesta (e não queremos nós fazer uso de
entra) não é licito em caso de duvida decidir, que um tribunal obrou sem
snlliciente motivo, suppomos que o era o que determinou o santo oflicio
de Coimbra à reclusão de António Vieira. Esta reclusão, que principiou,
como diziamos, com outubro de 1G65, durou até 23 de dezembro de 1667.
Passou-se este largo espaço em pedir a Vieira explicações, era examinar
as que elle oíTerecia, em altender ás suas replicas, e em o exhortar á
desistência e sujeição. Não era possivel tomar ás mãos um homem tão
agudo e tão exercitado em argucias e finuias de discurso ; e por muito
destros que fossem os contendores, não poderiam |)ò-li) em aperto, de que
se não desembaraçasse por evasiva especiosa. Não havia meio : ou elle se
havia de sujeitar muito espontaneamente, ou o tribunal o havia de con-
demnar por invencível contumácia. Condemna-lo poiém de contumácia, era
muito perigoso ; movè-lo a bem voluntária sujeição, não tinha dilTiculdade
pouco grave.
Deste enleio sahiu o tribunal pela decisão de Roma. Alexandre VII
approvoa a censura, feita pelos qualificadores da congregação do santo
otlicio : e desde que a Vieira constou esta approvação, desceu a desdizer-se
e a retractar-se do que tinha sustentado, e a reconhecer a verdade em con-
trario; pedindo que a sua causa fosse decidida nestes últimos termos'
Lavrou-se a sentença, que, expendido largamente o relatório, manda que
spja privado para sempre de voz aclita e passiva e do poder de pregar, e
reiltiso no collegio ou casa de sua religião, (/xe o mnto ojlicio lhe assigiiar;
e que por lerinu, por elle assignado, se obrigue a não tratar tnais das pro-
posirões, de que foi arguido no decurso da sua causa; e de maior condemnação
o releva, havendo respeito d sua desistência, relractação, protestos e ao muito
lenipo de sua reclusão : com outras considerações, que no caso se tiveram.
Esta sentença foi lida ao réu na sala do santo olFicio, perante os inquisi-
Jnrps e mais ministros, e algumas pessoas religiosas, e outras ecclesiasticas
• Veja-se nas Provax da Dedv.n: Chronol., n.» XLV, n seniença do santo offlcio,
n.' lOi— 108.
66
do corpo da iuiveisidade, na tarde do dito dia 23 de dezembro de 1667 ;
e na manhã seguinte llie foi lida no seu coliegio de Coimbra, em presença
de toda a coramuiiidade, por um dos notários do tribunal*: com o que
teve fim este importante incidente, c trai)albo duro e pesado sobre todos
os de que abundou a vida dilatada e trabalhada de António Vieira.
Assignou o santo officio para reclusão a residência de Pedroso, a dez-
oito léguas de Coimbra na estrada do Porto. Porém estando Vieira ainda
em Coimbra, lhe foi pelo conselho geral commutada a residência de Pedroso
na casa da Cotovia de Lisboa-; aos seis mezes depois de publicada a sen-
tença, foi em tudo dispensado e perdoado pelo mesmo conselho: e tinha
já passado da casa da Cotovia para o coliegio de Santo Antão, antes de
sahir para Roma em 1669 ^. Bem que as culpas, de que Vieira foi arguido,
me parecem de certo momento, o modo, por que neste negocio se com-
portou o santo oíTicio, tenho comtudo por estranho. A implicância, que
reconheço neste dito, me obriga a propor algumas ponderações, que devera
envolver historia de Vieira, e que por isso não tenho por alheias d'este
Discurso. Se a minha imparcialidade não é ainda bem manifesta, repito que
não quero favorecer contra razão e justiça a causa de Vieira, nem quero
fazer ao tribunal do santo oílicio injuria. Nunca tive, nem podia ter, o dito
tribunal por infallivel : mas tive-o sempre por observante das suas regras,
e por animado do sincero desejo de alcançar o seu legitimo propósito ;
posto que tudo isto subordinado aos princípios que professava, as idéas
contemporâneas, sobre cuja verdade e apuramento não pretendo pronun-
ciar agora, e à influencia poderosa do jogo das causas politicas.
As seis proposições, a que se podem reduzir as nove, extrahidas do
papel Quinto Império do Mundo, são certamente fátuas e temerárias ; nem
tèm desculpa alguma, senão no modo de pensar dos tempos, na illusão das
paixões, no ardor exaltado dos partidos. Nas replicas, Vieira torceu repre-
hensivelmente o. sentido das Escripturas, e fez applicações, plausíveis sim
nos termos, porém absurdas e ineptas na substancia. O seu Millenium não
' Tudo consta da sentença citada e seu appendix.
2 Também consta do dito appendix, e de André de Barros, 1. III, § CLXXVlI.
' Barros diz que em breve passou para o coliegio de Santo Antão, e certamente
nelle residia já, quando pregou o sermão de Santo Ignacio (p. I, n.° VI), que se diz na
inscripção pregado em 1669. Também suspeito que foi anterior á partida para Roma a
carta LVII, do vol. II, escripta de Santo Antão ao duque de Cadaval.
67
I) Milleiéiiini carual e toipe. que reprovou a Egreja antiga ; mas tal idéa
e tal palavra loram reproduzidas com pouco fimdamento, e ainda menos
aviso. As em[)rèsas do sermão de S. Pedro Noiasco e outros, são dignas
de muito reparo e até reprovação ; mas eram, para o dizer assim, exqtii-
siíiirs daquella edade, em que a grande ambição dos pregadores sò atirava
a distinguir-se por novidades, por singularidades, por meros jogos de
engenho, que entrelinham e talvez admiravam ouvintes de mau gosto, mas
realmente desdiziam do verdadeiro zelo e deshonravam o juizo dos seus
andores. Em summa que, tudo bem considerado e contrapesado, as pro-
posiçiJes notadas de Vieira mais me parecem paradoxos, do que erros ;
mais extravagâncias dignas de riso, que alRrmativas perigosas, merecedoras
de uma seria e formal condemnação.
Foram porém condemnadas com a mais séria formalidade ; e as penas
impostas, por si mesmas e pelo apparato da publicação, foram maiores,
se me não engano, do que a culpa requeria. Privado para sempre de voz
activa e passiva e da faculdade de pregar! Reclusão perpetua, e em casa
determinada, e porventura a menos bem situada e comnioda de quantas
possuia neste reino a sociedade ! Termo de não tratar mais, nem de palavra,
liem por escripln, das proposições controvertidas no decurso da causa !
Publicação com tantas circiunstancias e tão graves de confusão e de abati-
mento ! E tudo isto, ainda rclevatido-se-llie a maior condemiiarão, que por
suas culpas merecia t E pi-ecedendo desistência, retractação e protestos do
réu ; e mais de dois annos de reclusão em cárcere, e talvez quatro de
sujeição ás ordens e mandados do tribunal •! Se António Vieira tinha com
o tribanal a opinião de sinceramente submettido, tantas e tão ásperas cau-
telas parecem snperfluas e muito duras para com sujeito de taes prendas
e serviços : se não tinha aquella opinião, o conhecimento dos seus talentos,
a experiência de casos análogos aconselhava moderação, que brandamente
contivesse, em vez de dureza, que mais o incitasse. Que se podia reservar
para um herético? para um corruptor da moral no sagrado do confessio-
nário ? para um traidor dos segredos da penitencia com desacato do minis-
' A prisão durou desde princípios dn outubro do 1663 alé 23 (If. dezembro de 1667,
e da mesma senlenra se infere bem, (|ue o seu negocio couieçára a ser tratado muito;
tempo antes ; porqui; pi incipiou muito antes de ser offerecido pelo promotor o libelio,
e do libelio á reclusão correram, ao menos, treze mezes.
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terio, com ruiiiii das consciências, cora escândalo dos fieis, e talvez peri-
gosas perlurljações da ordem civil ?
Os mesmos ministros do santo ofiicio, por outro lado, inculcaram como
pouco grave a culpa, a que se impuz<.'ra na s( nlença tamanlia pena. Ob-
serva Barros com muita razão, que nem obrigaram Vieira a que fizesse
abjuração de Icri : abjuração praticada nos casos ainda menos importantes.
O degredo foi sem demora trocado co:n a residência em Lisboa ; a reclusão
perpetua acabou dentro de seis mezes; a 21 de junho de 10(58 devia já
pregar na corte'; a indulgência emfim do conselho geral converteu em
branduras todos os rigores da Mesa de Coimbra. Poderá referir-se esta
mudança á opinião differente dos juizes de Lisboa : mas a isso obsta, que
a qualificação de Lisboa foi a mesma por que Coimbra se governou ; e que
a Mesa inferior não i)odia desviar-se tão largamente do parecer do conselho,
nem resolver tão [)ouco de accordo com elle em matéria tão relevante, e
acerca de sujeito Ião conhecido e tão notável. De sorte que, tendo a tudo
isto a devida attenção, é difQculloso absolver, ou a sentença de excesso de
severidade, ou a brandura, que a dispensou tão cabal e promptamente,
da nota de incohereucia.
Não tinham passado mais de Ires dias depois que fora restituído ao
collegio de Coimbra, quando no dito collegio o foi visitar o mesmo presi-
dente da Mesa do santo oCficio. Repetiu por outras vezes esta obsequio ;
e os mais ministros o imitaram, todos com significações, diz André de
Barros, de estimação rara, e de honra singular. Vieira, escrevendo ao duque
de Cadaval, insinua estes favores, atleudiveis com effeito, e até me parece
que insinua cousa de maior importância 2. Em chegando a Lisboa, recebeu
eguaes contemplações de ministros da inquisição tão graves, como eram
por suas qualidades e empregos I). Veríssimo de Lencastre, dej)OÍs inqui-
sidor geral, e D. Diogo de Sousa, depois arcebispo de Évora. De muitas
outras personagens da primeira nobreza foi tratado com attenção muito
distincta, ou por cartas de consolação, encaminhadas desde logo a Coimbra,
1 Devia pregar 110 dia de annos da rainha D. Maria Francisca, 21 de junho de 1608:
mas impedido por ninleslia (ou por oulro motivo?) não pregou : porém o sermão i'
o priuKíiro que anda estampado no tom. XIV.
2 Os senhores de cá (vol. II, cart. Lli), quf me têm visitado por vezes, ticertim a
mesma noticia, posto que ainda não o despirho. Ou!ras cotisus intendi d'elli'S, que pode-
riam ser de alqnm nllivio, se as soubera o mundo.
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OH por cumiiriínentos pessoaes na Cotovia de Lisboa '. E é certo, que este
trabalho, coiirumliiulo por algum tempo e abatendo Vieira, lhe redundou
era gloria : e que podia dizer, sem faltar um ponto á verdade, que no des-
barato tinha achado occasião de trium[ilio; ou antes, que por isso mesmo
que soffròra rota lastimosa, triumphou com mais circumstancias de appa-
ratoso Inzimenlo.
Incohereiícias tão palpáveis em um Iribuual, que se portou em todo o
lempo com grande tonto e madureza, a coincidência da mudança de Vieira
para melhor fortuna cum a do governo e negócios do reino, me levam a
suspeitar, que a foituna se tornou para Vieira mais benigna, porque o
meneio dos negócios do reino passou a outras mãos. El-rei D. AÍTonso
desistiu por um acto datado de 23 de novembro de i667; António Vieira
voltou do santo ofUcio para o collegio de Coimbra um niez precisamente
depois daquelia desistência. Na regência do príncipe D. Pedro ficou tendo
muita parto e grande influxo o duque de Cadaval, que favorecia com par-
ticularidade António Vieira; e do mesmo príncipe era estimado e bem visto
D. Rodrigo de Jlenezes, intimo de Vieira e seu participante dos segredos,
que deram occasião aos desabrimentos, que provou o jesuíta*. Como é
possível, observando-se (aes correspondências e respeitos, dei.xar de inferir
que a expedição do negocio de Vieira, e mais ainda o favor e attenções,
que exporimentfju depois da soltura, procederam da inlerveução de auclo-
ridade mais poderosa ? As primeiras cartas, que Vieira escreveu ao duque
de Cadaval no principio de l(j(J8, ainda de Coimbra, accrescenlam os mo-
tivos a esta illação , porque d ellas se conhece, que o duque tomava parlo
muilo activa no remédio dos seus contratempos, e que com este fim ate
se constituía arbitro do seu posterior comportamento ^.
Se ha porém razão de suspeitar que o favor da côrle teve na emenda
da fortuna de Vieira muita influencia, também a ha de suspeitar, (juc os
trabalhos, que nesia occasião padeceu, procederam do seu desfavoi'. Que
' Barros, I. III, § CLXXIX.
' Colhe-se necessariamente das Cartas para I). liodrigo de Menezes, ijiie elle e
Vieira linliam n mesmo modo de pensar àcerea d'esta matéria, c que reeiproeainente
SC eommiinieavam as suas esperanças e fumlamentos d'ellíis.
' Irei pura ondp me mandarem, pois assim 1'. /v o manda. Vol. II, cari. lil. Como
V. E. não repara no modo, mnl pude arhar inconveniente nelle, quem obedece em tudo
(eomo V E. lhe mandou, aos olhos fechados). Itiid., cart. LV.
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a corte d'el-rei D. Afifonso lhe era contraria, não admitle duvida. O encur-
tar-Uie no desterro a distancia de Lisboa, chamando-o do Porto para
Coimbra, não se pôde allribuir a desejo de lhe dar aliivio. E obsei vando-se,
que Coimbra foi, quasi logo o iheatro, em que passou a scena desagra-
dável que temos referido, tem logar a suspeita de que o que podia parecer
encaminhado a mitigar rigor, tinha o verdadeiro propósito de lhe augmentar
a pena '. Exphca-se bem d"este modo a perseguição d'elle só, por culpas,
era que o numero dos cúmplices era tão avultado e pouco menos que uni-
versal ; a reclusão, sem motivo, que satisfaça o leitor da sentença ; a dureza,
pouco proporcionada, das penas por ella impostas; a inconsequência, com
que o santo oflicio notou e castigou sermões, que veiu depois a permiltir,
que com grande elogio se estampassem sem differença ^ ; e tinalmente o
seguinte obsequio dos inquisidoiTS e mais ministros, no qual se implicava
de certo modo a escusa do procedimento anterior, como referindo-o antes
a impulso alheio, do que á própria ou deliberada opinião.
Por mais que eu discorra, não posso achar outro sentido accommodado
áquellas palavras de Vieira na carta para o duque de Cadaval — Outras
cousas intendi d'elles (os inquisidores de Coimbra, que o visitaram), (jue
podcram ser de abjum aliivio, se as soubera o inundo. Os in(]uisidores mais
as insinuavam, do que as diziam ; não podiam ser reveladas ao mundo ;
poderam porém ser de aliivio a Vieira, no caso que fossem reveladas. O
que tudo parece indicar impulso de prepotência ; o qual certamente dimi-
nuía em Vieira o descrédito, e pelo santo oflicio não podia ser inculcado
sem rebuço, e menos ainda ser divulgado. Vejo que se oppõe a esta sup-
posição o rigor da sentença, iio caso que fosse lançada depois de 23 de
novembro; porque já então os que a proferiram, não eram determinados
por aquelle impidso, antes o eram pelo contrario, visto o favor da regência
para com Vieira. Mas a sentença podia ser proferida antes do dito praso :
ou o santo olíicio julgou, que não podia voltar atraz sem grande desar, e
a regência viu-se obrigada a condescender; intendendo que as penas deviam
< Veio do Porto para Coimbra em janeiro de 166IÍ ; e por boa eonta, dentro d'e?se
mesmo anno foi delatado, e o ?eu negocio posto em tela judic-ial no santo ofilcio.
* Vieira estava na America, as pai.xôes tinham esfriado ; foram portanto vistos os
sermões com os mesmos olhos, com que o sei iain em 1665, se as paixões não estivessem
muito accesas. Fora do primeiro tomo, todos os mais se estamparam, depois que Vieira
se retirou para o Brazil.
71
cessar com o perdão, e que a um homem, como Vieira, seria muito fácil
deseuibaraçir-se do descrédito, como depois provou o successo. E não ha
duvida, que das cartas se vé, que o duque de Cadaval se inclinava a con-
descendências, e que aconselhava a Vieira, que nisto fosse do mesmo
parecer '.
Nas priíieiras duas cartas escriptas ao duque de Cadaval a 3 e 9 de
janeiro, de; ou quinze dias depois da soltura, usa Vieira termos, que
mostram nuito abatimento de animo; se bem que de nenhum se pôde
inferir baiveza '. Na de 9 de janeiro chega a declarar, que a não o pren-
derem os extremos de affeclo, que devia ao duque, se desterraria volunta-
riamente para tiiuiln longe da pátria. Mas já na terceira datada de 16 de
janeiro, >osto que elle a diz escripta 7)ão pelo António Vieira que foi, mas
pelo qne é, ou o que deixou de ser, renasce a sua energia ; e apparece
(juasi s»m diíferença na de 20 de fevereiro. A dòr, como elle escreve, ia
crescento mais, quanto mais iam esfriando as feridas. Porém a reflexão de
(jue lido era nascido das tramas de perseguidores, a consideração da
imporanoia dos cúmplices, a protecção manifesta de poderosos amigos, e
a lioira, que elle tinha por certo, que lhe faziam os estranhos, o iam conso-
lan* ao mesmo passo. E |)osso aflirniar, quanto ao desgosto, que nesta
«ccasião o em outras declarou da palria, que os seus queixumes não
influiam no affeclo; e que nos encontros, em que d'clla se linha por mais
offendido, nem parece menos disposto para a servir, nem se empregava
cum menos ardor no seu serviço, do que .se a pátria o tratasse sempre
como pedia o seu merecimento.
Uiz André de Barros, que no anno de 1(568 passou de Coimbra para
o noviciado da Cotovia de Lisboa ; e eu conjecturo que foi logo em março,
ou pouco depois ^. Notei já, que a suspensão de pregar foi levantada,
incompletos ainda seis raezes desde a publicação da sentença ; e que Vieira
devia pregar a 21 de junho, em occasião dos annos da rainha D. Maria
Francisca, e por ordem do príncipe regente. O sermão foi composto, e
• Vejam-se especialmente as citadas carta? LI, LIl, LV do vol. 11.
í Sol»e tanto tirsengano do mundo estava e estou resoluto a o tratar como cite me
' III Iratatlo, e não apparecer mais undi- me reja. . . Eu, Senhor, firo sempre aos pés de
r. E. sem disnirso, nemjui:o, c lioje mais rendido que nunca, pnrquf linjr mais obrigado.
Vol. II, cart. I.I.
' forque deiiois do 20 de fevereiro não apparece correspondência de Coimbra
■•nlre Vieira e o duque., ou seu irm.lo, ou D. Rodrigo de Menezes.
anda estampado; mas Vieira, em razão de enfermidade, não o recitou do
púlpito. Não sei se pregou ontro algum no decurso do dito anno; porém
restam cinco, entre os impressos, pregados até fim de jullio de 1(369. A
6 de janeiro pregou extemporaneamente na [iresença do princip? D. Pedro,
em applauso do nascimento da infanta D. Izabel, succedido na luadrugada
do mesmo dia '. Pregou também na (juaresma; e coroou os seiB trabalhos
concionatorios d'cste anno em Portugal com o sermão de Sacto Ignacio
já na egreja de Santo Antão "K O concurso de ouvintes neste ultimo foi
estupendo: e de todos eiles recolheu Vieira créditos, que renovaram os
antigos, e que poderiam apagar a nódoa originada da sentença, n^ conceito
de todos os que não fossem por emulação ou por outros respeitos seus
obstinados inimigos.
Parece todavia, que este apiilanso não foi bastante para conttntar de
todo, na matéria do credito próprio, a delicadeza de Vieira ^. E ou por
este motivo, ou por outros, tomou de accordo com os seus sócios \ reso-
lução de trocar, ao menos por algum tempo, a residência de Lisbòí pela
de Roma.
Bem que Vieira tinha toda a razão de esperar muito da benevolência
do principe regente, e bem que este príncipe, por si e por seus favore-
cidos, lhe não faltou com signaes de sua aííeição, suspeito que Vieira se
não deu por inteiramente pago dos serviços feitos a seus pães e a elld,
mesmo. Talvez requeria Vieira a mesma privaiiça intima, que lograra coní
el-rei I). João IV, e a que o regente, seja por caracter, seja por politica,
não sabia sujeitar-se: talvez desejava no seu negocio, e isto me parece
mais provável, maiores demonstrações em seu favor, e mais cabal satis-
fação; com que o regente, ou por escrúpulo ou pelas razões de estado,
se não resolveu a condescender. Como quer que fosse, ver-se-ha que
Vieira se achava queixoso da nova côrle; e que depois da sua partida o
não esteve menos, como declarou em varias occasiões. Não alega comtudo
André de Barros mais razão da |)aríida, que a da conveniência de mudar
1 o exteiiiporaiuHj ú VIII na pari. XII; os outros quatro são na I pait., V, VI, IX
e XII. A cireumstancia de virem na part. I.niostra a conta, cm (pic os linha o auelor,
que nella coUocou os ipie reputava melhores.
2 Yeja-se André de Barros, 1. III, § CLXXXIV e seg.
' Mostra-se muilo delicado em matérias de credito, escrevendo na carta Lll,
vol. II: Cnm que ressnu o escrúpulo da rnmdoida, posto (pie não o do credito, que rada
hora está mais vivo na minha immortipcaíjão.
73
de estancia pelo respeito do desar, causado pela nota do santo officio;
uem eu, na falta de documeulos, me atrevo a allegar decisivamente outra '.
A partida, qiie não podia ter logar sem consentimento do principe, e
em que de certo conveio o duípie de Cadaval, prelextouse com um nego-
cio do commum da companhia cm Roma; que ou andava traçado d'antes,
ou foi suscitado por esta occasião e para este eíTeito. Residia por parte de
Portugal em Roma João de Roxas de Azevedo, que fora secretario do
principe emquauto infante, e que nas desavenças, com que o governo
d"el-rei D. Affonso se concluiu, se houve com tanta fidelidade, como lirmeza
e intelligencia *. A João de Roxas dirigiu por mãos de Vieira o principe
regente carta datada de 9 de agosto de 1009. Recommenda-lhe nesta
carta, que ajude Vieira em tudo o que se lhe offerecer para os negócios
de sua religião, a que ia mandado por seus prelados; e que o ajude de
maneira, que se veja, na confiança com que o tratar e conminnicar (iiial
é a cslimação, que elle princi[)C regente faz de sua pessoa ^. Sem endiargo
de termos tão honrados, ficou Vieira descontente; do qiic se pôde inferir
sem violência, (jue requeria Vieira, e ao menos esperava muito mais.
Era lo de ago.<to de 16(5!) partiu António Vieira para Roma, onde
chegou a 21 de novembro do mesmo anno. A viagem foi demorada, por-
que tomou Alicante, e arribou com grande temporal a Marselha; mas a
demora foi o maior incommodo. Em Roma foi recebido pelos jesuítas com
mostras pouco ordinárias de distincção, que o obrigaram a reflectir com
dòr para as esquivanças e desabrimentos de Portugal. Vieram esperá-lo a
duas milhas da cidade, e como em tiiumidio foi levado ao geral, em quem
as demonstrações de alTecto não foram menores. Ia encarregado pelo
duque de Cadaval, então viuvo, de lhe prociUMr casamento em llalia;
intendendo-se neste negocio com uma senhora de muito alta qualidade,
que era do parentesco do dnque, e que acceitou a commissão com grande
zelo. Chegou Vieira no dia 21, a 22 foi logo visitar a senhoia, com quem
lhe cumpria tratar este negocio, e no mesmo dia escreveu ao duque. Este
rasgo de gratidão lhe faz certamente grande honra. Não ia contente do
• Veja-se Barros ibid., § CLXXXIX.
* Veja-se o Portiit/nl Rist. I. Xlí. e Hist. Cm., tom. VII, i)ag. 433. Por se escusar
António Cavide, foi eleito para secretario do infante Jo.5o de Hoxas, então dí^semiiar-
gador dos aggravos, merecedor de todos as ijraiides rmpregnx.
' Veja-se esta carta em Barros (ibid., § CXC), (jiie a diz copiada do original, (pie
linlia em seu puder.
74
reino; mas nem o desgosto, nem os enfados de larga jornada, nem os
alvoroços, com que foi recebido, abafaram o agradecimento, de que se
considerava, e justamente, devedor ao duque. A promptidão de o mostrar
não é a menor parte da bizarria : podendo dizer-se sem exaggeração, que
os primeiros passos, que deu em Roma, e a primeira vez, que tomou a
penna, foi em desempenho primoroso da sagrada divida do reconheci-
mento *.
A D. Rodrigo de Menezes escreveu também com data de 27 de novem-
bro, e a D. Theodosio, irmão do duque de Cadaval, a 16 do mez seguinte:
sendo muito de reparar, que satisfizesse primeiro ás dividas de agradeci-
mento e de amizade, que às observaucias do respeito e a cortejos, em que
pudera ir interessada a própria conveniência *. A carta, que escreveu à
rainha da Grã-Bretanha, foi escripta depois de todas estas; e tem a data
de 21 de dezembro de 16C9. Vieira tinha intentado fazer viagem por In-
glaterra, com o fim, provavelmente, de empenhar em seu favor o coração
d'esta princeza, cuja intercessão lhe podia ser em Roma de grande pro-
veito. Mas como até a derrota dependeu do arbitrio do regente de Portu-
gal, recusou este o seu consentimento áquelle ponto de fazer caminho por
Inglaterra ; e recusou-o, no conceito de Vieira, por isso mesmo que intendia,
que o viajante desejava servir-se da occasião para ir munido de um pode-
roso valimento. A [)ondera(;ão ;iniarga deste desfavor do príncipe D. Pedro
é a principal matéria da carta para a rainha : e não pude negar o leitor
alguma compaixão aos lamentos, em que com grande vehemencia são os
seus serviços aos reis e ao reino conh-untados com tal e.Ntremo, como elle
o reputava, de sequidão, usado por connivencia com interesses ou com
paixões alheias ^
Por esta carta se vè, que António Vieira queria reparar em Roma as
' Tudo isto consta das cartas LX do vol. II e XXXIl do III.
' A carta a D. Rodrigo de Menezes (XXXII do vol. III) tem a data de 7 de dezem-
bro, mas comparando-a com a do D. Theodosio LXI do vol. II e a outra a D. Rodrigo
de Menezes LIX do mesmo volume, concluo, que a data da XXXII do vol. Ill deve ser
a que aponto acima, e que 7 de dezembro pertence antes á LIX do vol. II. Esta ultima
c ccitamente errada, pois c de Roma cm 1665.
' E só porque os N. N. N. não magiiumem, qur S. .1. ]iiir eslr rodeio consentia
no fim da jornada, me não concedeu, que passasse uma vez por amor de mm aquelle
mesmo canal de Inglaterra, cm qnc sete rezes me ri perdido pela conserrnrão da sua
coroa. Yol. II, cart. LXII.
indignidades, que havia padecido em Coinilira : e que julgando que as pa-
decera por causa do mesmo regente, e por ser inventor e arbitrisla da
companhia do commercio do Brazil, se imaginava com direito a conseguir
d'elle, como infante D. Pedro e como governador do reino, o favor da sua
protecção real nas pretensões, que intentava na Guria. Mas se elle padeceu
as indignidades de Coimhra por causa do infante, é preciso concluir que
procederam muilo, como suspeitamos, de impulso da antiga còrle: e se o
invento e arbítrio da companhia do commercio foi outro principio do seu
trabalho, é provável illação, que o qne uaquelle caso lidou Vieira por con-
tentar os christãos novos, foi mal olhado pelo santo olficio, e ijue o tribunal,
processando-o em 1007, se recordou deste antigo aggravo. Tal |)arece ser
a opinião de Vieira ; o qual tirava deste supposto, qne o regente, levado
de sua politica, guardava com o sanlo oílicio contemplações, a que sujei-
tava o que a Vieira era devido; e qne por isso não só lhe recusara mais
amplas e favoráveis ordens para o embaixador, mas até chegara a lhe im-
pedir a occasião de tomar e levar por escudo a efficaz valia de sua irmã,
a rainha da Grã-Bretanha '.
Não são na caria de 27 de novembro menos lastimosas as queixas
acerca do príncipe regente, conimunicadas a D. Rodrigo de Menezes; antes
o silencio, que affecla sobre os termos das reaes recommendações ao em-
baixador e protector, as torna ainda mais sentidas*. Eslava muito morti-
ficada a vaidade de Vieira; o seu interesse lhe parecia muito desprezado:
e uma e outra cousa o tinham iasoíTrido, e o arrojaram ás declarações,
escriptas á rainha de Inglaterra, de que elle mesmo conhece o pouco decoro,
e ás outras, escriptas a D. Rodrigo de Menezes, que só na consummada
discreção de um provado amigo puderam deixar de ser arriscadas. A dôr
o fez esquecer dos conselhos e máximas bem sisudas, que ainda em 22
de março daquelle anuo tinha pregado no sermão dos pretendentes: e
este delíquio pasmoso da memoria tenacissima de Vieira provaria plena-
> Não ha que duvidar de (jue os príncipes podem ser, e são algumas vezes ingratos
e injustos: mas também é certo, tpie tia casos em que os necessita a razão de Estado
a acções ou omissões, a que o interesse e vaidade dos pretendentes uão quer ou não
sabe dar desconto: e uão .sei se era este o caso, cm que a<iui se achava Vieira.
* Xos IcrinoA das inrtax^ qw tvou.xi' paru o cmhíiixdilor f iirolcrtur, não falto jida
rererenciít, que devo á /iniin de sim allezu, que Deus ijuardc, e porque temo, que a dòr
de cliaya Ião fremt, me obrigue n alguma voz, de que se ofjenda o meu amor. Vol. 111,
c. XXXII,
mente, se fosse necessário, a incoherencia entre as máximas e praticas do
homem, quando ou propõe friamente como consellieiro, ou tem de praticar
o que aconselhou a outros nas varias Decorrências da sua mesma vida.
Esta incoherencia é na verdade ordinária, e por isso bem conhecida; mas
é para notar niuilo nos homens mais dislinctos, porque parecendo nelles
mais estranha, leva com maior efficacia os observadores ao desengano
próprio, e á cautella sobre si, que deve provir de tal desengano.
Não se doía Vieira somente da protecção negada pelo príncipe regente
aos seus negócios, e até impedida por outros caminhos, mas de se lhe não
dar parte nas incumbências da corte de Portugal em Roma. Considerava
a confiança e aucloridade, com que n enviara ei-rei D. João IV, e notava
com desgosto a diíierença da sua condição actual *. Escreveu ao príncipe
regente; mas não o contentou mais a resposta. Representou, rogou por
meio de D. Rodrigo de Menezes; e no estudado silencio deste fidalgo teve
o desengano de nenhuma efficacia das suas representações. D. Rodrigo de
Menezes não faltava em coisa alguma com os ofíicios, que pedia a razão
de constante amigo; porém não liie podendo tornar resposta, que o satis-
fizesse, resolveu declarar-se por silencio, de que a penetração de Vieira
alcançou logo o sentido. Outras vezes o assegurava nmilo positivamente
D. Rodrigo da graça e estimação de S. Alteza: faltando com tudo corres-
pondência entre os aff^ectos inculcados e os favores elfectivos, que Vieira
pedia, olhava para protestos meramente verbaes, como para ca[)ciosa lin-
guagem, com que as cortes usam dissimular o desfavor, illudindo as espe-
ranças dos pretendentes '^.
Adoçava Itália estes dissabores de António Vieira, não só pela contem-
plação das pessoas mais grave.', da companhia e de fora, mas lambem pela
dos príncipes em Roma e nos outros Estados. O príncipe herdeiro do
grão-ducado da Toscana, que conhecera em Ilollanda e tratara em Lisboa,
achava-se em Marselha, quando alli arribou Vieira. Não faltou este em ir
cumprimentar o príncipe, e entre ambos se enlaçou por esta occasião cor-
respondência, que o príncipe cultivou depois com assiduidade, escrevendo-
' Veja-se a mesma carta.
2 Isto tudo se extrahiu das cartas, esi'iii)tas em 1670. se. no vol. I, 82-84, no II,
63-68j no III, '37--ií3. Do animo de S. A., que K. S. ttinto me assegwn, nunca duvidei. . .
S. A. resolveu melhor, do que eu soube ■pedir; porque se o que peco ê justo, ficará mais
justificado sem a protecção do seu real favor: e se o não é, fica menos arriscada a in-
terposição da sua auctoridade. C. XXXV do vol. III. Compare-se a c. LXX do vol. II.
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lhe de sua mão em quasi lodos os correios. O regeule de Portugal linlia
uma filha nascida de pouco; olhava-se já, uão sei por que razão, como
princeza herdeira, e se ao príncipe da Toscana parecia bem entrar a sua
casa por este moio na posse da coroa d'este reino, Vieira do seu lado jul-
gava, que se o porlo de Lisboa se ajuntasse e unisse com o de Leorne, seria
o nwllior casaincnlo do mar e da lerra K Pondo agora de parle o jaizo sobre
esta opiuião, é certo que o desejo de tão vantajosa alliança obrigou o
priucipe de Toscana, em principe e depois de grão-duqiie, a tratar Vieira
com attcnções particulares, como suppondo, que se poderá concluir por
sua via a desejada união: e Vieira voltando a Portugal, com effeito des-
empenhou a esperança do grão-duquo, quanto a propor nos melhores
termos a sua pretensão; porém a vontade da rainha D. Maria Francisca,
que tinha grande pre[)onderancia, pendia para Sabóia: e por fim o tempo
trouxe acontecimentos, com que todos estes projectos se desvaneceram;
porque nem a união com Sabóia se realisou, nem a princeza chegou a ser
herdeira, havendo em segundas núpcias o principe D. Pedro posteridade
masculina, que segurou a successão em príncipes naturaes, por eulão com
grande firmeza -.
As altençijes, que experimentou em Roma, na maior parte procederam
do conhecimento, ou da noticia dos seus talentos raros, e em especial do
credito grangeado no ministério do púlpito. A fama, que o tinha precedido,
publicava o agigantado conceito, que por esta via adijuirira em Purtugal:
e os portugueses, que alli viviam, deram-se pressa a [iroporcionar occasião,
em que satisfizessem a própria curiosidade, e acreditassem o engenho dos
seus compatriotas. Vieira não houve mister muito rogado. Pregou aos
portugueses de Roma com o mesmo successo que aos de Lisboa ; e ainda
melhor merecido. Ccmo os vicios oratórios, taxados nos seus sermões, não
eram tanto seus, como alheios, dominavam mais ou menos, segundo o
gosto dos ouvintes. D'aqui nascia, reputo eu, que em geral os sermões,
que pregou em Roma, se não eram de todo isentos, eram sempre mais
depurados do que os outros '. Os louvores da nação portugueza, que soavam
' Veja-se Barros, I. IV, §§ V-VII. Mas tirou-o, e alguma vez por formaes palavras,
da relarjão oITerccida por Vieira ao priucipe D. l^edro, que vem no vol. Ill depois da
c. XLV, escripla ao grão-dut|ue, e da resposta do ultimo.
* Veja-se a relação citada na nota antecedente.
' O sermão de S. Bartholomeu, I2.° do vol. II, o da Paz em geral, 7." do vol. VII,
o 10." do vol. VII. são muito estimáveis, ao menos em graúdo parte.
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mellior na terra estranha, e a que Vieira nas occasiões não sabia faltar,
ainda lhes accrescentavam a formosura no parecer do auditório. Accendeu-se
neste o entliusiasmo, doljrou os concursos, rompeu em appiausos, cujo
estrondo chegou aos ouvidos dos italianos, e os moveu a vivo desejo de
escutarem tão appiaudido orador.
No volume duodécimo dos sermões estampados é um d"elles o sermão
de santo António, que alli se diz segunda parte de outro pregado também
em Roma em IC70. E se o de 1070 confirma plenamente o que disse dos
louvores de Portugal, com que Vieira augmentava o preço dos sermões,
pregados aos naturaes, o do volume duodécimo o desmente em egual ou
maior grau. É na verdade uma invectiva virulenta contra a nação, um
sarcasmo continuado; em que o rancor nem dá logar ás facécias, para que
Vieira tinha talento decidido. Quem o lè com antecedente conhecimento da
vida de Vieira, não pôde deixar de concluir, que alli se propoz tomar in-
teiro desaggravo das indignidades de Coimbra, das perseguições dos emulos
de Lisboa, das tibiezas ou indilferenças da sua corte. Elle mesmo diz logo
no principio: Hoje faz um anno preguei aos poiíngtiêses as luzes da sua
dação; agora lhes descobrirei a elles e a lodos as sombras d' essas mesmas
luzes. Porém este sermão não chegou a ser pregado; e ainda que doença
se diz ser a causa, por que o não foi, eu me inclino mais a suppôr politica,
ou antes arrependimenio. O auclor tinha sem duvida a respeito da sua pátria
os affectos de um amante ; e as maiores estranhezas, em que pôde romper
um amante, ou de maltratado ou de zeloso, em vez de chegarem a ser
aggravos, ficam em argumentos da intensidade da sua paixão*.
Desejavam vivamente os italianos ouvir, como iamos dizendo, orador
tão admirado. Mas oppunha um grande obstáculo a differença das duas
linguas. Não ignorava Vieira, que a perfeição, com que elle se declarava
na própria, lhe lucrava grande parte dos appiausos; nem podia desco-
nhecer, que por mais senhor que estivesse do idioma italiano, pareceria
sempre baibaro á delicadeza dos ouvidos romanos. Quando a memoria,
certamente muito piompta e Del, lhe facilitasse a cópia, propriedade e
' O que pregou em 1670 é o S." no vol. II: o que devia pregar em 1671 é o 11."
no vol. XII. Com eITeito a bilis lhe afogou a facécia: o num. 318 é que me parece
menos mal humorado e mais engenhoso. Da c. XCIV do vol. I, se infere bem, (jue não
foi doença a causa de se não pregar este sermão. — No que respeita à sua paixão por
Portugal, veja-se a c. XXXVI do vol. III, onde allega com o sermão de santo António,
pregado em 1670.
79
viveza, por que tanlo se distinguia na sua liugua, conao poderia pouco uso
e em anãos crescidos, dar-ilic naturalidade e graça de pronuncia na es-
tranha '? Tentar pois similhante euipreza, seria o mesmo que com menos
meios c maiores impedimentos accommetter conilicto, em que iiie ia mais
empenliada a lioura. Temeridade clianiava eile, e justamente, á lembrança
de aílrontar tamanho risco; e temeridade a que, pelo muito que tinha de
arrogância, caberia maior e mais bem empregada confusão. Ingenuamente
aliegou estas valentes escusas contra varias tentativas, com que o provo-
caram os curiosos. Porém nem por isso desistiram ; e valendo-se de todos
os meios, o geral da sociedade o determinou Gnalmente, por obediência,
a expôr-se, segundo os termos, com que Vieira se recusava, a desiionrur-se
a si próprio, e a deshourar a companhia -.
Não eram os jesuitas tão desprezadores da honra da companhia, que
se resolvessem a aventural-a a risco, ainda meramente provável: ao con-
trario, a houra de toda a sociedade era o seu dominante afifecto e propó-
sito continuo; donde nasciam aquella harmonia admirável em concorrer ao
mesmo fim, e concórdia não menos admirável entre os particulares, de
que o todo era composto. Quando neste ponto tivessem, do que não sei
que haja suíliciente argumento, algum descuido, não seria em Roma e
perante as maiores pessoas d'ella, e acerca de sujeito, que deseja\am
mostrar benemérito das graças assignaladas do soberano Pontífice ^ Por
outro lado, na casa dos jesuitas, em que vivia Vieira, não podiam faltar
homens intendidos, que avaliassem ao justo o perigo, comparando as difli-
culdades cora a capacidade do seu sócio. O geral João Paulo Oliva era
particularmente uui homem douto para o seu tempo, avisado e havido pelo
melhor pregador, que tinha então Itália; e por todas estas razões se deve
• Se y. E. ouvir dizer, que o padre Vieira préyou cm Roma em língua italiana, não
condemne V. E. u temeridnde, porque elte a teve por tal. C. CXVIII, vol. I. E sem em-
bargo dos defeitos de pronuncia, de que nelle me desculpo, ele. C. LXXIII, do vol. II.
* Resistiu sempre, não só aos empenhos de grandes senhores desta corte, mas ao de-
sejo e instancias do seu geral, o qual por ultima resolução, lhe poz obediência para que
pregasse, respondendo a todas as suas objecções : que lhe mandava, que se deshonrasse a
si, o deshonrasse a elle, e deshonrasse a companhia: e assim o fiz. C. CXVIII do vol. I, e
O mesmo na c LXXIll do vol. II.
' Eu suspeito que Vieira se propunha obter do papa revogação da sentença de
Coimbra, e ucsla pretensão ia interessada ceitamente toda a sociedade. E quando
esta suspeita não tenha logar, sempre é fora de duvida, que desejava do Papa algum
distim-to favor em tal matéria.
80
repnlar juiz competente naquelle caso. Era alfeiçoado a Vieira; mas nem
é de suppôr, que o ciiegasse a cegar a afleição de lodo, nem é de suppôr,
que enganosamente o preoccupasse acerca do merecimento de Vieira uma
afifeição, que no dito merecimento tiniia inteii'amonte origem. Vieira não
parecia jjenemerito a Oliva, porque este se llie inclinava; inclinava-se-lhe
muito Oliva, porque o reputava egualmente benemérito.
Estas considerações tiram toda a duvida sobre o conceito, que na com-
panhia de Roma tinlia Vieira, e também a tirariam, se fosse necessário,
sobre os extraordinários talentos de Vieira, que determinavam juizes tão
competentes e tão precatados a expòl-o a uma prova, que em quaesquer
outras circumstancias seria muito temerária. Sahiu da prova, como os seus
sócios tinham esperado. O primeiro sermão em italiano foi o das chagas de
S. Francisco, ouvido com tanta satisfação, que a instancias de cardeaes o
encarregou logo Oliva de outros dois na mesma lingua *. E se Oliva no pri-
meiro caso se tinha aventurado um pouco, porque bom juizo depende de
perfeito conhecimento, e perfeito conhecimento só o costuma dar judiciosa
experiência, não foi assim no caso segundo. Presenciara as approvações do
auditório, e ouvira o sermão, que as tinha merecido. Os defeitos de pro-
nuncia eram infalliveis, os de linguagem são muito para suspeitar. Dos
primeiros attesta o mesmo Vieira, e a sua atteslação não era necessária ;
dos outros [lòde lãzer-se juizo pelo que elle diz em alguma parte, que
estudava então, e ainda depois, os rudimentos da lingua italiana ^. Com
tudo é forçoso concluir, que elles não foram tão enormes, que chegassem
a desfigurar toi'pemenle a substancia, e que a substancia tinha tal preço
no juizo do auditório, que lli'o não tirava a impropriedade dos accidentes.
O juizo d'aquelle auditório não é agora o nosso; mas era de esperar que
fosse o do seu tempo, e não o d'este ; e na felicidade rara do engenho de
Vieira somos nós sempre obrigados a convir com aqiiellcs romanos.
Pregou os dois sermíjes, de que depois do das chagas de S. Francisco
í Foi tão bem recebido dos cardeaes e grandes d'esta corte, que o mesmo padre geral
me tem avisado para pregar em dois congressos, em que assiste jiinlo todo o sacro col-
legio, a instancias das mesmas eminências. C. LXXIII do vol. II.
* Sei a lingua do Maranhão e a portuguesa, e é grande desgraça, que podendo servir
com qualquer d'ellas á minha pátria e ao meu principe, haja nesta edade de estudar uma
lingua estrangeirq, para servir, e sem fructo, a gostos também estrangeiros. Ibid. Esta
earta é datada do outubro de 1682, e em alguma de data posterior falia, se bem me
lembro, de estudar' rudimentos de italiano.
o encarregou Oliva, e pregou alguns mais, lambem em italiano; e todos
com assistência de uniilos cardeaes e outras pessoas notáveis, com grande
coucin-so do povo e com o a|iplauso, que é de siii)pòr do empenlio, com
que continuavam a ouvil-o *. Aquellas agudezas, aquellas empresas ines-
peradas, ai]uelias provas claras e ao parecer convincentes das affirmativas
mais singulares, aquelles textos obrigados com tão destra verosimilhança
a servir ás singularidades do orador, eram as delicias do século, e attes-
tavam na verdade pouco vulgar engenho. Itália linha o gosto ura pouco
menos corrupto, mas sempre corrupto; e não ha duvida que delia se de-
rivou para os outros paizes, onde porém fez maior progresso, a degene-
ração da eloquência e [)oesia. A circumstancia de Vieira pregar em italiano
com tão pouco tempo de residir em Itália e em edade tão imprópria para
bem tomar uma lingua estranha, augmenlava a admiração em um século,
em que a victoria das dillicuklades era a única, ou quasi a única medida
do talento. Pei'doavam-se-lhe os erros de linguagem, os defeitos de pro-
nuncia ; ou antes se lhe levavam em conta, como testimunhos da difficul-
dade vencida. Erafim os elogios, que Vieira graiigeou, pregando em lingua
alheia, não parecem menores, que os que grangeava pregando na própria:
coisa pasmosa para quem hoje julga, como nós julgamos, que consistia na
formosura da lingua portuguesa o principal merecimento dos seus sermões.
Entre os ouvintes de António Vieira em Itália não deve, nem pôde
esquecer a celehie rainha da Suécia. Vivia em Roma por aquelle tempo
Chrislina Alexandra, lilha do grande Gustavo, quasi tão famosa pela sin-
gularidade de sua vida e denodo de suas resoluções, como seu pai por
iliustrcs victorias. Esta senhora, depois de tomar posse da coroa, que lhe
coube por herança, delerminon-se a largal-a; preferindo ao seu esplendor
o descanço de uma vida particular e as doçuras da liberdade, que mal se
podem lograr de companhia com o apparaloso captiveiro da realeza. Tem
sido variamente estimada uma acção tão extraordinária. Os seus affeiçoados
levam às nuvens o discreto desengano, o acerto raro, o animo varonil, e mais
que varonil, da sua determinação; referindo-a a perfeito conhecimento da
vaidade, ou da falsidade das grandezas, e a um espirito não menos va-
lente, que penetrante, que assim sabia executar, como compreheuder o
preço de insignes acções. Os poucos affectos ou os praguerdos imaginam-lhe
motivos menos nobres, taxam a abdicação de extravagância, attribuem-lhe
* Falia dos grandes concursos André de Barros, 1. IV, § XXXIV.
82
arrependimento, que a ser verdadeiro, provaria pouco airosa inconstância,
e deslustraria a gentileza, que a todos á primeira vista representa o des-
prezo de ura throno; e onde os apaixonados louvam a sabedoria e flrmeza
de uma heroina, elles não achara mais que desacerto e leviandade de uma
dona caprichosa *.
Ao desprezo do throno ajuntou a i-aiiiha Christina mudança de religião,
trocando pelo catholicismo a crenga, em que tinha sido educada. E já se
vê, que este passo importantíssimo devia ler admiradores e pregoeiros, e
também ardentes detractores. Para os catliolicos, que perspicácia em re-
conhecer a verdade por entre as sombras da preoccupação ! que valor em
romper cadeias, que enleavam o intendimento, ainda antes d'elle ter usol
que sacrifício generoso de hábitos, commodos, opinião em larga parte da
Europa à pureza da fé e integiidade da moral da igreja romana 1 Para os
sectários de Suécia, que cegueira em deixar Jerusalém por Babylonia! que
fraqueza em ceder aos paralogismos da superstição ! que irreverência dos
estatutos dos Maiores, e desacato contra a religião e piedade da própria
igreja! As causas de ambas as resoluções, as obras da vida posterior deviam
ser pela mesma razão assignadas e referidas cora egual variedade, e antes
contrariedade; e com eífeito, sublime sabedoria cora loucura imprudente,
graves e pios procedimentos com leviandades e nódoas na decência do sexo
e no decoro da jerarquia, correspondem-se exactamente no modo de avaliar
e de contar dos dois partidos. E Christina ó uma das personagens de fama
mais duvidosa, que apparece na historia moderna ; e precisamente está a
origem da duvida em duas resoluções, que se a prudência as dictasse, e
as confirmasse constância e coherencia, a tornariam digna do maior res-
peito e mesmo admiração da posteridade ^.
A primeira coisa, que lembra neste conflicto de opiniões ao observador
agora frio pelo tempo e desinteresse, é rejeitar todas ellas. Mas onde fun-
dará juizo? Parece pois mais acertado conl'ronlal-as, rebalèl-as umas com
outras, e tirar o resultado provável; que se bem descontentaria egualmente
ambos os partidos, será o mais chegado á verdade, e o menos desappro-
1 A paixão não sabe pintar, senão ou anjos de luz, ou anjos de trevas: notar
manclias na fonnosiu'a, ou relevar na fealdade alguma feição mais feliz, só pertence
á imparcialidade.
* O amor do poder subjugado, as preoccupações sacrificadas á verdade sã, na
ordem moral, os dois tropheus mais honrados do homem; e na verdade não são menos
raros, do que honrados nas circumstaucias, que se representam no texto.
83
vado pelús judiciosos. Não pode negar-se que a rainha de Suécia se não
deixou deslumbrar com o briilio de uma coroa, e que é coisa rara este
desprezo do throno, de que, ainda p(?r extravagância, se não apontara
muitos exemplos. Que os inconvenientes, que se lho seguiram, lhe cau-
sassem arrependimento,, não sò o tenho por possivel, mas até por muito
provável : porém se este arrependimento pôde desfazer na primeira reso-
lução, não é com tudo muito estranho, porque é próprio e quasi necessário
á fraqueza humana, parecer-lhe a condição presente sempre inferior á que
tem passado, ou á que imagina de futuro. Na sua mudança para o catho-
licismo julgo que não houve falta de exame e de attenção às razões por
uma e outra parte ; e ainda quando houvesse erro, sujeitar, feitas as pru-
dentes diligencias, hábitos e preoccupações ao que se tem por verdade, é
sempre louvável e nunca muito vulgar. Fraquezas do sexo ou da humani-
dade são incoherentes com a sincera profissão do evangelho, qual é a da
igreja romana; mas nada tem com a discreção de a preferir: e se houvés-
semos de leprovar quem se mostra incoherente entre a profissão e a prá-
tica, quem approvariamos ou na igreja romana, ou nas seitas, que a dei-
xaram? Intendo pois que se Chrislina abdicasse sem arrependimento, e
se convertesse sem posterior incohereucia de suas obras com a moral pro-
fessada, seria mulher uiiica; e que mesmo, com certo arrependimento da
abdicação e certa incohereucia de obras, poucos têm sido os morlaes, que
lhe sejam similhanles.
Os gahos, que recebia Vieira pelas suas pregações era itahano, che-
garam ao conhecimento d'esta princeza, que desejou logo julgar por si
mesma. Receava-se Vieira muito do juizo de uma personagem, cujo extra-
ordinário e sublime génio, diz elle, se satisfaz mal, ainda do que não é ordi-
nário. Porém a ordem dos seus prelados venceu a repugnância; e em
carta para o marquez de, Gouveia lhe communica, que por 15 ou 18 de
março de 1073 devia pregar á rainha da Suécia*. Cuido que este sermão
loi o primeiro; e certamente que nada tem com os cinco discursos intitu-
lados: As cinco pedras de David, pregados em 1674. Nas terças feiras da
quaresma do dito anno os pregou elle na igreja de S. Salvador in Lauro;
Ilide no coro assistiam a S. Magestade muitos dos senhores cardeaes, e na
/reja o mais illustre e escolhido d'aquelle thealro do mundo. Da approvação
falia Vieira em termos modestos; porém transluz pelo véo da modéstia a
Veja-se a carta CXXX do vol, I,
84
satisfação própria, envolvida era agradecida admiração da pacimcia e huma-
nidade grande, com que faltando cm língua estrangeira e mal limada, foram
perdoados os seus erros, e ouvidos seus discursos, mais largos do que os per-
millia o costume ^
Do gosto da mesma rainha para as discussões engenhosas procedeu
também o papel intitulado: Lagrimas de Heraclito. Entre os divertimentos,
não indignos na verdade de uma princeza, (jue havia no palácio romano
de Christina, era um d"elles a cultura da philosopíiia e das lettras em socie-
dade ou academia, que se compunha de cardeaes e outras pessoas de avan-
tajado talento e de conhecidas luzes. Succedeu propôr-se nesta academia
o problema : Se linha mais ou menos razão llradito para chorar, do que
Demócrito para se rir d'este mundo. Foram escolhidos para coiileiídores dos
dois lados Jeronymo Galaneo e António Vieira, um e oulro jesuitas. Cedeu
Vieira ao seu concorrente o arbitrio da escolha, e Cataneo deixou-ihe por
assumpto as lagrimas de Heraclito. A defesa deste assumpto é que se
contém no papel, de que falíamos. André de Barros o tem por muito su-
perior á defesa de Demócrito. Não podemos nós fazer comparação, porque
não possuímos ambas as obras; mas se naquelle tempo a de Vieira me-
receu applausos, hoje teria, se o auctor a compozesse hoje, fortuna muito
contraria. Neste escripto apparece sempre alguma faisca, que não desdiz
do seu engenho; mas parece-me ao todo papel de pouco preçu, ainda dados
os descontos, que são devidos áquella edade e á occasião; e se faço menção
d'elle, é tão somente por sor pontual, e por dar a vér a imparcial dili-
gencia, com que procedo nesta relação '^.
Quiz a rainha em attenção aos talentos, que lhe reconlieceu para a
oratória christã, nomeal-o seu pregador; porém Vieira declinou o titulo,
sem se negar ao occasional exercício. O motivo, por que declinou o titulo,
parece ser o reparo politico, que temeu da corte de Lisboa. Poderá, ao
menos, pedir espaço e usar com a sua corte a contemplação de a fazer
sabedora, e de se sujeitar em tal matéria ao seu arbitrio; mas ou porque
julgou que isto mesmo seria reparavel, ou porque quiz andar ainda mais
"T- -i-' As cinco pedras de. David, traduzulas pelo mesmo auctor em castelliano, o foram
também em português pelo conde da Ericeira D. Francisco Xavier do Menezes; e esta
traducção portuguesa vem no tom. XIV dos sermões cora uma prévia iutroducção, que
é a mesma que o auctor poz em frente da versão castelliana.
* Este papel, vertido em português pelo mesmo conde da Ericeira, vem no dito
tom. XIV, e é precedido de uma noticia histórica, composta pelo traductor.
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fino cora o seu príncipe ; é cerlo que nem tratou de fazer uso d'este meio.
A leraerid;u1o ooni luJo oii a emulação, disto mesmo lhe fez culpa ; e foi
murmurailo em Lisí)i)a de acceitar lilulo em serviço de principe estran-
geiro, faitaiiilo ás attcnções com o próprio. A culpa não foi muito formal,
e até não posso allirinar se foi levada á presença do regente : mas Vieira
sempre iiiteudcu, que era necessário defender-se a um dos seus corres-
pondentes, iuteressaiido-o para que as suas desculpas fossem divulgadas;
com o intento, que da cai'ta é manifesto, ou de antecipar ou de remediar
algum desgosto, que podesso nascer da calumniosa imputação*.
Os sermões á rainha da Suécia, e muitos outros em italiano e em por-
tuguês, foram compostos e pronunciados por Vieira entre moléstias graves
e mnito repetidas. Amargamente se queixava ' elle, quando residia em
Coimbra, do pouco favor, ou da muita injuria, que recebia do clima
d'aqiiella cidade; mas não se queixava depois menos do de Roma, que
certamente o não tratou melhor. Passou em cama a maior parte do tempo,
e viveu sempre á discreção dos médicos e em uso de remédios. Aos effeilos
do clima accresceu um temeroso desastre, que lhe podéra ser fatal. Descia
de noite uma escada de pedra ; e ou por descuido, ou por embaraço, caiu
por ella de rosto, com lodo o peso do corpo e dos aíinos. Ficou ferido na
cabeça e maltratado de uma perna por tal modo, que em braços foi reco-
lhido ao seu aposento, donde não sahiu, senão ajndando-se de muletas,
passados dezesete dias. Sem embargo de trabalho, doenças, desastres,
ainda entretinha correspondências epistolares, tratava negócios e visitava
as antiguidades romanas, que sabia apreciar e preferir *. E verdadeira-
mente é magua, que a sorte de visitar os monumentos antigos de Roma
lhe não coubesse em melhores disposições do seu século e suas : nas quaes
podéra tão privilegiado intendimento e memoria accumular amena eru-
dição, enriquecer-se de solida philosophia, e imbuir-se de puro gosto, que
aquelles insignes monumentos recordam, e de que a seu modo ainda hoje
dão liçijes.
Procurou por conselho dos médicos o beneficio dos ares de Albano,
> Folgarei que lá se saiba, que posto quf fiz todas as prégarõcs, não arceitei o titulo,
nem provisão, etc. Vol. 1, c. CXL ao marquez de Gouveia, lâ de abril de 1674.
N. B. No memorial ao principe D. Pedio diz que tem noticia de que S. A. não
ouvira com muito agrado liavel-o feito a rainha da Suécia seu pregador.
* Mais ijoslo de vér cm Roma as ruinas e desenganos do que foi, que a vaidade e
variedade do que é. G. LXXXV, vol. I.
Villa, em outro tempo, do grande Pompeu, procurou o de ares marítimos ;
mas continuou a rebeldia de suas enfermidades, e por fim convenceu-se
de que em vão esperava remédio na residência de Itália. Intentava Vieira,
se me não engana a minha conjectura, alcançar em Roma revogação da
sentença, contra elle proferida na Inquisição de Coimbra; e para isto
desejava levar apertadas recommendações do regente para os seus ministros
na Guria, e ser favorecido pela protecção da rainha de Inglaterra. Recu-
sou-se, como vimos, o regente, e até lhe atalhou o recurso á protecção de
sua irmã. Esta princeza de mais d'isso ao ler o sermão dos annos da rainha
D. Maria Francisca, houve por menos attendido o respeito d'el-rei D. Afifonso ;
d'onde passou a olhar Vieira, como um dos instrumentos, que haviam
effeituado a sua deposição *. Viu-se por tanto desassistido, até da esperança
de valias tão poderosas; e resignado com a presente fortuna, desceu de
Ião alta pretensão, limitando-se a pedir para o futuro isenção da auctori-
dade do santo oíTicio de Portugal, que ultimamente lhe concedeu, em ter-
mos de grande recommcndação e honra, o papa Clemente X, já no anno
de 1675 2.
Com a necessidade de reparar a saúde longe de Roma, e com o remate
do seu principal negocio, ficou Vieira, não só desimpedido, mas como obri-
gado a voltar para este reino. Este era certamente o seu desejo. Ignoramos
a causa e os mais particulares da proposta, que por parte do príncipe
regente se lhe fez de voltar, já desde 1G7I. Mas não ha duvida que se
lhe fez ^. "Vieira respondeu recordando as ingratidões de Portugal; incul-
cando as estimações de Roma, o seu desprezo do mundo, e a paz, em (|ue
vivia com jesuitas estrangeiros; concluía porém sempre com os protestos
mais decididos de querer servir a pátria e o príncipe, e de obedecer ao
mais leve aceno d"este ultimo. Que Poi'lugai o tinha tratado com dureza,
é certo; que era em Roma muito estimado, também o é; que vivia em paz
com os jesuitas romanos, é bem de crer: mas se Vieira sinceramente
aífirmava de si soberano desprezo do mundo, parece-me que se enganava.
' Yejam-se as cartas LXVII c LXXIII do vol. II.
* Barros (1. V §§ CCLXIII e seg.) traz copiados os principaos fragmentos do breve
de Clemente X. Em outro logar (1. IV | LXXXIII) refere um dito do mesmo papa
acerca de Vieira, que mostra penetração : Demos graças a Deus por fazer este homem
catholieo romano; porque se o não fosse, poderia dar muito ciiuJado á sua Igreja.
3 Vejam-se as cartas LXXII e LXXIII do vol. II e XXXVIII, XLIII do III. Alguma
desconfiança me resta porém das suas datas, e por isso hesito entre 1671 e 72.
87
O coração Imniano é um abysmo, ou um labyrintlio. muitas vezes desco-
nhecido d"aquellL's mesmos que o possuem. De nós allirmamos, imagiua-
mos em niuilos casos o que está louge de ser como cuidamos: e o mais é,
que isto uão só uos acontece por engano da falsa confiança ou da vã glo-
ria, mas também, posto que mais raramente, por erro de falsa desconfiança,
ou supposição muito rasteira. E é verdade, que a correspondência de
Vieira no mesmo tempo desdizia daquellas aíDrmações: porque se bem
não argue um liouiein muito enlevado no mundo e desvelado com suas
esperanças, não argue mais o |)erfeilo desengano, que leva unicamente ao
que é solido e importante para a felicidade intendida, e ao desprezo firme,
porém desafleclado, de tudo o que não passa de vulgar e pbantastica
illusão.
Requereu António Vieira na dita occasião, que o príncipe D. Pedro
mandasse escrever ao geral da Companhia, instando pela sua volta para
Lisboa. Mandou escrever o príncipe; e o geral, ainda que apontou diflicul-
dades, não deixou de condescender. Fallava-se na resposta do geral em
detrimentos da compauliia de Roma com a ausência de Vieira, e em pro-
jectos de o demorar como assistente de Portugal e pregador do summo
pontífice: mas tudo isto por fim se punha de parte, por contentar e obe-
decer a sua alteza *. Comtudo esta negociação ficou suspensa no eCfeito; e
da correspondência de Vieira não pude alcançar o motivo. É porém de
presumir, ou que da parte do regente esfriassem as instancias, ou que a
Vieira parecesse, que voltar naquella condição não era bem seguro. Pelo
breve de Clemente X se vé, que elle se precatava contra novos embaraços
com o santo olUcio : da variedade das cortes não havia que confiar na sua
constante protecção, e muito menos à vista das contemplações, que com o
santo oflicio guardava o regente; da má vontade dos emulos não se podia
esperar que usassem indulgência; e da parte do tribunal, se o julgava
resentido (lor elle propender para os interesses dos christãos novos, real-
mente tinha que temer pouco favorável disposição.
Como quer que fosse. Vieira munido de breve pontificio, obrigado de
suas moléstias, e nunca esquecido da pátria, saliiu de Roma encaminhan-
do-se para Lisboa. Houve quem assignasse a esta jornada o anuo de 1677 :
Barros rejeita a opinião, e assigna o de 1G75. Noto porém que rejeitando
a opinião, nem por isso aponta os fundamentos, com que a rejeita. Mas é
• Veja-se a carta XLIII do vol. III, escripla ao príncipe D. Pedro.
88
valentíssimo o que offerecem duas cartas ao gran-duque de Toscana, datadas
ambas de Lisboa em 5 de novembro de 1675, e a resposta do gran-diKjue,
sem data de logar, porém com a de 30 de dezembro do mesmo anno '. Á
vista de taes documentos, não pôde ficar duvida de que partiu de Roma
em maio, e tinha chegado a Lisboa antes de novembro, depois de uma
ausência de seis annos ^. Fez seu caminho por Florença, onde em agosto
conferiu com o gran-duque o intentado casamento do seu herdeiro com a
herdeira de Portugal; e recebidas as informações necessárias para tratar
o negocio com justo conhecimento, tomou a seu cargo introduzi-lo, e com-
municar o que passasse, com todas as cautelas, que muito requeria, além
da gravidade da matéria, a politica bem circumspecla do gran-duipe.
Passados poucos dias da sua chegada a Lisboa, desempenhou prompta-
mente António Vieira o que tinha promeltido a este respeito ao gran-duque
do Toscana. O príncipe regente, sem acceitar ou rejeitar, encarregou-o de
escrever ao gran-duque, pedindo ainda mais declarações. Escreveu Vieira,
e o gran-duque, á vista das suas cartas, houve por desfeita toda a nego-
ciação; e nestes termos se explicou em concisa resposta. Em taes circum-
stancias, pouco mais ou menos, é que o regente ordenou a Vieira, que
pozesse por escripto o que tinha passado com o gran-duque. Obedeceu
Vieira e escreveu a relação, que nos resta somente em parle. A parte,
que conservamos, expende as conveniências do casamento em l^lorença ; a
que falta devia expender os inconvenientes. São elles porém expendidos
em outro papei, que contém parecer de Vieira sobre o casamento da prin-
ceza com príncipe extrangeiro, quer fosse dos estados de Itália, quer losse
dos de Allemanha. Ao ler comludo o primeiro papel, o leitor fica na sus-
peita de que a segunda parte não seria tão urgente como no parecer se
mostra, e que a inclinação de Vieira ao gran-duque lhe temperaria de
algum modo a força, que sem esta cautela inveiicivelmente desbaratara
todo o projecto, e coirespondèra mal á confiança do gran-duque. Mas seja
o que fòr desta suspeita, é certo que os dois papeis, a que nos referimos,
ou se considere o fundo das suas razões, ou a prevenção de futuros, ou a
excellencia do estylo, são egrégios fragmentos, que deveriam andar sem-
• São as cartas XLIV e XLV do dito vol.; e a resposta do gran-duque vem logo
depois da XLV.
* André de Barros diz, que saiiiu de Roma a 22 de maio, 1. IV § LXXXV. Barros
não conlieeia as ditas cartas do vol. III, qne saliiu á luz uo mesmo anuo, em ijue a sua
historia de^Vieira.
8d
pre diante dos olhos dos políticos portngnòses. Os verdadeiros interesses
da pátria são propostos com energia, os detriínontos contrários ponderados
com agudeza ; nem a brevidade da esciiptura empece á clareza e comple-
mento, nem a clareza simples e fácil faz prejuízo à gravidade. E posto
que os escriptos pragmáticos deste homem insigne em geral sejam primo-
rosos, julgo que me não engano em cuiflar, que os dois, de que agora
falíamos, são entre tiulos merecedores da primeira estimação '.
O casamento da princeza D. Izahel Josepha, principalmente depois que
o tempo foi deixando intender que seria única, foi muito pretendido de
principes extranhos. De Aliemanha o procuraram os priíic.pes de Neobin'go
e Baviera ; e de Itália os de Sabóia e Parma sobre o de Toscana. Em todos
elles havia a prerogativa do sangue : posto que nos de Aliemanha e Sabóia
fosse mais subida: e em todos havia o lustre de claríssimas allianças. No
de Parma uma certa inferioridade era compensada por parentesco muito
próximo; pois que em razão d'elle os duques de Parma concorreram, por
morte do cardeal rei, cora a senhora D. Catharina e com o prior do Crato
na pretensão do throno português. O que excediam Baviera, Neoburgo e
Sabóia em sangue, e Parma em parentesco, ganhava Toscana em riqueza,
valia de estados e coramodos da sua união com Portugal. Na necessidade
de escolher entre elles a preferencia^ não seria de fácil resolução; por não
ser claro se em taes circumstancias conviria mais o esplendor ou a utili-
dade. Não era porém necessário escolher entre elles; e é inuegavel, que
a todos obstava a razão de extrangeiros, precisamente a mesma, que havia
dado i posteridade da senhora D.' Calhaiina melhor direito, que aos des-
cendentes da duqueza de Parma. O ajuste com Sabóia, procedido, como é
de suppôr, da inclinação da rainha D. Maria Francisca, magoou tanto os
portugueses, quando d'elles foi conhecido, como os satisfez, quando a pro-
videncia o desvaneceu. Mas deixado isto, não tem pouco de notável a cir-
cumstancia de recorrerem egualmente Toscana, Baviera e Parma neste
negocio ao padre António Vieira, como medianeiro: o que só se pôde
attribuir á larga opinião, que corria, da sua dexteridade, e da importância,
que era dada ao seu voto na corte de Lisboa *.
' Podem ver-sc estes dois papeis no vol. III das cartas, desde pag. 238 até 263.
O ponto de collocar em Lisl)oa a metrópole de um estado, que abrangesse toda a Hes-
panlia, é tratado com grande penetração e juÍ7.o.
* Diz-me V. E., que os pretensores, cm que agora se falia são Florença, Partna e
90
Em muitas outras matérias graves era consultado do príncipe e do seu
consellio; e se o sen parecer nem sempre era abraçado, não é isso, como
todos sabem, argumento de se ter por menos sisudo. Nem sempre o que
se tem por mais sisudo, é o que se segue ; e é na especulação muito antigo
apiíorismo, e mais antigo ainda na pràlica, que o liomem deixa o mellior,
que reconhece, pelo peor, que o lisonjéa. Além de qne o consultor quasi
nunca se acha collocado naquelle ponto de vista, d'onde poderia descobrir
perfeitamente todos os inconvenientes do seu mesmo parecer: e por isso
ainda que este, sem intervir ruim aíTecto ou capricho, seja deixado, o in-
tendimento, que o concebeu, pôde ficar muito airoso. Atlendido era de
todos o seu juizo, não só reconhecido. Da sua penetração ajudada de luzes
e de tamanha experiência esperava-se, com razão, o acerto, a que pôde
alcançar a capacidade humana. E tanto caso faziam das suas decisões as
pessoas mais qualificadas em nobreza ou empregos, que mesmo depois de
se recolher na Bahia, conselheiros deslado de primeira ordem lhe envia-
vam os seus votos ; hesitando na própria estimação acerca d'elles, emquanto
Yieira os não determinava com a gravidade da sua approvação '.
Ao mesmo subido conceito se ha de referir necessariamente a resolução,
que tomou a rainha de Suécia, de o escolher para seu confessor. Determi-
nada esta princeza a entregar-se de um modo ainda mais eCfectivo ás obser-
vancias do christianismo, reputou, que não podia ajudar-se de um director
mais intendido que António Vieira; e nesta supposição o pediu ao geral
da companhia. O geral anteviu logo as difficuldades da execução. A edade
de Vieira já tocava setenta annos: a navegação do Mediterrâneo é em todos
os tempos arriscada: o clima de Roma, que provara tão inimigo em edade
menos provecta, não podia ser agora mais favorável: renunciar á pátria e
aos seus não era sacrificio leve : o consentimento emflm do príncipe regente
não dependia do arbítrio de Vieira; e se não podia ser desprezado sem
temeridade, também não podia ser pedido sem .falta de delicadeza.
Escreveu comtudo a Vieira em dezembro de 1678; posto que com
tamanha duvida do êxito da tentativa, que suggeria na mesma carta
o comportamento conveniente no caso de sua escusa. Guardou este
Baviera : e não sei se lembrará a S. A., que todos Ires me quizeram fazer medianeiro
d'este negocio, otc. Carta LXXXV do vol. II.
' Veja-se a mesma carta, escripta ao marquez mordomo mór, e datada da Bahia
em 21 de juulio de 1682.
91
comporlamento Vieira na resposta dalada de janeiro de 1G70 • : e se bera
que a resposta é lanijada uos lermos irresoiutos ile quora deixa a ultima
decisão ao arbítrio dos superiores, os ailegados são tanto de acceitar, que
não poderia desprezá-los a auctoridade superior, sem fazer injuria á sua
mesma discreção.
Entre os ailegados da resposta de Vieira sobresae o estado da sua
saúde, mesmo no clima de Lisboa, mais benigno que o de Roma. A vista
de um dos olhos eslava perdida, a do outro muito atlenuada, e o ouvido
muito obtuso: e ia apparecendo toda a mais comitiva dolorosa e lucluosa
de setenta annos, passados em trabalho tão árduo, como continuo. Este
soldado já inválido não devia aspirar a outra coisa, que ao descanço de
um quartel bem commodo e agasalhado, cujo vagar e suavidade moderasse
os effeitos dos annos e das fadigas antecedentes. Isto mesmo dizia Vieira
quanto à substancia; mas não pôde este seu dito conciliar-se com a duvida,
em que elle diz também que eslava, de ir continuar, no caso que se pas-
sasse para a America, com as missões do Maranhão. Ou esta duvida, pelo
que respeita ao Maranhão, era muito fraca, ou o zelo lhe augmentava na
imaginação as forças. A primeira coisa me parece a mais provável. Não
podia a sua agudeza deixar de sentir, que ainda a direcção das missões
desde a capital da colónia requeria forças nmilo inteiras. E se o desvelava
a conversão e reducção dos indios, não podia ignorar por outra parte, que
o peso de gente inulil em vez de ajudar, delem e embaraça as operações
da milicia; que soldado velho não é o mesmo que veterano; e que se o
desejo da vicloria dos seus camaradas é no invalido afifeclo honrado, a
presumpção de que para ella lhes pôde ser de proveito, não é senão
tresvario.
Dado que não fosse occupar-se nas missões do Maranhão, insinuava
ir continuar na Bahia o iraballio dos seus escriptus ; isto é, o complemento
e perfeição da clave dos prophetas, e o preparo de todos os mais, parti-
cularmente dos sermões, para sahirem a publico, pela imprensa. Por varias
vezes se linha Vieira lembrado de os fazer imprimir : mas negócios maiores
e outras causas tinham desvanecido a idéa. Ajuntaram-se agora, para
trazer esta resolução a effeito, as exhortações de amigos, as ordens do
' Barros (I. IV §§ XC e seg.) traz copiadas estas duas cartas, das quaes ambas
se extrahiu a substancia do texto. A resposta de Vieira tanibera se acha no voi. III
das carias n.' HV; faz porém alguma dillerença da que oílerece Barros.
92
príncipe regente e do geral Oliva, e o desejo de todos': e além de tudo
isto, a quasi necessidade de occorrer por este meio á impostura, que divul-
gava de penna e pela estampa, em Portugal e fora de Portugal, ou sermões
alheios com o appellido de seus, ou os seus deformados e depravados pela
avareza e temeridade imperita dos impostores^. Fizeram-llie tanta força as
ordens do príncipe e do gerai Oliva, que já em 1677 tinlia prompto o pri-
meiro volume, e escrevia a dedicatória, que se iè no principio delie ; e
essa é a razão, por que na carta de 1678 falia em continuar o trabalho
dos seus escriplos, que realmente era começado desde 1076^. O dito
volume comtudo não acabou de se imprimir senão em 1679; e tão adeante,
como 11 de novembro, é que puderam, como elle diz, ir olfirecer-se ao
padre Gaspar Ribeiro estas primicias da sua estampa''.
O frio era seu irreconciliável inimigo, e por esta causa os médicos lhe
aconselhavam que voltasse para a sua província do Brazil. Na Bahia, onde
se creàra, achava o ar docemente temperado, que quadrava com a sua
edade e moléstias, e achava de mais a mais a companhia de seu irmão e
familia. O projecto de pôr em limpo e estampar os seus escriptos requeria
socego, que não era fácil de conseguir em Lisboa ; sendo tão frequentado
6 consultado pelas pessoas da maior consideração, a que era impossível
recusar-se. Assentou emfim de se aventurar pela ultima vez ao oceano,
buscando a mesma costa da America, d'onde quarenta annos antes tinha
soltado vela, para applaudir em Lisboa o generoso brio, com que a nobreza
de Portugal accommetleu, e o povo, sempre sisudo e honrado, seguiu a
memorável revolução. Sem embargo porém daquelles motivos tão aper-
tados e tão graves. Vieira mais se arrancou do que saliiu da pátria ; e
muito pouco seria necessário para se resolver a depositar uella as suas
cinzas : mas faltou este mesmo pouco, e temos toda a razão de inferir do
que elle depois escrevia, que a ingratidão teve a principal parte na sua
ausência ^.
1 A ordem do príncipe regente consta da dedicatória; os outros motivos constam
do prologo do dito vol. I.
2 Veja-se o prologo do I vol.
3 Estando prompto em julho de 1C77, como se vé da dedicatória e licença da reli-
gião, muito provavelmente havia princiíúado o preparo no anno antecedente.
* Veja-se a carta L do vol. III.
5 Na caria LXXXI, do vol. II, escripta ao duque de Cadaval, falia com grande
93
António Vieira linha feito sem duvida alguma grandes serviços ao reino
e aos príncipes d'elle. Uma viagem fez a Roma, duas a França, duas a
Holianda em tempo e obseijuio d"el-rei D. João IV *. Com pareceres, votos,
arbitrios, ajudou, quer nas matérias de consciência, (juer nas de politica,
o governo d'aquelle monarcha, e o da rainha D. Luiza nas criticas e deli-
cadas circumstaiicias, em que por momentos Uie escapavam da mão as
rédeas da regência. No governo do príncipe D. Fedro em lOCH e (39, e
entre 1075 e 1681, não serviu muito menos. Em especial, linlia ajudado
a causa deste príncipe nas discórdias entre el-rei D. Allouso e sua mãe :
e se na deposição d"este ultimo não teve tamanha parte, como a rainha de
Inglaterra lhe quiz attribuir, não foi por certo espectador ocioso; como se
vé das Carias, escriptas de Comíbra, antes da prisão, ao duque de Cadaval
e D. Theodosio, ao marquez de Gouvéa e D. Rodrigo de Menezes. El-rei
D. João IV, o tinha nomeado mestre, e a rainha D. Luiza o tinha nomeado
confessor do mesmo príncipe ; e se a primeii'a nomeação não teve efleito,
porque Vieira se retirou para as missões, não o teve a segunda, porque
o fizeram retirar de Lisboa os inimigos do infante*. For tantas razões
publicas e particulares linha elle direito á graça e contemplação do regente :
sem fallar agora nos seus talentos, que o faziam merecedor da geral esti-
mação, e no seu grande préstimo, de que nas occasiões se podia tirar para
o deante muito partido.
Não faltou, como temos visto, com certas mostras de altenção benigna
o príncipe D. Fedro. Mais ou menos contribuiu para se mitigar o rigor da
seutença da inquisição : na occasião em que fui negociar em Roma, recom-
mendou-o em termos de honra e elllcacia ao agente João de Roxas de Aze-
vedo : procurou a sua volta para Lisboa ; e para isso escreveu ao geral da
companhia com instancia : ouvia as suas propostas ; consultava-o em ma-
térias de grave momento : frequentes vezes o fazia certiflcar da sua affe-
ctuosa memoria : honrou-o emflm com o preceito de estampar os seus
sermões ; preceito, que para o amor próprio de um auctor se converte na
empliase da grata licença, que o regente logo liie deu, para se partir (e quasi o mesmo
em outras taiiibeui ao duque), a que se seguiram outras demonstrações, que não podia
etperar quem tanto tinha servido e padecido, como a V. E. é presente.
1 Veja-se a caria CXXVI do vul. II : com os negócios, tonlinúa Vieira, de maior
confiança e importância, que nunca naquelles tempos tão duvidosos teve Portugal; e a
carta XL do vol. III.
' Veja-se a caria LXII do II vol.
94
mais fina e deliciosa lisonja, e tanto mais fina e deliciosa, quanto mais se
reveste dos exteriores de violência É certo porém que com todas estas
mostras se não deu Vieira por satisfeito. Queixava-se e quasi que murmu-
rava das indifferenças ou friezas, com que era pago o seu zelo ; das sequi-
dões com que o seu amor era correspondido. F,iz difficuldade ao observador
esta espécie de repugnância : e ou quereria dar por imaginários todos os
signaes de affecto, que ficam referidos, o que a historia todavia não per-
mitte ' ; ou se resolve a notar Vieira de mimoso com excesso na matéria
de estimações e affectos soberanos ; contra o que se devia esperar do seu
juizo, tão ajudado de profunda reflexão e de multiplicadas lições da expe-
riência.
Não posso absolver aqui António Vieira de alguma fraqueza : e muito
menos se me recordo de tantas máximas de desengano christão e politico,
que tenho lido nas suas obras, e da isenção animosa, com que em certos
casos desprezou o favor da corte, quando esta o desejava prender com
todos os laços da sua astúcia. Se porém Vieira foi nesta matéria fraco, estou
longe de o suppõr também insensato. Condemno-o, porque fazia caso de
friezas ou sequidões, que nada tinham com a felicidade verdadeira ; mas
não posso crer, que deixava de avaliar ao justo as indifferenças do príncipe
D. Pedro. Os rigores da inquisição foram mitigados, não tanto por obra
do regente, como por influencia dos seus validos : as recommendações a
João de Roxas foram sabidamente diminutas ; ouvi-lo e consulta-lo podia
ser necessidade antes do que afl"ectuosa confiança : memorias remettidas
por incidente, e desmentidas por acções, não passam de vãos formulários :
o apreço dos seus sermões era conceito vulgar ; o preceito de os imprimir
não é certo argumento de amizade para com o auclor. Tudo isto conhecia
bem António Vieira ; e como tinha a fraqueza de desejar renovadas as prl-
vanças d"el-rei D. João IV, as estimações do príncipe D. Theodosio, notava
e doia-se de que lhe faltassem, quando se presumia com melhor direito.
Ver-se-ha depois que o regente, sem desprezar António Vieira, ou por isso
mesmo que o não desprezava, lhe era pouco inclinado ^ : e na verdade,
• Constam com effeito indubitavelmente de toda a correspondência de Vieira, e em
especial das cartas a D. Rodrigo de Menezes. O preceito de imprimir os sermões é
expresso na dedicatória e prologo do I volume.
* Não pode negar-se, que algumas pessoas se incommodani muito com o mereci-
mento alheio : e a soberania dos príncipes não os isenta das fraquezas da humanidade.
95
prompta liceuça de se partir para sempre para a Baliia, não pôde dar
molivo á suspeita de muita inclinação.
Talvez aiuila em Roma se lembrou Vieira de passar para o Rrazil; e
certamente llie occorreu este pensamento, assim que advertiu que o clima
de Lisboa o favorecia pouco mais. Mas quando nisto possa haver alguma
duvida, elle mesmo allirniava em janeiro de 167Í), que já dantes se pre-
venia para fazer a dila viagem'. Só veio comtudo a cumprir com esta
tenção no fim de dois annos completos ; sabindo da barra de Lisboa era
il de janeiro de 1081 na almirauta da frota, commandada pelo capitão de
mar e guerra Diogo Ramires. Não consta todavia que o impedisse uegocio,
ou o atalhasse enfermidade : reflexão, que me leva a referir as suas tar-
tanças ou delongas á dilBculdade própria, com que se ausentava. Três vezes
accommetteu e três vezes desistiu ura antigo poeta da sabida para o des-
terro ; mas o poeta era constrangido a deixar Roma, e a desterrar-se para
paiz ingrato e gente desconhecida e barbara ; ao mesmo tempo que Vieira
se partia sem preceito para a terra, onde havia passado os seus melhores
annos, para a província, que havia escolhido com bizarra determinação,
para os seus irmãos por instituto e por natureza, e para um clima doce e
feliz torrão, que poderá ser invejado até de regiões muito avantajadas á do
fero e inculto Danúbio naquella remota edade. Com serem porém tão
diversas ou tão contrarias as circumstaucias, não parecem as repugnancias
de Vieira menores que as do poeta romano ; e ambos os apartamentos se
representam egualmeute procedidos da mais custosa violência.
Tanto que chegou à Bahia (não pude alcançar quanto tempo durou a
viagem), assentou de se entregar todo aos cuidados de espirito, sem mais
iutervallo que o da diligencia de apurar os seus escriptos, para proseguir
a impressão começada em idld. Tratou de enterrar memorias do passado,
6 de se esquecer da Europa ; e de fugir até da Bahia, sepultando-se na
solidão de uma quinta dos jesuítas nomeada do Tanque. A primeira frota,
por elleito de tão severa resolução, não trou.\e carta sua para o reino; e
para satisfazer às sentidas queixas, com que acudiram alguns illustres
amigos, foi necessário, diz Barros, que o obrigassem os superioies. Des-
canso, retiro, silencio, eram agora o seu presupposto único. Mas em breve
o obrigaram as circumslaucias a sahir a publico, a entrar em conflictos,
a fallar e escrever com o mesmo ou maior empenho, que o de outros
• Veja-se a carta LIV do vol. 111, escripla ao geral João Paulo Oliva.
96
tempos. Desconcertam-se facilmente os planos mais assentados pela pru-
dência humana. Porém quando este não fosse desconcertado por occasião
estranha e inevitável, o retiro e silencio, a que se tinha condemnado Vieira,
lepugnavam niiiito ao seu natural ; e o natural, se não desfallece de todo
pela mesma coacção ou por outras causas, vem sempre a romper emba-
raços, e a campear tanto mais isento, quanto esteve mais sujeito : e porque
assim se achou o de Vieira desfallecido nos ulliroos ires ânuos da sua vida,
é que aquelle plano se tornou a porem pratica ; e então mesmo foi seguido
de sorte, que ainda de espaço a espaço lhe escapavam indícios da antiga
vivacidade.
Governava a Bahia, como governador e capitão general, quando chegou
Vieira, Roque da Costa Barreio, que nas guerras da acclamação servira
com prudência e valor. Houve-se este cavalheiro no exercício do seu cargo
com tanta honra e iuleireza, que mereceu as estimações dos bons avalia-
doies, e as saudades de todo o estado. Tornou pobre donde os mais cos-
tumavam recolher-se muito medrados em cabedal. E Vieira, escrevendo ao
marquez de Gouvéa, motiva o encarecimento, com que fallàra em seu
louvor, com o zelo que lodos devem ler de que as virludes sejam pre-
miadas. Acabou o seu governo por maio de 1G82, e succedeu-lhe Autonio
de Sousa de Menezes, cuja edade madura promellia grandes acerlns, e o não
ter herdeiros eg/ial desinleresse *. Mas ou porque fosse difficulloso contentar
a Bahia costumada á sabia direcção de Roque da Costa, ou porque nas
acções do seu successor faltasse o bom aviso, que pi omelliam os annos ;
desde logo entrou a ser mal visto, e até pro\ocou as picantes facécias dos
eugeidios poéticos da terra -. Concordou a continuação com este principio ;
6 foram surgindo encontros e successos, que por fim atalharam antes do
tempo e com descrédito o governo de António de Sousa, e até foram per-
1 O elogio de Roque da Costa, e esperanças acerca de António de Sousa de Me-
nezes podem ler-se na carta LXXXII, do vol. II, escripta ao marquez de Gouvéa.
- E sobre se tirarem as capas aos homens têm dito mil lindezas os poetas, sendo
maior a novidade d'este anno nestes engenhos, do que foi nos de assiicar. UM.
N- B. Este António de Sousa de Menezes teve por alcunha o Braro de Prata, por
ter uro de prata, em legar do que perdera na guerra de Pernambuco, onde serviu, e
também no reino; porém com mais credito de valor que de pericia, diz D. António Cae-
tano de Sousa, H. G. da C. Real P. tom. XII, p. II, pag. 983. Era filho de Francisco de
Sousa e D. Antónia de Noronha, filha de D. Rodrigo Lobo, senhor de Sarzedas. Veja-se
lid., tom. XI, pag. 89o.
91
(arbar uo seu retiro da quiiilii do Tanque o plano de quietação e de silen-
cio, que tinha formado António Vieira.
O secretario destado da Bahia, que era eulão Bernardo Vieira Ravasco,
tiulia regimento real, a que se couforniava no expediente dos negócios.
Quando este regimento fosse inconveniente, devia ser suspendido ou mu-
dado para outro, que procedesse da mesma origem ; e ao menos para o
mudar, devia um governador apresentar mandado régio, que o auctorisasse
para fazer similhante nmdança. Com razão ou sem ella liouve António de
Sousa de Menezes por inconveniente o regimento, que seguia, como era
obrigado, Bernardo Vieira ; e [)or mero arbitrio lhe ordenou, que seguisse
outro. Prejudicava este segundo, pelo que parece, os interesses do secre-
tario ; que assim pela illegalidade do procedimento, como pelo seu pre-
juízo, se determinou a fazer representações sobre esta matéria em Lisboa.
D'esta faísca ê que conjectura André de Barros, que se ateou o grande
incêndio ; e eu lenho por muito provável a sua conjectura '. As represea-
taçijes de Bernardo Vieira não podiam agradar a António de Sousa, cujo
desgosto o empenharia naturalmente em actos oppressivos e insolentes,
que accendessem cada vez mais o secretario : e o secretario, que na prom-
plidão e ardor se parecia muito com seu irmiío António Vieira, é de pre-
sumir que niio su[iportasse com grande resignação as oppressões e insultos.
Nesta disposição reciproca dos ânimos, a discórdia devia crescer todos os
dias, e emfim subir a exorbitante altura, em se oílerecendo alguma oppor-
tuna, ou antes importuna occasião.
Por motivos, que não chegaram á minha noticia, passou António de
Sousa de Menezes ordem de prisão contra o filho do secretario e contra
um seu sobrinho ; os quaes só procurando refugio, a puderam evitar. Ao
mesmo secretario suspendeu do exercício do seu emprego ; e posto que
não tardou muito em o restituir, nem por isso ficou menos viva a memoria
do aggravo. Succedeu neste meio tempo ser morto (de dia e em rua
publica, por António de Brito de Castro, irmão do provedor da alfandega)
um grande parcial do governador, que era alcaide mor, e se chamava Fraa-
1 Veja-se Barros, 1. IV, % CXL e seg. Supponlio que d'esta representação de Ber-
nardo Vieira, é que falia seu irmão, quando diz ao marquez de Gouvéa na carta LXXXII,
vol. II : Se ao coiixellio d'eslailo sulnr um memorial do secretario d'esle, estimarei muito
que se não saiba, que é meu, irmão : porque bastará esta noticia, para que lá se não
emendem as injusiiras, que cá se lhe fazem só por essa causa. A dita carta tem a data
de 23 de julho de 1G82.
7
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cisco Telles de Menezes. O governador ao receber a nova d'este successo,
desceu á secretaria pessoalmente, e mandou metter em enxovia Bernardo
Vieira, vedando-lhe toda a communicação, ou de palavra ou por escripto*.
Se o secretario foi ou não culpado neste crime, poderá duvidar quem tiver
alguma desconfiança da sentença, que por ultimo o declarou innocente :
mas o modo, por que neste caso se portou o governador, não pôde ser
desculpado; e á força de illegal e até falto de conselho, nos preoccupa,
por sua imprudência, muito em favor de Bernardo Vieira e da sua causa •.
Passou adeaute a pouca consideração do governador, publicando que
o delicto fora ajustado na uoite antecedente, assistindo o secretario e diri-
gindo seu irmão o ajuste no collegio dos jesuítas. André de Barros, que
dá esta noticia, affirma ao mesmo tempo, que nem Bernardo Vieira foi
naquella noite ao collegio, nem António Vieira sahiu da quinta do Tanque.
Não offerece elle prova d'esta affirmativa ; mas se a respeito do secretario,
por sua mesma atrocidade, é a imputação muito duvidosa, a respeito de
António Vieira é totalmente incrível. Na edade, nos antecedentes hábitos,
na religião de António Vieira, se era possível, não é verosímil a resolução
monstruosa de mandai; como elle se expressa, malar homens, e de os
mandar matar por aggravos, que ainda que tocavam aos seus, não eram
comtudo próprios^. Decidiram depois juizes competentes, que fora invento
da calumnia, recebido com muita precipitação pela credulidade apaixonada
do governador; e por mais filha do favor que se queira presumir esta
decisão, é forçoso confessar, que tem muito ou tudo de provável. Ao syn-
dicante, que por esta occasião foi mandado de Lisboa, pediu António Vieira
com instancia, que devassasse d'elle mesmo com rigor; dando a vêr, até
por este pedido, a segurança de sua consciência. Talvez se julgue que
insisto neste ponto mais do que requerem as próprias apparencias delle :
mas a justiça deve acudir com accommodada defesa aos insultos da calu-
mnia ; que não contente de diffammar António Vieira, procedeu ao arrojo
de o condemnar em um d'estes juízos, em que a calumnia mesma serve
1 Veja-se Barros, ibid.
* Bernardo Vieira foi absolvido, como innocente, por sentença, cuido que proferida
em 1687. Veja-se a cart. CIX, vol. II.
^ Também vae com elle Gonçalo Ravasco de Albuquerqve, o qual deixa seu pae Ber-
nardo Vieira na enxovia, e ao padre António Vieira, seu lio, criminado de mandar matar
um homem, etc. Cart. LXXXVtlI, vol. II, e LX do vol. III.
ôõ
de accusatior, e os juizes pelos olhos do accusador é que vêm a impor-
tância 011 o moiuenlo das allegaçuos.
Sem embargo dos excessos, a que a ira do governador procedeu contra
Bernardo Vieira, inílingindo-llie por mera e leve suspeita pena Ião grave
e até vergonhosa, seu irmão Dcou immovel, e chegou a parecer com
demasia indiíTerente á oiipressão e opprobrio de um parente tão conjuncto.
Nolou-se com estranheza esla indifferença ; e julgaram-se obrigados os
jesuítas a lembrar-lhe, que importava satisfazer a Ião justo reparo'. Não
desacertava António Vieira em suppòr, que seria mal ouvido de quem, sem
atlender ao seu parentesco. aíTrontára com tamanha temeridade as leis e
o mesmo decoro. Comtudo ficava-lhe melhor expôr-se ás dcsaltenções da
semrazão por tão justificado motivo, do que parecer insensível aos aggravos
e vilipêndios, que solTria seu próprio irmão. Por esta e outras considera-
ções se persuadiu a ir ter com o governador e representar-lhe, que pedia
d'eile a justiça, que com maior socego de animo remediasse os detrimentos
e irregularidades, a que o fogo da pai,\ão o linha arrastado no primeiro
ímpeto; porque se á fraqueza humana se desculpa o esquecer-se o juiz da
sua imparcialidade no accelerado de um repente, também se requer de um
bom discurso, que emende depois com mais accôrdo os desmanchos da
occasioual precipitação ^
Mas a libcnLide de bom discurso e o accôrdo, que d'ella depende, não
tinham ainda renascido em António de Sousa de Menezes; e se com Ber-
nardo Vieira andara in.solente e tyrannico, com seu irmão faltou de todo
aos primores de cavalheiro. Km vez de o escutar com attenção e de lhe
deferir como julgasse ipie era justo, atalhou as suas representações com
colérica im|)aciencia, allVontou com grosseiras injurias a sua corporação e
a sua pessoa, e de sua casa arrojou com desprezo um sacerdote, um ancião
e um homem conhecido e admirado por seus talentos em todos os legares
do domínio de Portugal, e em outros, e muito celebres, fora d'elle^
Aquelle António Vieira, attendido em Paris da rainha de França e do seu
principal ministro Mazzarini, valido d'el-rei D. João IV, em Lisboa, pro-
curado pela rainha de Suécia desde Roma, cortejado pelos duques de
» Veja-se André de Barros, 1. IV, §§ CXLVIII e CXLIX.
» Veja-se a carta XCIII do II voi. As cartas e André de Barros não explanam,
indicam só a substancia da representação.
' Ibid. e na carta seguinte.
ioo
Baviera, de Parma e de Toscana, recebeu agora em uma colónia portu-
guesa, em logar da justiça, que pretendia, os insultanles desprezos de um
fidalgo, que abusava, e por isso mesmo envilecia, a auctoridade, que lhe
fora commeltida. Vieira soffreu com louvável comedimento e resignação ;
porém António de Sousa, que se receou de queixa sua na corte, tratou de
se prevenir, dando parte a el-rei do succedido, nos termos menos favorá-
veis a Vieira, que lhe suggeriu o próprio interesse ; e propondo, como
aggravo feito á dignidade do seu cargo, o que verdadeiramente foi excesso
seu contra o direito e a honra de Vieira.
Partiram da Bahia ao mesmo tempo que a parte, que o governador deu
para Lisboa, o vereador Manuel de Barros da Franca e Gonçalo Ravasco
de Albuquerque. Vinha queixar-se do governador em nome da cidade
Manuel de Barros da Franca ; e vinha Gonçalo Ravasco solicitar por seu
pae Bernardo Vieira, e por si mesmo. A conta de António de Sousa ante-
cipou as queixas e solicitações de um e do outro ; e fez no animo d'el-rei
o ordinário effeito das primeiras impressões. É muito para desejar e é
necessário, que todos os que tèm a seu cargo regimento de homens sus-
pendam absolutamente o juizo sobre qualquer causa, em quanto não for
advogada por ambos os lados. A calunmia, a paixão, mesmo a opinião
sincera, mas errada, sabem pintar com enganosas cores: e só comparando
uma pintura com a sua contraria, se pôde bem alcançar a illusão da que
é capciosa ou simplesmente falsa. Mas esta cautela não é menos rara do
que necessária ; e pelo commum, a primeira informação assenta o conceito,
com tanto damno da justiça e verdade, como pouco credito do intendi-
mento do julgador. Assim assentou neste caso o conceito del-rei a conta
antecipada de António de Sousa de Menezes : e quando chegou á sua
presença Gonçalo Ravasco, ouviu da mesma bocca do soberano a declaração
do seu desgosto, pelas formaes palavras : Estou muito mal com seu tio
António Vieira, por descompor o meu governador*.
Posto que de antemão preparado com a certeza das ingratidões da
pátria (que até chegou a queima-lo em estatua em Coimbra) ^ e da pouca
inclinação do soberano; a noticia d'estas suas palavras, communicada logo
I Carta XCIV, vol. II.
^ D'csta (lesaUenção ltucI não pôde haver duvida, pois que Barros a refere no
1. IV, §§ CXXXV e XXXVI, 6 a toca Vieira nas cartas LXI e LX do vol. III : porém
ambos affeclam mysterio, que não pude penetrar.
101
por Gonçalo Ravasco, foi para seu tio um golpe muito penetrante, com que
fraqueou, confessa elle mesmo, a sua constância. No mesmo dia caliiu gra-
vemente enfermo e passou largo lenipo cm cama, com freipienles delírios
e em muilo risco de vida. Teve [lor fim ailivio ; mas nos primeiros mo-
mentos da convalescença desafogou em queixas amargas por cartas, escri-
ptas ao duque de Cadaval, ao marquez mordomo-mòr, e a António Paes
de Sande • ; nas quaes, entre as declaraçiies de sentimento, assenta máxi-
mas, insinua desenganos, que muilo melhor estariam no seu passado com-
portamento do que agora nas cartas. A larga edade com muita experiência
de António Vieira devia tè-lo muito mais fortalecido contra os jogos da
fortuna, as injustiças do mundo e os caprichos dos poderosos. E reflectindo
nos motivos para tal fortaleza, que accrescentava o christianismo, o espe-
cial instituto e a resolução, com que se recolhera na quinta do Tanque,
poderá dobrar-se a nossa admiração, se nos não lembrasse ao mesmo
tempo, que não ha que pasmar de fraquezas da humanidade, sejam quaes
forem os sujeitos, os annos e as mais circumstaneias ; e que a incoherencia
entre a especulação e obras é tão commum mesmo nos mais intendidos,
que a sua sabedoria parece que se reputa mais obrigada a ostentar-se por
vozes e por escriptos, do que a governar bem o teor das próprias acções.
Se António de Sousa de Menezes preoccupou el-rei contra António
Vieira, as queixas da Bahia não foram inteiramente desprezadas : e houve
só uma differença, que não foi comtudo pequena, nem muito desculpável.
El-rei creu sem mais exame, as accusações contra Vieira; e não creu as
queixas contra António de Sousa, senão depois de verificadas pela infor-
mação, que procurou, de pessoas graves*. Determinado por esta infor-
mação, deu por acabado o governo de António de Sousa, e despachou para
o seu logar o marquez das Minas.
Com o marquez das Minas, que chegou á Bahia antes de julho de 1684,
foi um syndicante, de cuja rectidão não parece Vieira totalmente satis-
feito, no que toca ao negocio principal da Bahia. Em tal perturbação dos
dnimos, se é muito de suppôr que as dihgencias e outros recursos dos
1 São as cartas XCIl, XCIII, XCIV do vol. II. Succedeu aqui realmente a Veira o
que elle censurava no sornião da Hainlia Santa Isabel (vol. II, sermão I. N. IV) : Se
tendes pouco juizo e pouco corarão, podem-vos matar (os reis) com uma carranca, ou
com um voltar de olhos.
' Veja-se a carta XCIV, vol. II.
102
culpados, e até a compaixão da saa sorte, inclinem a balança ila justiça :
também o é, que a vingança dos aggravados de tudo desconfie e nmrmure,
e que o fumo das paixões, erguido ainda e denso, ou ao juiz não deixe
vèr bem a verdade, ou aos observadores interessados represente mal o
recto procedimento do juiz. O que posso affirmar é, que da devassa do
syndicante resultou a Bernardo Vieira, culpa de que não chegou a ser
livre senão em 1C87, depois de grandes trabalhos e detrimentos ; e que
da conta, que em acto separado da devassa principal deu a el-rei acerca
de António Vieira, [procedeu no monarcha o conhecimento de que, era
declarar por tal modo o seu desgosto, faltou á justiça, e faltou mesmo à
delicadeza, que convinha usar com tão distincto vassallo *.
Com ser isto certo, não sei comtudo por que- razão e por que modo
António Vieira foi mandado, em consequência d'esle negocio, castigar por
mão dos seus superiores. D'aqui se coliige bem, que a não lhe valer a
imraunidade, não seria tratado com mais favor do que o secretario. Uma
testimunha bastou, como diz Vieira, para criminar seu irmão ^; e é de
crer, que uma só attestasse também da culpa do jesuíta. E em tal caso foi
um velho venerável, por effeito do dito de testimunha única, não só infa-
mado de delicto gravíssimo, mas submettido ao rigor e ao opprobrio da
pena I Do rigor da pena o isentou a convicção, que os superiores tinham
da sua innocencia : da infâmia porém e do opprobrio só o podia absolver
a imparcial consideração dos sisudos, sempre poucos ; ou o desengano do
tempo, sempre vagaroso. A parte, que nisto teve a devassa do syndicante,
não pude alcançar com distincção ; mas conjecturo, que d'ella se tirou azo
para ministros parciaes satisfazerem aos seus maus affectos ou ao dos seus
amigos. Vieira nas suas cartas toca repetidas vezes e em termos, que
indicam profundo sentimento, em certos desembargadores, que eu suspeito
que seriam estes ministros parciaes '. Pôde ser que o sentimento indicado
seja de parcialidade usada com os seus parentes ; mas dado que foi usada
com os seus parentes, fica mais que provável, que o fosse com elle mesmo,
cuja causa e respeito não só tinham sirailhança, mas até perfeita identidade.
Por um d"estes successos, que ao modo de ver humano são casuali-
dades, e que todavia são muito reparados e reparáveis, a rainha D. Maria
» Barros, 1. IV, § CLXXXIII.
2 Veja-se a citada carta XCIV, vol. II.
" Yejam-se as cartas CU, CIY, GV do vol. II e LXIV do lU.
103
Francisca tinha fallecido três mezes e meio depois de seu repudiado ma-
rido el-rei D. Affouso: e a violência da morte uniu por esta forma os que
tiuiia separado a repugnância das vontades •. A frota, em que foi para a
Bahia o marquez das Minas, levou, julgo eu, esta noticia cm iG84, e o
governador snppoz-se obrigado a celebrar as exéquias da rainha, em que
desejava ostentar a maior magnificência. O desenho da fabrica e adornos
pôz á conta de Bernardo Yieira, em quem o animo grandioso egualava os
grandes poderes de rica e vasta imaginativa : e o discurso fúnebre encar-
regou a António Yieira ; querendo que com a grandeza dos apparatos
dissesse o preço da oração. Vieira escusou-se a principio com a enfermi-
dade, falia do dentes e de voz, e todos os outros achaques da velhice: porém
instando o marquez, em que nisso levaria gosto sua mageslade, esta só pala-
vra bastou para que elle intendesse, que não devia replicar -. Pregou com
effeito na misericórdia da Bahia em 11 de setembro de 1G84, e o seu
discurso é notável por servir de occasião a outros, ou por ser o primeiro
annel da cadeia de empenhos e desempenhos da palavra de Deus e do pre-
gador, que possuímos entre os mais sermões. As subtilezas de Vieira,
ajudadas aqui do desejo de agradar, o induziram a prometter futuros feli-
zes; e a correspondência d'elles o induziu a promessas ainda mais avul-
tadas que as primeiras. Porém o acontecimento frustrou ou desvaneceu as
segiuidas ; e o pregador teve de recorrer a toda a sua agudeza, para
desculpar a temeridade dos vaticínios. A causa era tão fraca, que toda a
sua dexteridade foi insuíliciente para a defesa : mas o estado decrépito não
lhe empeceu; e sou de opinião, que Vieira, então de oitenta e um ânuos
de edade, não se sahiria melhor, se com menos quarenta emprehendesse
a mesma apologia.
No sermão das exéquias, aventurou-se a prometter grandes accrescen-
tamentos de prole na real família, reduzida nesse tempo a cl-rei e á prin-
ceza, sua Qiha. A temeridade até aqui não era desmarcada. El-rei não
passava de trinta e seis aniios; possuía saúde e vigor de constituição; e
o reino tinha necessidade do fiadores ao throno. E posto que el-rei hesitou
sobre passar a segundas núpcias, determinou-se emfim a tomar por esposa
a princeza de Neoburgo, de quem lhe nasceu em 1688 o príncipe D. João.
1 El-rei D. Allonso falleceu a 12 de setembro, a rainha D Maria Francisca a 27 de
dezembro de 1683.
í Yeja-se a carta XCUI, vol. U.
i04
Este pleno desempenho da divina palavra empenhada nas exéquias da
rainha D. Maria Francisca, levou Vieira a empenhar a sua ; promeltendo
ao príncipe recemnascido, no sermão de acção de graças, duração de vida,
proezas, gloria, e por seu meio Iodas as prosperidades portuguesas, que
de Vieira eram esperadas, como temos visto, com tamanha antecipação. A
perspicácia do orador e a sua cautela falhou neste ponto; a morte do
príncipe veio promptamente confundi-lo, e sequer adverlí-lo de que era
necessário, ou aventurar-se menos, ou aventurar-se, deixando sempre re-
ciirso, de que podesse lançar mão no caso, muito possível, de um contra-
tempo. Com esta advertência não se quiz porém dar por vencido; e em
um papel, que offereceu á rainha, sustentou o empenho a todo o seu
poder e com grandes protestos de confiança. Uma prova comtudo de que
esta confiança menos estava no animo do que nos protestos, acho eu no
expediente de offerecer o papel á rainha era muito segredo. Vieira confiava
da credulidade de uma senhora desejosa de prole multiplicada, que achasse
valentia nas suas razões a favor d"este supposto; mas não esperava tanto
da sagaz malícia, e mesmo da critica imparcial do publico '.
Até á morte, um argumento de sinceridade nesta matéria, presumiu
Vieira de ler no futuro, e persistiu em esperar as grandes venturas ao
reino e á Igreja, de que dava conta a D. Rodrigo de Menezes e a outros
muitos entre lOGO e 1675. Na sua correspondência, depois de retirado na
Bahia, se encontra o mesmo advertido reparo nos cometas, e o mesmo
receio dos seus efleitos temerosos. O notável escripto, que se intitula Voz
de deus ao mundo, a Portugal e á Bahia, foi composto em novembro de
169S, ou um anno e oito mezes antes do seu fallecimento ^. Vè-se deste
escripto, em que a erudição compete com a credulidade, que elle não
ignorava os gracejos dos bem humorados, e o conceito mais ponderado
dos philosophos: mas sabia e notava, que até a certeza e horror da morte
tem sido objecto de facécias para os levianos; e desconfiava de uma philo-
sophia, que não tinha profundado, e que imaginava pouco christã e muito
própria para accrescentar descuido da emenda dos costumes. Scaliger e
os seus parciaes uão reputava juizes mais competentes, que Manilio e o
poeta Mantuano; e achava na opinião d'estes gentios mais senso e gravi-
' O sermão das exéquias, pregado cm 1G84, o de acção de graças, pregado em
1688, o papel offerecido á raiulia em 1689, formam o todo da palavra empenhada e
desempenhada e defendida; e acliam-se juntos e seguidos uo tom. XIII dos sermões.
2 Veja-se o tom. XIV dos sermões, pag. 22o.
105
dade, que na il'aq)ielles, que com empli.ise appellida de Evangélicos •. Assim
que, o empenho da palavra divina e da sua, c a insistência na apologia,
ainda que se eucaniinliassem a conlenlar a côrle e a manter o credito do
orador, nem por isso deixavam de ter algum principio na própria per-
suasão.
Quando em dezembro de 1688 pregou de acção de graças pelo nasci-
mento do príncipe D. João, os grandes trabalhos da sua família tinham
cessado pela sentença do anno antecedente, e elle pudera ir gosando em
mais descanço do seu retiro do Tanque: mas no principio d'esle mesmo
anno de 1088 lhe expediu o novo geral da companhia patente para gover-
nar os jesuítas daquella parle da America; por cujo elTeito foi forçado a
largar o retiro, e vir dirigir desde o collegio da Bahia os negócios da
sociedade, e principalmente os das missões. O zelo e ardor, com que
neste emprego se portou Viaira, não parecem de edade tão avultada e de
sujeito tão quebrantado por moléstias e desgostos; e podem avaliar-se pelo
que elle mesmo dizia, pedindo com grande empenho o allivio, antes de ter
fim o triennio da commissão : Isto não <■ para quem enthisica, e passa as
noites inteiras sem dormir, dando tratos ao vttendimenlo, e não tirando d'eUe
mais que ais e clamores, que não são oncidos *. Tantas missões, tão varias.
Ião remotas, tamanha pobreza de operários, tanta indocilidade e tantas
repugnancias das colónias requeriam na verdade muita ponderação dos
remeilios, muita diligencia e egual discreção cm os applicar; e por tal
modo se achava tudo isto no actual visitador, que a sociedade, zelosa e
intendida de seus proveitos, insistiu em lhe recusar o allivio procurado
com anciã e com o fundamento de causas não menos notórias que justifi-
cadas.
Não era possível tratar das missões, sem nisso fazer um serviço avul-
tado ao reino; a que as missões, ao passo (pie adquiriam vassallos, dimi-
nuíam pela mesma razão obstáculos e inimigos. E porque o serviço do
Estado andava nesta parte unido com o accrescenlameuto da Igreja; os
missionários, e por todos elles o seu principal director, precisavam muitas
vezes do favor politico; em muitas outras do auxilio dos seus cabedaes;
6 em todas do seu consentimento e perfeito accordo. Esta necessidade
punha Vieira, emquanto visitador, na de se corresponder com el-rei e os
• Veja-se todo o papel no vol. XIV dos sermões; e particularmente os niiiiieros
289 e 290.
* Estas palavras allega Barros no 1. IV § CCXI.
106
seus ministros; dando conta dos successos, pedindo providencias e pro-
pondo á solução dilDculdades, ou á auctoridade legitima mudanças sugge-
ridas pela experiência. Mandava-lbe el-rei replicar com benegnidade, e
acudia com todos os signaes de attender distinctamente a sua pessoa, e
de favorecer o negocio das missões, até pelo respeito do visitador. Con-
servou-nos André de Barros uma carta escripta de Salvaterra em 1092,
em que el-rei responde a outra, ou outras de Vieira, escriptas quasi no fim
do seu triennio ', e nella se pôde vèr, em que conceito tinha o seu espi-
rito e serviços, e como se julgava obrigado a premiá-los com louvor e
agradecimento: moeda de muito preço para um homem, como António
Vieira, e que aos reis não custa senão dispensa-la com justiça, e por isso
mesmo com economia ^.
A propósito da carta, não posso resolver-me a passar em silencio uma
bem notável de Vieira, escripta pelo tempo da sua visitação, e por cum-
primento com seu ofiQcio. Governava Pernambuco, como pastor e como
governador, o bispo d'aquella diocese em 1689. Succedeu nesta occasião,
que um delinquente se acolhesse ao collegio da companhia, como a logar
de refugio. Pediram as justiças seculares o refugiado; recusaram os jesuítas
a entrega, alleg?ndo suas immunidades por privilégios pontifícios e ordens
reaes ; e o bispo governador deu ordem para lhe levarem presos os padres
e o delinquente. Deste procedimento, que naqueile tempo e da parte de
um bispo parece precipitado, c que Vieira pediu satisfação em carta de 6
de fevereiro do dito anno, que é a mesma, de que falíamos. Barros, a
quem devemos a copia formal, affirma que d'ella resultou o desejado elTeito.
Não refere comtudo a maneira por que o bispo de Pernambuco deu satis-
fação á sociedade. É porém certo, que se uma carta por si só a podia
merecer, neste caso estava a de Vieira: exceiiente exemplar, em que a
força, e força não pequena, é temperada pelo modo mais feliz com a sua-
vidade; em que á justiça requerida não faz prejuízo o tom de comedimento
6 submissão; e em que a cortez urbanidade de termos e pensamentos
accrescenta, em vez de diminuir, à razão a sua própria energia ^.
As distracções, procedidas da contenda entre os seus e António de
• Barros (ibid., § CCKIII) oflerece a copia.
2 Se com justiça, claro é que nunca com profusão; e é evidente que sempre com
acerto.
' Veja-se Barros 1. IV, § CGVI pag. 473.
107
Sonsa de Menezes, as occnpações do encargo de visitador, e as moléstias
frequentes, se retardaram, não estorvaram inteiramente a diligencia de
apurar os sermões pai-a se darem á estampa. O segundo volnnie, que
sahiu impresso em 168:2, foi em juulio de 1681 licenciado peia religião no
collegio da Bahia : donde tiro, que o auctor o levava muito adiantado,
quando cinco mezes antes partira de Lisboa. Ao marcjuez de Gouveia na
frota de 168á dá c^uta de enviar o terceiro, que se publicou em 1683, e
a mesma conta dá do quarto em junho d'este ultimo anuo a Diogo Marchão
Themudo; se bem que o quarto se não publicou antes de 1683. Correram
entre a publicaíjão do quarto e do quinto quatro ânuos : porém não foram
quatro ânuos de suspensão d"este trabalho, pois que as duas partes, que
se intitulam Maria, Rosa wi/stica, e na serie dos sermões se contam nona
e decima, foram publicadas em 1686 e 1688. Em 3 de agosto de 1684,
promettia Vieira mandar o quinto volume por unia nau retardada do mesmo
anuo: mas pela ponderação de algumas circumstancias me capacito de que
elle entende, no dito logar, por quinto volume a primeira parte da Rosa
mi/slica, e que o que hoje se conta como quinto, designava António Vieira
com o numero de sétimo '.
O anuo de 1690 viu publicar o tomo sexto, e antes oitavo, com a
palavra empenhada e desempenhada. A publicação d'esla ultima obra não
se deveu a Vieira ; mas foi uma industria do duque de Cadaval, que a fez
estampar com a elegância, que é de ver no tomo decimo terceiro, sobre
uma copia, que talvez com aviso do andor se lhe communicou em grande
mysterio. Os tomos nono e decimo, agora sétimo e oitavo, foram impressos
em 1692 e 1694. Sahiu em 1696 o tomo undécimo e ultimo dos que se
imprimiram em vida de Vieira. O duodécimo, posto que o auctor o apurou
e poz no ultimo estado, não se estampou senão depois da sua morte; e
veio da Bahia no mesmo navio, em que veio a noticia d'este successo ^.
Foram por tanto as treze partes dos sermões revistas, ou, como elle diz,
joeiradas por António Vieira, e estampadas por seu arbítrio e mandado;
ficando só a ultima (volume decimo quarto) dependente, para a collecção
6 disposição, do zelo e arbítrio dos seus amigos.
» A carta citada é a XCIV do vol. II Com effeito se elle reputou V e VI os dois
tomos da Rosa myxtica, devia reputar VII o que agora se conta V: e é certo, que o
que na ordem da impressão corresponde ao que elle diz na carta, é o que agora se diz
parte IX, impresso em 1686, quando a carta é datada de 684.
2 Barros ibid., § CCXLIX.
108
Vinte annos e mais gastou Vieira em apurar e ordenar os sermões,
compreiíendidos em treze volumes *; espaço na verdade largo para tal
empresa, que justifica a relardação, que insinuámos, procedida de occu-
pações, desgostos, e principalmente moléstias. O clima da Bahia sobre
sadio para todos era muito apropriado aos annos e achaques de António
Vieira: mas não ha clima perfeitamente adaptado á velhice; ou por outros
termos, não ha clima, em que a velhice deixe de o ser. O da Bahia além
d'isso alterou-se nestes annos por causas exteriores; e supposto que Vieira
e seu companheiro escaparam ao contagio, é de presumir, que a alteração
despertasse, pelo menos, ou as moléstias habituaes, ou as morbosas pro-
pensões. Erysipelas frequentes, sezões com grande apparalo o tiveram em
cama em varias occasiões e por muito tempo. Duas vezes se estropeou
cahindo por escadas, como já lhe succedera em Roma. Os dois sentidos
da vista e ouvido embotaram-se quasi totalmente; e por fim nem podia
ler, nem ouvir ler; e nem mesmo entregar-se ás suas orações e medita-
ções pelo espaço e com a assiduidade do seu costume e do seu desejo ^.
Presidia comtudo um espirito inteiro ao corpo já meio desfeito; e nem o
ardor dos affectos e elevação de empenhos, nem o claro conhecimento de
seu ruinoso estado, diziam com o desbarato, aliás notório, de um corpo
quasi nonagenario.
Em 1694 sentia elle já a sua impossibilidade pouco menos que com-
pleta: e todavia quem consultar as suas cartas, escriplas desde o dito
anno, e conservadas no segundo e terceiro volume, observará o mesmo
affecto encarecido aos negócios de Portugal e seus domínios na Ásia e
America; achará noticia do voto sobre os Índios dos paulistas, offerecido
(e admirado) por aquelie tempo; e mesmo a noticia de que ainda preten-
dia continuar a Clave dos prophrias ^. Acabou só com o ultimo alento a
propensão de discorrer sobre politicas; e se na carta noventa e Ires do
terceiro volume, escripta em 16'J7, se pôde estranhar algum incenso diri-
gido á rainha da Grã-Bretanha ; também se pôde notar a gravidade e
acerto, com que pondera os eíleitos de paz dilatada, e os riscos, a que
1 Lidava em apurar o primeiro volume já em 1676, e oceupava-se com o duodé-
cimo no de 1697.
2 Barros 1. IV §§, CCXXXV, e CCXXXVI. Cum, molestissima lotii emissione, iionnisi
raptim in Sacello, et ad breve tempus morari posset. Andreóni. Veja-se not. 1, pag. 325.
3 Acerca do voto sobre os Índios dos paulistas, e da continuação da Clave dos
prophetas, podem ver-se as cartas CXLIV e CXLV do vol. II, ambas escriptas em 1695.
109
elles nas presentes probabilidades tinham exposto este reino. Politica
parece ser o assumpto valido de Vieira. A penetração e actividade própria,
o gosto da sociedade jesuítica e o do sen tempo, a necessidade, em que
se achara um português, que tinha aportado a Lisboa em IG41, e que
fora encarregado de negociações em varias cortes, Indo contribuiu para
produzir e reforçar esta inclinação, que Vieira nunca venceu, e que talvez
nimca pretendeu vencer; ainda que reconhecesse em algum caso a conve-
niência de dar aos outros satisfação do excesso, de que aqui podia ser
com bastante fundamento censurado *.
O claro conhecimento do seu estado ruinoso não pôde pôr-se em duvida,
depois da resolução que elle tomou, e quanto esteve da sua parte executou,
de concluir no dito anuo de 1094 as suas correspondências para o reino.
D. Theodosio, irmão do duque, era fallecido desde U)7á, e D. Rodrigo de
Menezes desde 1675. Mas com o marquez de Gouveia, até que morreu em
168G, com o duque de Cadaval, Ghristovam de Almada, o conde da Cas-
tanheira, Roque da Costa Barreto, seu irmão o cónego Francisco Barreio
e Diogo iMarchão Themudo íicou conservando communicação annual por
cartas. Communicava-se também com o celebre conde de Castello Melhor,
o mesmo ministro e valido del-rei D. Affonso VI, que o fez desterrar
para o Porto e Coimbra, e por ventura o fez deter nos cárceres da Inqui-
sição; e são de notar os termos de confiança, com que o conde o tratava
nas suas cartas, e a devoção, com que Vieira lhe correspondia : verificando
ambos exactamente o provérbio discreto dos ingleses, que os políticos nem
amam, nem aborrecem *. De todos elles se mandou pois despedir em carta
circular, como quem se reputava sem capacidade para proseguir, e tão
vizinho dos limites da eternidade, que não devia admittir já cuidados ou
memorias próprias só da vida caduca, que a cada instante esperava total-
mente extiocta '.
O intento de Vieira por esta circular era desobrigar-se de correspon-
der, e desobrigar lambem os correspondentes. Mas não o logrou com
' bem conheço, senhor, que esta matéria não é da minha profissão, mas como nos
incêndios, e nos outros apertos e necessidades geraes, neniium estado é iseiUo, utc. Carta
LXXXV do vol. III escripta ao duque de Cadaval.
» Vejam-se as cartas CVI, CXXXII e CXXXV do vol. II. Os conflictos procedem
da collisão dos interesses, e cessando elia, o coulliclo não tem niaislogar: os políticos
fizeram sempre a guerra, como presentemente a fazem os generaes da Europa.
' A circular é a carta CXLU do vol. II.
HO
alguns d'elles. Houve quem usasse a delicadeza de escrever logo ao seil
companheiro o padre José Soares; querendo continuar por este modo o
trato, que Vieira se propunha interromper por outra via. O duque de
Cadaval porém não só escreveu directamente a Vieira, mas declarou, com
as expressões mais próprias a obrigá-lo, o seutimento de não ser exce-
ptuado da despedida, como intendia que era devido á finura e constância
da sua amizade '. Estes extremos do duque e as delicadezas de outros
fazem grande honra ao caracter dos correspondentes, e não fazem menos
a Vieira; pois que só do conceito de um merecimento muito acima do
vulgar podiam proceder tão finos comportamentos, da parte de pessoas de
tal importância, para com um jesuíta nonagenario, retirado em um canto
ignorado e deserto de regiões separadas pela immensidade do oceano. Não
era possível a Vieira repulsar as pretensões extremosas do duque, e con-
tinuou assim a escrever-lhe e ao seu secretario até ao ultimo anuo, e ainda
ultimo mez da sua vida.
Um anno antes se tinha elle recolhido para o collegio da Bahia, dizendo
adeus à quinta do Tanque. Não era seu fim neste recolhimento buscar saúde,
nem vida, senão um género de morte mais socegado e quieto 2. A isto se reduzem
as maiores esperanças terrenas do homem, que por annos ou por achaques
se suppõe chegado ao ultimo termo! Com o vigor se têm desvanecido os
phanlasmas, que dantes o illiidiam e o desvelavam; e então reconhece,
que puerilmente correra por abraçar meras sombras, que ao desfazerem-se
só deixam a confusão do engano. E verdadeiramente que se a justa espe-
rança de immortaiidade não sustentasse o animo de um decrépito, que
conserva algum uso de intendiniento, a vergonha das vãs lidas antece-
dentes, a desconsolação acerbissima de ficar todo na terra de um sepulchro,
accrescentariam cruel intensidade ás lentas e comludo vivíssimas agonias
de morte vagarosa. E eis aqui um dos muitos casos, em que a religião é
remédio, e remédio único, dos males de uma espécie, cuja essência, como
a prática e especulação convencem, prende com os sublimes dogmas da
vida futura, ~e de um Deus remunerador. O homem seria, sem religião,
' Veja-sc uma carta do duque, que no vol. III se segue á LXXXVI de Vieira: e
sa carta CXLV do vol. 11 se acha a noticia dos que sobre a circular de despedida llie
escreveram, ou directameute, ou por via do padre José Soares.
2 Veja-se a carta LXXXVI do vol. III, a 3 de jullio de iG96, dirigida ao jesuíta
Balthazar Duarte.
111
desde o dia, em que nasce, até âquelle, em que se dissolve, o menos
ditoso dos animaes, e também o mais maligno e o mais turbnlenlo.
Entre os braços da religião, alentado com o poderoso couforlalivo dos
seus remédios, e na consoladora conQauça de suas promessas, acabou o
padre António Vieira na primeira hora do dia 18 de jullio de 1097, aos
oitenta e nove ânuos e seis mezes completos de cdade. No antecedente
estado de prostração e de soflrimento ainda dictava aos amanuenses, tanto
para pôr em limpo o duodécimo volume dos sermões, como para adiantar
a Clave dos prophelas '. Foi detido em princípios de julho por dores agu-
díssimas, que a medicina ainda se lisongeava de remediar; mas a condição
do sujeito já não podia ajudar os esforços da medicina, e a um apparente
e passageiro allivio se seguiu maior arrojo, que trouxe comsigo a morte.
A estimação, em que era lido geralmente, appareceu nas honras fune-
raes. O governador e capitão-general da Bahia D. João de Lencastre, por
seu cargo e por sua pessoa uma das maiores de Portugal, o filho do go-
vernador, o bispo eleito de S. Thomé, e outros sujeitos, que melhor se
podiam ajustar com os três primeiros, conduziram á sepultura o cadáver, e
só faltou, por impedido de moléstia grave, o arcebispo da diocese^. E a Bahia,
que tinha presenciado com indignado i eparo as desattenções de Aulonio
de Sousa de Menezes, viu com alta approvação emendado aquelle erro pela
bizarria de um dos seus successores, verificando-se á risca o profundo e
acertado dictame, que se o merecimento c algumas e muitas vezes desaltendido
na presença, sempre com tudo vem a ser honrado na ausência dos que o
possuein.
A nobreza de Portugal não se mostrou em Lisboa mais indifferente á
memoria de Vieira. Ao chegar no principio de novembro do dito anno a
noticia do seu fallecimento, resolveu fazer-lhe exéquias sumptuosas um
mancebo do melhor do reino; que por seus talentos era já uma das es-
peranças mais bem fundadas da nação, e que depois por seu ardente amor
da gloria, por suas diligencias e trabalhos, foi o mais eíDcaz restaurador
das letras, e um dos nossos mais esplendidos ornamentos naquelle tempo.
* Barros, 1. IV, § CCXXXVII, e Andreóni, na vida de Vieira, escripta em latim, que
se acha no vol. XIV dos sermões, pag 293.
* Veja-se Barros, ibid. §§ CCXLV, CCXXVI, e Andreóni 1. c D. João de Lencastre
era filho de D. Rodrigo de Lencastre, commendador de Coruche, e foi capitão-general
e governador de Angola, e depois da Bahia, desde 1G94 até 1703.
ií2
Na igreja de S. Roque se levantou mausoléu soberbo, e dissefam com
elle as mais circumstancias de apparato; correspondendo tudo á larga e
honrada fama de Antoniu Vieira, e ao grande coração do quarto conde da
Ericeira D. Francisco Xavier de JVIenozfs *. No dia aprazado, que foi 17
de dezembro seguinte, com um numeroso e luzido concurso do reino todo,
junto uaquella occasião em cortes, celebrou a missa o bispo de Leiria
D. Álvaro de Abranches e Gamara, e disse por fim a oração fúnebre o
theatino D. Manuel Caetano de Sousa, um dos portugueses mais acredi-
tados de doutrina da sua edade. Trinta e três annos depois durava ainda
bem viva a opinião egrégia de Vieira, e a lembrança de suas exéquias,
celebradas no templo de S. Roque ; e uma e outra estimularam o grandioso
animo del-rei D. João V a mandar, que se imprimisse a oração, recitada
por D. Manuel Caetano de Sousa-: approvando por este modo o nobre
eathusiasmo do conde da Ericeira, e honrando o nome de um português
insigne, que no reinado seguinte devia ser calumniado e envilecido; mas
a que, sem embargo das calumnias do ódio, não deixará de fazer justiça
o conceito de remota posteridade.
Temos referido com a maior exacção, que nos foi possível, a historia
do padre António Vieira: largamente copiosa em successos, e não menos
vária nas empresas e fortunas ; para a philosophia do homem muito instru-
ctiva, e por sua mesma cópia e variedade até muito entretida, a não lhe
obstarem os vicios e defeitos da nossa relação. Na dilatada carreira de
mais de oitenta e nove annos, com extraordinária e constante actividade,
com diversos e grandes talentos para a cultura das lettras, para os negócios.
1 Barros, ibid., CCXLIX até CCLXI. O quarto conde da Ericeira, então de 23 annos
annos de edade, era fillio de D. Luiz de Menezes, auctor do Portugal Restaurado. Des-
aggravou Vieira das censuras, cora que seu pai o notara na historia, e a que Vieira
não foi de todo indilTerente, como é claro das cartas, e em particular da CXVIII do
vol. II e CXII do mesmo volume. Ouvi, diz elle nesta ultima, que a historia de V. E.
me louvava com descrédito, ou me desacreditava com louvores, e porque eu depois que
fugi do mundo, tão pouco estimo uns, como sinto os outros, contentei-me com que estas
noticias me entrassem por um sú sentido, e este foi o motivo do que o senhor marquez das
Minas e o senhor eonde de Alvor referiram a V. E.
2 Veja-se André de Barros, liv. IV, § CCLXI. A oração foi impressa em 1730, e
cl'ella nos servimos para a conlii'mação do alguns factos.
113
para o serviço da religião e da igreja, offerece na sua vida avultada silva
de acoiilecimeiítos, que não podem, ainda apenas indicados, comprehender-se
em breve escriptura. Não será muito estranha exageração dizer, que poucos
principes reinantes, poucos generaes insignes com nmitos annos de milícia,
poucos ministros creados e encanecidos na direcção e governo dos estados,
talvez nenliem homem de letlras, terão deixado á diligencia do seu his-
toriador mais crescido numero de factos, nunca desprezíveis, quasi sempre
graves, e algumas vezes muito relevantes.
E se isto só nos pode justamente admirar, muito mais nos admiraremos
na consideração de que nunca deu aos estudos applicação bem aturada;
de que aos negócios diplomáticos renunciou ainda antes de tocar o meio
da sua vida ; de que |)ara as empresas religiosas foi detido na edade juvenil,
e depois atalhado ou impedido quasi no primeiro fervor do seu empenho;
e finalmente de que graves moléstias e desgostos o tiveram nos últimos vinte
annos, como captivo em uma solidão campestre; onde se occupou em
pouco mais do que pôr em limpo os seus sermões, e continuar uma obi'a,
que ou se perdeu, ou jaz ignorada, e certamente não saiu a publico pela
impressão, e nem sequer recebeu do auctor o seu ultimo complemento *.
Se esta abreviada historia não fez ver o seu caracter, a ella se deve
dar em culpa ; pois que só guarda bem as suas leis, quando representa
com verdade e com propriedade os successos, e mostra por elles as Índoles
e propensões dos homens. Porém seja ou não seja nesta parte defeituosa,
o leitor não pôde levar a mal, que se dè allivio á sua attenção, ajuntando
os traços por toda a historia dispersos, e oíTerecendo a um só golpe de
vista a imagem inteira, em que reconheça unido o que nas partes notou
em separado : logrando ao mesmo tempo a satisfacção de ver justificadas
as próprias observações e a facilidade de avaliar a exacção do nosso pa-
recer.
O espirito de António Vieira era agudo e promplo; mas o seu coração
era pouco sensível. .V sua firme adhesão à sociedade dos jesuítas não pa-
rece tanto procedida de amor, como de propósitos honrados. Discursou,
trabalhou com anciã pelo bem da pátria ; porém, com ser o seu amor da
pátria indubitável, parece aqui mais obrigado do desejo de realizar e con-
sagrar suas idéas politicas, do que dos aflectos ardentes e puros de ci-
• A Clave dos Prophetas ficou incompleta. Veja-se a esle respeito Andreóni, vol. XIV
dos sermões de Vieira, pag. 294.
Il4
dadão. Subjugou iielle e governou todas as outras paixões o gosto da
singularidade ou o desejo de ser uuico em pensamentos e acções, não só
superior; e d'ai]ui cuido que resultaram muitas das suas conlradicções,
que não foram poucas, nem [)eqiienas.
Não temos noticia de algum seu pai ticular amigo, salvo se reputarmos
tal o seu copista o padre José Soares ; porém se nos inclinamos a crer,
que_José Soares era amigo verdadeiro e desvelado de Vieira, não o julgamos
perfeitamente correspondido '. Em três volumes das suas cartas não lia
uma só, que nos pareça dictada por cordial amizade. Recebeu com estóica
indilferença a noticia do naufrágio de sua irmã com toda a sua familia ^ :
e se mostrou grande sentimento dos desgostos e trabalbos de seu irmão
e sobrinlio, não parece tanto ser efifeito de ternura, como do estimulo de
se vêr nas suas pessoas desauclorisado e abatido.
De incoherencia e conlradicção deixou argumentos muito reparáveis.
Amava com paixão a gloria, e não fazia grande caso dos applausos: lison-
jeava-se das attenções e caricias dos príncipes e senhores, e deixava facil-
mente e sem saudade as cortes: empenliava-se no mundo luzido, com desejo
e arte para nelle representar com distincção, e quando elle parecia cor-
responder-llie melhor, trocava-o por um deserto nas ribeiras do Amazonas:
era vario emfim e inconstante, e deu, entre outros, dois insignes exemplos
de perseverança, cm que fallaremos logo; um dos quaes me parece admi-
rável sobre tudo o que se pôde admirar no sujeito e comportamentos d'este
homem extraoadinario.
O desar porém, que pôde provir de um coração menos brando, de
affectação de singularidade, e das conlradicções, que julgo nascidas d'este
principio, foi corrigido ou remediado no caracter de António Vieira por
dotes e qualidades de miiila estimação, que não devo passar em silencio.
Uma única vez se atreveu a calumnia a notar os seus costumes; e foi le-
galmente desmentida ^. Se era des|)egado e secco, todavia não consta que
fosse ingrato. Se da valia própria tinha grande conceito, não lia razões de
' O padre José Soares, jesuíta, natural de Lisboa, nasceu em 1625. Foi compa-
nheiro inseparável de Vieira e seu amanuense por espaço de 42 aniios, ao menos.
Sobreviveu-llie dois annos, ou perto d'elles, dando os mais decididos argumentos de
saudade extremosa. Teniio para mim que Vieira, se llie sobrevivesse, faria menos ex-
tremos.
í Barros, 1. V, §§ LXVI e LXVII.
3 Barros, 1. III, §| XVII e seg.
115
o ter por anogante. Sempre e finamente fiel á sua crença, egual fidelidade
guardou em todo o caso ao seu insliliilo. Mostrou gravidade propriamente
varonil nas idéas e acções de todas as edades da vida ; de maneira, que
se alguma vez pareceu reparavel, não se assignará occasião, em que pare-
cesse pequeno. Nos perigos portou-se com valor; dos trabalhos nunca
pareceu cansado, e muito menos rendido: as contrariedades do mundo, os
rigores da fortuna, só em um lance o deixaram prostrado; mas é verdade
que então lhe sobejava motivo de queixa, e por elTeito dos annos e acha-
ques lhe faltava grande parte da sua natural energia '.
De um voto (vindo agora aos exenii)los indicados de perseverança) feito
na maior verdura e inconsideração dos primeiros annos, e logo annullado
pela prudência dos que respeitava como altamente intendidos, conservou
sempre a memoria e a sui)slancial tenção de lhe dar cumprimento. Correu
tempo e largo tempo; viajou Vieira por diversas regiões; tractou e co-
nheceu grande mundo, e muito \.iriii; occupou-se, e com muito séria ap-
plicação, em negócios, do seu voto bem alheios ; foi divertido em contrario
por poderosas distracções, tentado cora commodos e applausos, alliciado
por esperanças lisonjeiras: mas durou firme a sua resolução de peregrinar
por brenhas e inattos virgens, dado unicamente ao ensino de homeus boçaes,
e á consolação de miseráveis escravos. Venceu, para a pôr em prática,
fortes obstáculos com a mesma ellicacia, brio e até artificiosa industria,
que pôde empregar um mancebo ardente para possuir o objecto da sua
liaixão impetuosa -. Illudido. atalhado, repellido, atlrontou inimizades, em-
I)rehendeu viagens, solTreu naufrágios, provou crua rapacidade de piratas;
e não duvidou expõr-se de novo aos mesmos ou maiores desastres, á
mesma destemperança de climas, á mesma aspereza de terras, para iuclar
oulia vez com a ignorância estúpida de selvagens, e com as mesmas in-
gratidões, injustiças e aleivosias dos homens, que sem duvida reputava
inseparáveis companheiras do seu projecto tão valido.
Este notável exemplo de perseverança é com tudo ainda excedido pelo
da illustre firmeza na religião catholica, cm que foi educado. Um espirito
tão vivo e subtil, tão prezado de si mesmo, parecia naturalmente disposto
• Vieira passava de "(í annos, quando por seu sobrintio Gonçalo Ravasco teve no-
ticia das expressões de desagrado proferidas por el-rei I). Pedro II.
* Alludi'-se ii grande diligencia e mesmo astucia, com ijue procurou embarcar
para o Maranhão,, contra a vontade e ordem d'el-rei D. João IV, da rainlia D. Luiza, e
do príncipe D. Theodosio. em I6'ó±
H6
a passar com nlrevimento os limites, que a fé tem assignado á razão
humana. A sua singularidade era pelo menos muito arriscada a deixar-se
tentar da satisfacção e gloria de novos systemas, a que elle sabia bem pro-
curar fundamentos especiosos e dar as mais plausíveis apparencias de ver-
dade. Mas conteve sempre á risca a su;i subtileza; sujeitou invariavelmente
o próprio orgulho; a propensão à singularidade, a que se entregava em
quasi tudo, sacrificou sempre com primoroso e intendido obseijuio ás de-
cisões e máximas da sua igreja. Esteve em França e Inglaterra; viveu em
Hollanda ; leu os seus livros, examinou as suas opiniões, observou os seus
usos, conferiu com os seus doutores; e nenhuma destas occasiões foi po-
derosa a desvial-o de qualquer dos pontos menos importantes da primeira
crença. E oque é mais que tudo, notado em suas idéas e discursos, impugnado
em suas apologias, repreheudido, condemnado por temerário: defendeu-se,
em quanto lhe foi licito, com respeito ; resignou-se por lim com submissão
de catholico; e sobre as matérias controvei'lidas guardou depois inviolável
silencio com moderação de verdadeiro sábio.
Se o caracter de António Vieira, com ser insigne e estimável, não foi
perfeiío; o seu talento, bem que raro e sublime, não foi completo. A in-
tendimento estupendo, a memoria felicíssima, não se ajuntou poderosa
phantasia e a imaginação rica e suave, que tudo pinta, tudo anima, tudo
torna interessante ou com viva propriedade de cores, ou pelo grave mo-
vimento e vida das imagens, ou [)or mimosa brandura de affectos *. A
comprebensão era vastíssima, a elevação ou profundidade eram, soíi'ra-se
um termo encarecido, immensas, a rectidão e coherencia e até a promplídão
eram realmente admiráveis. A todos os objectos, a todas as matérias
abrangia, como disposto e preparado para todas. As mais remontadas
questões sabia, sem lhes diminuir a aiicloridade, pôr ao alcance fácil dos
ouvintes e leitores; as mais profundas sabia tirar do seu abysmo e fazer
accessiveis ao conhecimento vulgar; as mais escuras sabia trazer á con-
veniente clareza, as mais empeçadas sabia dispor em ordem bem natural
e desimpedida. Ainda quando refinava ou se guindava em raciocínios,
quando desenvolvia metaphysicas, quando explicava mysterios, tudo era
intelligivel e plano nos seus discursos e escriptos: prova segura de que
• Vieira euc;imialia-se ao intendimento sempre; ao coração quasi nunca, ou com
pouco eITeito. Apertar, convencer era o seu dom; mover fortemente e ainda deleitar
por aíTectos não sabia. Nisto era parecido com Bourdaloue, a quem eu supponho que
elle poderia emparelhar, se não exceder.
117
tudo alcançou como era necessário, tudo propunha sem confusão, tudo
declarava com adequada conveniência '.
No pasmoso progresso desde a primeira edade, ua antecipação aos
ânuos e á doutrina das escliolas, no mesmo arrojo temerário a obras gra-
víssimas, ainda dentro ou qnasi dentro dos limites da puerícia, se conhece
a promptidão e fecundidade de seu espirito. Porém torna-se evidente com
assombro, quando se observa o numero e facilidade de suas composições,
o disparatado dos assumptos, a variedade, com que manejou o mesmo
assumpto por muitas vezes, a subtileza dos recursos, o engenhoso das
soluções, o improviso e inesperado das coartadas. Pôde ser arriscado, e
quasi sempre é impertinente aquelle espirito, que não recusa paradoxos,
que os segue por vontade, que os sustenta com apparencia; mas nunca
pode ser lardo. E uem com este argumento de promptidão nos faltou o de
Autonio Vieira. Deixando o duello, que o levou a compor a preeminência
das lagrimas de Heraclito; os seus sermões abundara de paradoxos, que
segue sem coacção, e que sustenta com engenho: e d"alguns delles se
aproveitou para o accusar a inimizade, qunndo lhe pareceu que era tempo '^.
Não os condemno no mesmo sentido, em que a inimizade; porque os não
julgo merecedores de tão séria imputação: mas também não os louvo.
Reprovando com tudo sophismas, posto que mantidos com destreza, sou
obrigado a confessar a promptidão maravilhosa do sophista.
Parece, que cora o gosto e até frequência de paradoxos se não pode
conciliar b"m a rectidão e coherencia de intendimento, que eu disse que
admiro em António Vieira. .Mas advirta-se que o gosto de paradoxos não
era em Vieira natural, era facticio. Torcido pela opinião do século, esti-
mulado pelo desejo da fama, allucinado pelo mesmo successo, abusou de
um intendimento preparado para melhor ap|)licação. A prova sem replica
é, que todas as vezes que fallou ou escreveu sem o propósito de satisfazer
a ouvidos corruptos, e de grangear o applauso de juizes subornados pelo
mau gosto dominante, não fallou e escreveu mais que razão apurada, pro-
posta em todo o caso com decoro ^ Elle era o primeiro que conhecia e
1 Xão ha uma composição de Vieira, que não mostre muita capacidade de inten-
dimento, sufflciente ordem, e expressão clarissima dos seus conceitos.
* Da sentença contra elle proferida na Inquisição de CoimJjra consta, que foi lam-
bem delatado de alguns d'estes paradoxos : v. g. que os lioitmis sãn inimigos e tentadores
peores que o demónio: emiirésa do sertnão XI, vol. I.
' É o que se vè claramente nas cartas e papeis de negocio. E o mais é, que nas
cartas, ainda respondendo ao secretario do duque de Cadaval, que inclinava muito
118
por veutura motejava das suas paradoxaes empresas. Se alguma vez as
defendeu em occasião, que re(|iieiia maior sinceridade, guardemo-nos de
confundir o real conceito de um liomem com o que elie sustenta empe-
nhado em viva disputa por capricho, uu levado da natural inclinação para
repulsar imputações menos airosas: e muito principalmente quando possue
um espirito fecundo em recursos e proniptissimo em evasivas, como era
sem duvida o de Vieira. Ostentava oiro falso, não por desconhecer que o era,
mas sim porque tratava com quem, sem admittir desengano, o preferia ao
verdadeiro. E se por isso se pode notar de demasiada condescendência,
não pôde todavia condemnar-se de erro ou de má fé.
Em prova da coherencia hasta notar, que nos discursos e escriplos de
António Vieira não ha lacunas, não ha saltos. Tudo prende entre si, tudo
se continua de um modo, que ás vezes parecerá superQuo *. E esta o,
entre outras razões, a razão da sua perspicuidade, que não pôde ser ex-
cedida, e por poucos tem sido egualada. Nos princípios, que assenta, po-
dereis pôr duvida ; e em muitos e muitos casos, ou para melhor na maior
parte d"elles, tereis razão: mas se por um descuido, ou por condescen-
dência, deixais de o atalhar desde logo, a occasião é perdida sem remédio,
a sua victoria é infallivel. Elle os joga segundo as regras mais rigorosas,
e colhe resultados, que o intendimento mais exacto deve ter por necessários.
O seu paralogismo nunca pecca senão nas premissas do raciocínio; estas
cria a seu prazer, ou antes ao dos ouvintes e mais circumstancias : mas uma
vez creadas, o parologista desapparece, e fica unicamente o lógico previsto
e incorruptível, a que o fio jamais escapa das mãos, e que jamais llie con-
sente desviar-se um só ponto da sua direcção verdadeira. Se em occultar
o defeito dos fundamentos não pôde o sophista ser muito sagaz, na cohe-
rencia e rectidão, com que argumenta depois, ostenta uma sinceridade,
que ou nos preoccupa em seu favor, ou nos obriga em certo modo a
perdoar-lhe o defeito dos fundamentos.
A erudição, que adornava este espírito raro, não deixava de ser avul-
para o gosto do tempo, Vieira não se deixa tentar, por mais que o estylo e o desejo dn
correspondente o estimulavam. Apenas uma ou outra pennada por conformidade e de
pura cortezia.
> Sem damuo da inteireza e clareza do discurso se podem supprimir algumas
idéas, e em particular certas repetições. O uso geral o admitte, e a discreta concisão
o requer. Mas o discurso de Vieira é tão seguido, que antepõe, peio comnium, alguma
prolixidade.
119
lada '. O seu conhecimento das Kscripturas era profundo; o das obras dos
padres e da historia ecclesiaslica era vasto. Conhecia bera a Ihcologia da
sua egreja, a philosophia do seu tempo. Não parece hospede na liistoria
dos povos antigos; e muito menos na dos modernos da Europa. Os me-
lhores clássicos romanos, c particularmente Virgilio, Tácito e Séneca,
mostra tratar com grande familiaridade; c dos portugueses, tanto em verso,
como em prosa, mostra noticia cabal, e até i»ronipta memoria. É verdade
que a sua doutrina, supposta a felicidade de talentos, larga vida e iniciação
desde logo em estudo de leltras, poderá ser maior e sobre tudo mais
escolhida e critica: porém alteudendo ás occupações e distracções con-
tinuas, admira que fòssc tamaidia ; e atlendendo ás opiniijes dos portu-
gueses e em particular dos jesuítas contemporâneos, o defeito de escolha
e de exame mais rigoroso facilmente se desculpa. A vida de Vieira, muito
mais depois de 16iO, foi antes de um diplomático e de um missionário,
que de um litterato: e a critica, com ser a esse tempo no resto da Europa
muito comedida, reputava-se ainda entre nós perigosa temeridade.
Na philosophia da natureza astronómica (e é de crer que também da
subhinar) padeceu Vieira o mesmo defeito e pelos mesmos motivos. As
opiniões antigas, resusciladas por Copérnico, e condemnadas em Itália, dá
elle em um dos seus discursos por bem condemnadas, por isso .mesmo
que encontram as supposições das santas Escripturas '. Não faltará quem
d'isto o reprehenda com rigor, como não falta quem moteje dos inciuisi-
dores de Florença, que arguiam e castigavam Galileu de ler achado a irr-
dade. .Mas em tal caso, a prudência deve antes lastimar-se da condição
mofina do género humano, do que rir de juizes, que qualquer de nós
imitaria, se o fosse nas mesmas circumstancias. Preoccupações de séculos,
ajudados fortemente pelas apparencias, de accordo com o theor dos livros
sagrados, não eram obstáculo pequeno ao acolhimento de uma theoria,
que posto que verdadeira, era estranha; e que não só não podia ser pro-
fundada sem algum trabalho, mas até não podia ser altendida sem escrú-
pulo. Quem julga juizes pelas idéas do tempo do julgador, e não pelas do
' CoDhece-se bem pelo trato das suas obras. Alguma vez tem clle a fraqueza de fázor
ostentação v. g. no vol. Vil, sermão V. Ostentação pueril! em que caem raramente as
pessoas bem doutas: e que prova tão pouco, que eu duvidara da doutrina de Vieira,
por isso mesmo que em certos casos a ostenta, se outros argumentos me não certifi-
cassem que a possuía.
* Veja-se o sermão VI, vol. V % Vil.
120
tempo d'elleSj tia a ver, que no seu logar commetteria cerlamenie o mesmo
erro: e contra similhantes motejadores é que foi arremessado com tanta
justiça, como engenho, aquelle pungente traço, zombas de uma fabula, rjtie
é comtudo a tua própria historia *.
O conceito, que aqui offerecemos, da doutrina de Vieira a ninguém
pôde parecer exaggerado; e o dos seus talentos lambem o não deve pare-
cer a quem tem algum trato dos seus escriptos. Ou se perdeu, ou se con-
serva ainda manuscripta em poder dos curiosos, boa parte dos que elle
compôz: mas bastam para o avaliar bem ao justo os que correm impres-
sos: 8 que se reduzem a cartas, opúsculos pragmáticos, obras históricas
e sermões 2. Daremos conta de todos, seguindo'esta mesma ordem.
A formosura do estylo epistolar, parecendo fácil de conseguir, não é
todavia como parece. Depende de um descuido curioso, de uma desaffe-
ctação considerada, que nos termos são de algum modo repugnantes, e
que em prática se realizam muilo poucas vezes. A negligencia produz
desordem, impropriedades e talvez um rasteiro intolerável; apurado em-
penho communica-lhe um ar de trabalho e de violência, indica pretensões
muito pouco opportunas, tira a liberdade e facilidade, em que principal-
mente consiste a graça e doçura da conversação. Uma pessoa pouco culta
não pôde escrever bera uma carta : mas a que o é muito, deve esque-
cer-se, quando escreve, da sua doutrina, para se entregar toda ao impulso
das circumstancias. Tudo deve correr da penna sem esforço e com fran-
queza ; mas a penna deve estar de antemão bem aparada, e disposta para
guardar indefectivelmente as leis discretas do decoro.
Este aparo porém e disposição ao decoro é que difficultosamente se
concordam com aquella franqueza e descuido. Assim é rara a excellencia
neste género! E verdadeiramente eu não reconheço aqui modelos acabados,
senão as cartas de Cicero, entre os antigos, e as da marqueza de Sevigné,
entre os modernos. Deixando as cartas de Sevigné, absolutamente incom-
paráveis por muitas razões ^ : as de Cicero correspondem perfeitamente
1 . . . Quid rides? mutato nomine, de te
Fabula narralur (Horat.)
* Sempre ouvi, que correm iucditas varias obras de Vieiía. Seria Imm que hon-
rada diligencia as ajuntasse e as fizesse imprimir. Mas nesta empresa corre-se muito
risco de ter por sen o que o não é : e para o evitar requer-se critica bem aguda e bem
segura.
5 Aquella reunião de talentos próprios da pessoa e do sexo, de cultura e bom
121
ao padrão ideal, que nos temos formado. Tudo nellas é nalural, tudo cor-
rente; mas tudo a seu modo elegante, e sempre apropriado. Sente-se que
foram escriptas sem estudo; mas por um homem de grande engonlio, de
abalizada sciencia, e consummado na arle de escrever. Não lhe ficam em
muita distancia as de Antonie Vieira. O decoro constante, a especial ele-
gância dão-se as mãos cora a franqueza e facilidade. As familiares de
Cicero têm graças próprias, léni um picante agradável, que não se acham
em Vieira; porém de Vieira não possuimos carias, que se possam chamar
familiares no rigor da palavra. E nas que, ou pela qualidade das pessoas,
a quem se dirigem, ou pela substancia dos negócios, são mais parecidas,
não sei se dados os descontos dos sujeitos, que escrevem, e das circum-
stancias, poderá notar-se avultada desegnaldade.
Todos os portugueses intendidos as tiveram sempre em subida esti-
mação. Os contemporâneos as procuravam e guardavam cora a diligencia
merecida de escrijilos de grande preço. Os dos primeiros annos do sé-
culo XVIII propuzerara-se a honrar e instruir a nação, daudo-as a ler ao
publico: entrando nesta conta, ou tendo na estampa a parte principal o
douto conde da Ericeira; que na veneração ao anctor não mostrou em
annos muito adiantados menos ardente enlhusiasmo, do que mostrara na
verdura da edade. E os do tempo seguinte, ainda que em outros muitos
pontos não duvidassem afastar-se da opinião do conde, têm aqui sem dis-
crepância concordado com elle. Do que o conde diz no prologo do primeiro
volume se infere, que Vieira escreveu outras cartas menos nattiraes ou
mais artificiosas, que o collector se guardou de publicar, e isto era bem
de presumir, olhando para c gosto do seu tempo e para a sua condes-
cendência em lhe fazer sacrifícios: mas por um lado, eis aqui uma prova
de que Vieira por sacrificar ao corrupto gosto alheio chegava na prática
a perverter o próprio; e por outro lado, é sempre certo, que entregan-
do-se meramente ao seu juizo, escreveu cartas primorosas, em que temos
goslo, de trato na mais urbana c delicada de todas as cortes, do eorrespondente oní
clrcumstancias perfeitamente as mesmas, de peculiaridade de negocies; a(|uella reu-
nião, digo, foi coisa única, e a collecção, que d'ella procedeu, também o devia si-r: não
admilte portanto comparação. Sejam as cartas de Cicero estimadas dos curiosos e
amadores do estylo são e próprio; que as de Sevigníí hão de ser sempre lidas com
prazer por todos. As de Vieira, que nas virtudes emparelham as de Oirero, ou pouco
menos, também ficam abaixo das de Sevigné na delicadeza e nas graças.
122
os portugueses, na presente edição, muito avultado numero de perfeitos
exemplares *.
Maior direito, se é possível, tèm ainda a ser reputados [)erfoitos exem-
plares os seus opúsculos pragmáticos. A conveniência e até a necessidade
convidam e chamam ao acerto nesta qualidade de escriptos: comludo não
são vulgares os que podem satisfazer um gosto bem apurado *. Ou os
auctores não lém acabada noção da matéria ; ou não tèm capacidade para
a compreliender de um golpe de vista no seu todo; ou lhes falta o dom
de a proporem na forma menos complicada e mais luminosa; ou vencidos
de seus ruins hábitos de escrever, empregam também neste caso o estylo
diffuso, empeçado, e por outras varias vias impróprio. Resultam d'aqui
necessari;imente imperfeição da matéria proposta, enfraquecimento das
suas razões, difficuldade de a intender, tédio, desgosto, e emlim desprezo
dos escriptos, que a oíTerecem: e é claro que tal resultado è o contrario
justamente do que desejam e esperam os escriptores. Vieira, que alcan-
çava o que a(iui convinha melhor, linha também a maiiir facilidade de
comprehender, insigne dom de propor com toda a luz, e a força de ven-
cer hábitos de escriptura viciosos.
É bem para notar com effeito em todos e qualquer d'cstes opúsculos
o cabal conhecimento da matéria, a justeza e disposição das partes, a
perspicuidade do todo, e o judicioso do estylo, em que são lançados. Ne-
nhuma razão de serviço escapa ; nenhuma duvida deixa de se encarar e
dissolver, ou ao menos especiosamente illudir. A ordem, por discreta e
sempre natural, satisfaz ao leitor, facilita a inlelligencia, accrescenta a
* A presente eiiição tem muitos defeitos, que nasceram da diversidade e circnm-
stancias dos editores. Além de lhe faltarem as cartas, que André de Barros publicou
na sua historia; das que contém, algumas são repetidas, outras tém datas erradas, e
(juasi todas estão fora da ordem do tempo. Um português zeloso faria muito bom ser-
viço em dar outra edição menos volumosa, sem deixar de ser elegante, e isenta dos
defeitos apontados. Até se remediaria com isto a raridade do III volume.
2 Com o melhoramento da litteratura, entre nós, foi diminuindo (o que parece
estranho) o acerto e gravidade dos papeis pragmáticos; de tal sorte, que ijuantú mais
se chegam ao fim do século passado, tanto são menos estimáveis. A razão é porque nos
dêmos, com mais boa tenção do que advertência, á imitação nmito servil dos estran-
geiros, e principalmente franceses; cujo hom gosto no mais já declinava, e neste ponto
estava muito estragado. Em todos os tempos porém papeis d'este género tão perfeitos
como os de Vieira foram raros.
i23
valentiíi. Os ornatos excluem-se; não ha digressões ou largas ou inúteis;
não ha palavras sobejas; não ha em summa mais, do que boa razão, ofTe-
recida com propriedade, perfeita clareza e gravidade '.
O talento, a actividade, e a mesma propensão, novamente o dizemos,
chamavam António Vieira para os negócios, e em particular para os negó-
cios políticos. A epocha, em que elle tocou a primeira vez as praias da
Europa e de Portugal, llie oíTerecia grande exercício, e promettia um
progresso, que suppostas as disposições tão accommodadas, devia ser
agigantado. Mas uma astúcia dos jesuítas, ou um cntliusiasrao desculiiavel
na puerícia, ou ambas as coisas juntas, o torceram da própria direcção; a
inconstância e singularidade, ou piedoso capricho o desviaram muito mais.
Empenhou-o o seu Instituto no exercício do púlpito, e não foi consummado
orador: piedade singular o levou como missionário aos sertões do Mara-
nhão, 6 os fructos não corresponderam á grandeza dos projectos e aos
trabalhos enormes da empresa. Por desvios emllm pouco discretos e muito
communs á condição humana (desvios, digo, da conformação e inclinação
natural), sem ser grangeado para a sã eloquência, foi um homem perdido
para os manejos da politica e para a composição da historia.
Se grande penetração, activa diligencia, conhecimento dos homens,
uso dos negócios, niethodo e arte de escrever com pureza e clareza podem
fazer um bom historiador; mal podem negar-se em António Vieira estas
qualidades. Concluída a paz com Castella em 10(38, achava-se elle na ma-
dureza da edade, no uso inteiro das principaes potencias, na posse de
muitas e recônditas noticias, e com facilidade e meios de procurar muitas
mais. A empresa era digna de um amante da pátria, que a podia louvar
sem incorrer a nota de apaixonado; podia ser altamente gloriosa ao escri-
ptor; e nunca podia ser recebida com indifíerença. Todas estas conside-
rações parece que deviam estimular Vieira para a tomar á sua conta, e
enriquecer Portugal com uma boa historia do mais curioso e notável
acontecimento, que se encontra na larga duração d'esla monarchia. Mas
Vieira vivia desgotoso e enfermo; pouco depois lhe foi necessário dester-
rar-se da pátria; carecia d'aquella constância c paciência, que requer uma
obra dilatada e grave : e também pode ser que este [)ensamenlo. se acaso
' Vejam-se os papeis a ei-rei D. Pedro sobre o casamento de sua llllia. a carta ao
secretario de estado sobre o modo da campanha com Castella, que é a I do II vo-
lume, etc. ete.
124
lhe occorreu, fosse rebatido pelo receio (que não seria certamente imagi-
nário) de correr muito risco, referindo com verdade rigorosa successos
tão frescos, ou de se expor a vivas e justas censuras, occultando, ou pin-
tando com cores alheias erros e defeitos, que não podiam ser desconhe-
cidos dos contemporâneos '.
D. Luiz de Menezes, que com louvável resolução affrontou as difficul-
dades, sem se aterrar cora aqnelles temores, por conhecimento prático da
arte da guerra, por teslimunha ocular de muitas acções militares, e até
por vogal nos conselhos, que as dirigiram, tinha sobre Vieira grande
vantagem neste ponto: mas em tudo o mais lhe era largamente inferior.
A historia perfeita da restauração portuguesa requeria a prática militar de
D. Luiz de Menezes, e os talentos e arte de escrever de Vieira. Mas dado
que estes meios se não encontrem unidos, certamente que menos mal
suppriram talentos e estyio a prática da guerra, do que esta snpprirá os
poderes da arte e dos talentos. Livio não foi militar; e se a sua historia,
com elle ler prática de guerra, seria mais bem acabada, ainda assim é
um dos mais preciosos monumentos do género histórico. Podia e devia
esperar-se muito d'aquella rara sagacidade de Vieira para alcançar moti-
vos, para seguir manejos occuitos, para avaliar exactamente caracteres. E
se elie não tinha de Tácito o dom de pintar com traços rápidos e enérgicos;
tinha seguramente tanta agudeza como elle, e egual propensão a conside-
rar por todas as faces os objectos, e a dar maior relevo ás menos favo-
ráveis. Não disputo agora se esta propensão dá, ou tira maior preço ao
engenho, que a possue: mas não ha duvida que é em Tácito uma das suas
qualidades mais applaudidas, e que é uma d'aquellas, em que Vieira lhe
foi muito semelhante ^.
Se Vieira não possuía (e é certo que não possuia) aquella marcha
rápida e vigorosa de Tácito, possuia comtudo, e em alto grau, o dom de
• Na carta ao conde da Ericeira (vol. II, n.° CXII) pondera elle as difiBculdades da
historia da restauração por estas palavras ; E a empresa e resoliirão de V. E. foi muito
maior que todas, pois não só se resolveu V. E. a escrever historia do passado aos vindou-
ros, senão do presente, ou quasi presente aos que ainda vivem.
* O costume de relevar nas pessoas e acções o lado menos favorável, e de lhes
suppôr motivos e intentos sinistros, é o que Vieira qualifica de malirias de Tácito. Taes
malícias não são o menor ingrediente, que enlra no composto das suas virtudes tão
preconizadas; porque a satyra dos outros tem para o coração luunano não sei que pi-
cante agradável. Vieira indisputavelmente propendia para aquellas malícias.
125
narrar por modo claro, corrente e grave, que afasia Indo o que é inútil,
que refere com ordem, sem prolixidade, sem ambição nos termos e nos
pensamentos. iNão será esse rio apertado, ipie se des[)enlia por catadupas,
e assombra com seu jogo impetuoso e por sua violência os espectadores;
mas é a corrente limpida e socegada, que vae dando graça e alegria aos
campos, ao mesmo passo que os fertiliza. Nos seus sermões ha varias
narrações curtas, e todas ellas estremadas em brevidade intendida, em
disposição, em propriedade. Estas mesmas virtudes se notam, sem mais
differença que a indispensável, na relação da missão da serra de Ibiapàba,
e na carta histórica, escripla no anno de 1660 a el-rei D. Affonso VI, re.
lalando os successos das missões do Maranhão, e especialmente da dos
Nheengaibas. Da Historia do futuro, não ha que fallar. porque não é pro-
priamente historia, é uma advinhacão, uma conjectura, uma predicção
atrevida : que se bem na linguagem e eslylo se pôde reputar digna de
António Vieira; considerada como historia, não pôde parecer senão uma
extravagância, antes um monstro, de que não é acertado tirar prova al-
guma, ou contra ou a favor dos talentos históricos d'aquelle, que a com-
poz •.
Somos emfim chegados ao assumpto, de que Vieira colheu a maior
celebridade ; que é fundamento muito principal do seu avultado credito,
e em que comludo os seus mais ardentes admiradores, como sejam pes-
soas de inlendimento, hão de soflVer que elle seja reprehendido com algum
rigor. Os sermões de Vieira foram gal)ados, foram applaudidos com enthu-
siasmo pelos portugueses contemporâneos, na America, no reino e em
Roma. Se a propriedade e vehemencia da sua pronunciação entrava por
alguma cousa nas admirações dos ouvintes, se era um dos motivos, que
lhe chamavam os concursos innuraeraveis, que deram occasião a se fazer
de tamanho alvoroço qnasi um provérbio^ ; também c verdade, que quando
se entregaram á mera leitura pela imprensa, o prestigio durou, e a voz do
1 A Historia do futuro, não é senão um valicinio argumentado d'aquellas victorias,
conquistas, felicidades portuguesas, (jue Vieira se promettia a si e aos outros iio seu
decantado quinto império do mundo. O empenho era extravagante e temerário: mas
podia nascer de enganado amor da pátria.
' Como quem manda lançar tapete de madrugada em S. Roque para ouvir o padre
Vieira : diz nas suas cartas D. Francisco Mannel allegado no prologo do diccionario da
Academia.
126
louvor não foi menos dilatada ou menos encarecida. Ainda que os seus
defeitos agradavam ás orellias mais cultas do tempo, certo que não era
possível, que meros defeitos ganhassem votos tão geralmente e com tanta
constância : nem ha, nos séculos mais infelizes, um exemplo de louvor tão
aturado e tão largo, sem que alguma, ou algumas virtudes eminentes sus-
tentassem o falso luzimento dos vicios. Que será, se reflectirmos, que em
tempos de gosto menos defeituoso tem sido aquelle louvor pelos juizes
mais competentes e mais inteiros conflrmado em grande parte? E este é
innegavelmeute o caso ; por mais que a paixão o tenha querido representar
por contrario modo.
Por isso mesmo que a Vieira faltava a imaginação já forte, já pintoresca
e formosa, que tudo anima, que tudo torna interessante ou agradável,
lambem lhe faltava, das disposições para a consumniada eloquência, o dom
de mover os aflectos vehemenles, de tocar com brandura o coração, de
deleitar a phantasia com cores esplendidas, e com bem oratória cadencia
o ouvido dos circumstantes '. Em tudo isto era o seu talento muito inferior,
como já insinuei, ao de Marco Tullio. Não ha que procurar nas orações de
Vieira o Ímpeto das Calilinarias, o pathetico da Miluniana, a brandura
etílica da defesa de IJgario, as brilhantes cores da de Archias poeta, e
finalmente a cadencia numerosa de todas as do orador romano. Na força
porém de convencer, na solercia de refutar, na variedade e verdade das
sentenças, no sal de grande parte das facécias, na viveza e claridade de
estylo, não podia ir Cicero, nem certamente foi, adeante de Vieira, E pelo
que toca a viveza de estylo, não pude negar-se, que a do ultimo é muito
maior, e por isso mais natural e mais apta para produzir illusão e ajudar
o convencimento, que a do prnneiro; o qual de ordinário emprega longos
tractos do mesmo teor, que agitam pouco, e que sabem mais á composição
e estudo, donde lhes procede o convencerem menos. É certo que ou a
extravagância, ou a exaggeração das empresas de Vieira, diminuem muito
o poder da sua viveza de estylo para a convicção ; mas deixamos agora a
realidade do effeito, e consideramos somente a faculdade de o produzir.
Ainda nos sermões, a que cabe maior censura, poucos são os que não
offerecem um ou outro pedaço insigne, de que se infere com magua o
1 Não digo que ignorava o poder da oadencia oratória, ou que a desprezava de
todo ; mas para o torneado e suave de períodos mostra pouco empenho, e não parece
ter muita propensão.
127
que podia fazer, mas que i)ão fez. ai|uelle feliz eiigeiílio. Os exórdios peia
maior parte ganham atleugrio, |iela substancia do que se faz esperar,
declarada com grave coiiiediíiieiito. As proposições são breves e claras,
sem o atfectado, que desfigura as dos melhores pregadores de Fimiça, e
se repara ainda mesmo nas de Gicero'. As occasionaes narrações são todas
perfeitas na brevidade completa, na clareza, na opporlunidade ; nem as
das Verrinas, tão celebradas e tão merecedoras de o serem, as excedem
nestas virtudes; se bem que deleitam mais pelo brilho maior da formosa
imaginação de Tullio. As conclusões dos discursos de Vieira são quasi todas
gravíssimas e bem próprias da mais sisuda concionaloria christã.
Cansado o leitor e indignado de empenhos vãos, de provas arrastadas,
de interpretações violentas, respira, recreia-se com a séria e arrazoada
religião dos paragraphos finaes, e diz comsigo mesmo : porque não se valeria
em tudo do sen bom jiiizo este orador ? Em cei tos sermões (porém poucos)
se valeu com effeito deste bom juizo em quasi tudo. Distitiguem-se parti-
cularmente os chamados de moral ; em que peneirado da importância da
matéria, despreza meios impróprios, e emprega o seu talento, como inten-
dido pregoeiro do evangelho. Se neste caso mal se pode ainda tratar de
orador cousummado, merece todavia o valioso titulo de bom orador; e se
nestes mesmos fosse mais acabado e em todos os outros fosse egual o
desenho e a execução, nada leríamos, nesta parte, que invejar ás outras
nações modernas ; antes o que algumas nos ganhariam na pompa e esi)len-
dor, lhes ganharíamos na solida gravidade da eloquência.
Mas o certo é, que na maioria o desenho e a execução diflerem larga-
mente d'esses poucos escolhidos. Não se propõe Vieira de ordinário mais
que agudas extravagâncias, paradoxos insensatos, que provocam a riso, se
Dão é à indignação. Os seus argumentos por consequência necessária não
passam de empenhos fúteis, apenas dissimulados com frágil apparencia.
A Santa Escriptura é obrigada, é forçada, é ariastada a servir a estas
ridículas empresas : sem attenção ao seu verdadeiro sentido, sem respeito
á sua dignidade. Quanto os doutores de menos nome, os expositores mais
> Como orador evangélico, o padru Massilloii me parece o mais completo entre
todos os de França Comtudii nas jiroposiçues e divinòes 6 lãu medido, tão estmlado e
até aíTectado, quê com wsso falta qua-i sempre ao natural, e muitas vezes níTende a gra-
vidade. Mesmo Cicero nem cm todos os casos propõe sem mostrar um certo esforço.
A proposição e divisão nem sempre vem nascendo, como ciu Vieira ; é procurada, é
trazida com diligencia, que se conhece muito.
128
obscuros disseram com maior encarecimento e menos ponderação, elle'
emprega confiadamente, se o reputa de serviço, por mais que repugne á-
discreção e ao senso commum. A liberdade evangélica degenera muitas
vezes em descomedimento escandaloso*; a reprelionsão em sarcasmo; a
familiaridade em baixeza ; o sal em muito rasteira chocarrice. Nos dis-
cursos do género epidictico ou demonstrativo, nos chamados de mysterio
é, quasi sem excepi^ão, absurdo. Nos primeiros a mesma arte aconselha
ostentação de engenho ; mas Vieira ostenta com profusão o engenho falso
e depravado da sua edade. Nos segundos, em vez de suppôr as verdades
relevantes da fé e emprehender acerca d'eilas a persuasão ou da sua reve-
rencia, ou do nosso proveitoso agradecimento; occupa-se em discretear
sobre a sua natureza, em se remontar, ou querer remontar além do termo
posto á capacidade do homem, em sonhos, em desatinos, que se no intento
se não desviam da regra da crença, nos lermos soam comtudo como blas-
phemias.
O mau gosto dos ouvintes, a prática geral dos oradores portugueses
contemporâneos, foram certamente a principal causa dos mallogrados
talentos de Vieira i)ara o ministério do púlpito; mas não foram a única.
Como o reformou (e não ha duvida que o reformou) em linguagem^, pudera
reforma-lo, com vagar e com prudência, ua substancia das cousas. Conhecia
as regras de Aristóteles e Quintiliano, presava os escriptos oratórios de
Cicero, tratava os padres de eloquência mais judiciosa, o seu bom inten-
dimento por si só era capaz de o dirigir ao melhor ; porque preferiu a
' Liberdade e descomedimento são cousas bem diversas! não empregar liberdade'
discreta, será no ministro evangélico falta de zelo, ou animo apoucado e caplivo: mas-
usar descomedimento, é falta de compostura, é destruir em vez de edificar. Nesta culpa
cahe Vieira algumas vezes. Não lhe escapam as pessoas mais consideráveis do estado;
que castiga e fustiga sem contemplarão. Não se podem dizer verdades mais duras e
menos temperadas, do que elle as diz aos magistrados, aos ministros, e até aos monar-
chas. Elle o confessa (vol. XII, serm. XIII, n.''34C) por estas palavras : Principalmente
em mim, que tenho dito tantas verdades, e com tanta liberdade, e a tão grandes oitvidos :
e não é mera jactância.
* No prologo aos sermões dá a intender, que seguiu aqui trilho differente do que
se usava; e que foi imitado. No sermão I, vol. I, § 5, representa os miseráveis abusos
de estylo, que corriam, e de que elle na verdade se absteve. Sacrificou sem duvida a
outros vicios do gosto do tempo; mas aos que tocavam em linguagem, nada ou quasi
nada.
12Í)
falsa gloria de iuepcias, acceilas em tempo corrupio, á solida e durável
de trazer o ministério evangélico á compostura e santa eíBcacia, de que o
tinham desviado o erro e a ignorância ?
Mas em Vieira á nimia condescendência com os seus maus juizes, á
fraqueza de se deslumbrar com presentes e desprezíveis louvores, ajun-
tou-se a propensão infeliz á singularidade, e cora ella o desejo de parecer
novo, inaudito, original. Novo seria então entre nós, pregando religião com
decente zelo e com gravidade ; mas elle queria ser novo e único mesmo
naquillo, que dos seus juizes era mais estimado ; e não teve resolução bas-
tante para supportar alguma indifferença, para solTrer alguma injusta cen-
sura, em quanto os ânimos se não inclinavam, o que era infallivel, e allei-
çoavam ao methodo próprio de inculcar desde a cadeira da verdade os
dogmas altíssimos e a discreta moral do clirislianismo. Um jesuíta do mesmo
tempo, talvez com menores talentos, posto que mais ajudado das circum-
stancias, aspirou e conseguiu a gloria, que iufelizmente deixou escapar
Vieira ; e por isso os intendidos o respeitam agora como insigne mestre da
arte, em quanto no orador português reconhecem somente a possibilidade
indisputável de repartir aquella gloria com o padre Bourdaloue '.
Porém se por um extravio (muito para lastimar !) Vieira não deixou
aos seus compatriotas um brazão mais honrado da oratória christã ; dei-
xou-lhes sempre, além dos primorosos exemplos de cartas e opúsculos
pragmáticos, um monumento admirável da própria linguagem no corpo
completo das suas oliras. Se o uso da nossa lingua se perder, e com elle
por acaso acabarem todos os nossos escriptos, que não são os Lusíadas e
as obras de Vieira ; o português, quer no estylo de prosa, quer no poé-
tico, ainda viverá na sua perfeita indole nativa, na sua riquíssima copia e
louçania.
Será talvez opinião temerária, mas a minha é, que nenhum povo pos-
suiu jamais nas obras de um só homem tão rico e tão escolhido thesouro
da lingua própria, como nós possuímos nas d'este notável jesuíta 2. Elle
empregou a linguagem culta e publica, e também a familiar e domestica ;
fallou a dos negócios, a da cortezía, a das artes, a dos provérbios : e como
» Luiz Bourdaloue, que nasceu em 1632, fallcceu em 1704, sele amios depois de
Vieira.
' Esta opinião parece muito arrriscada ; eu o conlieço. Mas quem ler com ponde-
ração todas as obras de Vieira, talvez que depois lhe ache menus temeridade.
9
130
tratou tantos e tão diversos assumptos, pôde ailirmar-se, 1'òra de hyper-
bole, que em suas composições a resiuniu toda inteira com felicidade sin-
gular. Dir-se-iia : Basta logo por mestre clássico de Portugal neste ponto im-
portante o padre António Vieira! E porque não?...' muito mais attenden-
do-se, que á copia e variedade uniu todos os dotes, que podem tornar uma
lingua no seu género perfeita.
Tudo é casto nos termos, tudo o é na phrase : tudo é próprio, tudo é
claro, e antes sem excepção de logar a mesma clareza. Ainda quando é
mais levantado, não ha tão completo ideota, (jue não alcance o seu sentido'^.
Os auctores do diccionario da Academia louvam a sua parcimonia na inno-
vação de vocábulos; e com justiça, porque são poucos innovados com tão
bom juizo, que chegam a não se estranhar como innovados. Porém quizera
eu, que insistissem mais no seu discreto uso de vozes e formidas antigas.
O archaismo é tentação mais perigosa para os curiosos de linguagem, do
que é o seu contrario ; e dobrava a tentação para um amador da singula-
ridade. Mas resoluto á perfeição neste ponto, soube resistir a todas as
tentações : e se fugiu egualmente do alheio, conteve-se com mais valor do
antiquado ^ A sua linguagem era a do seu tempo e a da sua nação; e
como estava já muito depurada, e tomou nas suas mãos os últimos qui-
lates, é e será a verdadeira linguagem portuguesa em todos os tempos;
de tal sorte que quanto se afastar deste padrão, tanto fugirá do seu puro
natural, da sua sincera formosura. O mesmo bom discurso, que o levava
a escolher os termos com pureza, o levava a construi-los segundo as regras
próprias ou com correcção. Apenas uma vez ou outra me parece menos
correcto. E digo me parece, porque me não atrevo a censurai' um mestre
tão respeitável sem grandes precates de desconfiança.
' Em pontos de estylo não deve, nem pôde ser único ; mas nos de linguagem, não
receio dizer que sim. Até o que se adtiuirir na lição de outros, se deve adeantar e
apurar na d'eile.
- Não llie pôde ser disputado, nem sei que se llie dispute este merecimento. E
tanto sem excepção, é tão perfeito, mesmo nas matérias mais subidas e nos empenhos
mais refinados do auctor, que por todas estas considerações cliega a ser sublime.
3 Vieira nesta parle tira toda a desculpa aos portugueses modernos, que ou erra-
damente julgam que se não deve fallar e escrever senão como em tempos d'el-rei
D. Manuel, ou de propósito querem com este exótico hallucinar leitores vulgares. Em-
bora saiba Varrão como fallavam os antigos cethegos; mas Horácio escreve na lingua-
gem do tempo d(; Augusto. Este poeta judiciosissimo assim o praticou; Ijem que em
poesia se admitte mais algum desvio.
131
O porliiguès terá mais brandura e qnasi egiial clareza na peniia de
fr. Luiz de Sousa, será mais ardente na de fr. Tliomé de Jesus; mas em
ambos falta muito mais aos ápices da correcção do qne em Vieira. Ambos
elles liniiam mais disposições para a eloipiencia, que affeiçoa, e que arre-
bata; mas ambos possuíam muito menos a sua iingna, e a empregaram
com muito menos regulaiidade. E se ella se recusa em Vieira á doçura
de Sousa e ao impetn e fogo de fr. Tliomé de Jesus; tambora se presta a
declarar o fino e delicado por modo feliz, em que nenhum dos nossos
escriptores o emparelha. Leiam-se, ponderem-se os dois sermões, nesta
parte verdadeiramente admiráveis, das exéquias de D. Maria de Athayde
e do Mandato pregado em 16io, e quem ler ficará convencido de que o
auctor alcançou perfeitamente, e perfeitamente transpoz para a nossa lín-
gua, a concisão aguda e a maneira engenhosa de Séneca '. Vieira prezava
muito os escriptos de Séneca, e tinha com elle grande conformidade no.
intendimenlo: e se o seu gosto era praticamente ainda mais corrupio, era
todavia sempre mais claro, e sabia-o imitar bem nas suas particulares vir-
tudes.
Algumas vozes ostenta Vieira o seu proftmdo e talvez singular conhe-
cimento da lingua portuguesa -. Mas não é um mercante fraudulento, que
inculque os cabedaes, que não possue, para ad(]uirir créditos, que não
merece completamente. È em todo o rigor aquelle, que se inculca ; senhor
opulentíssimo do thesouro mais copioso, com perfeita discreção para o
empregar muito a propósito. Conhecia as palavras, o phraseado das artes,
dos oíTicios. das profissões, de que parece que devia andar mais distaute;
e fallava acerca delias com a mesma propriedade e acerto, e com mais
elegância do que os próprios professores!
Onde grangeou, que tempo teve para accumular laes riquezas, um
homem que passou os primeiros trinta ânuos fora do reino, que se diver-
tiu no restante da vida para tão varias occupações? Que elle estudou a
lingua, e muito, não pôde haver duvida : porque tal profundidade, noticia
» A oração fuuebre de D. Maria de Atlialde é XIII entre os sermões do vol. IV. o
do Mandato é XIII do vol. II. O ultimo no seu jieneio ('■ peça rara, merecedora de se
ler muitas vezes, e até de se entregar á memoria.
* Veja-se a estatua de murta no sermão XII do vol. Ill, n " ."iOâ, u sermão XI do
vol. II, o II do vol. YII n.° 78, etc. etc. Um escriptor. lendo dito que nos empn^gos
mais alheios falia com propriedade, accrescenia fum particular energia, mas com
justeza, e até nus de jogo (não se pôde encarecer mais) como se fura tuful.
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tão completa e Ião exquisita não se podem liaver sem grande estudo. Mas
quando se empenhou neste estudo? Os primeiros sermões já não merecem
aqui muito reparo; os que pregou em cliegando da America, são pela
maior parte perfeitos em linguagem. Não foi pois no reino, não foi no
uso da côrle, não foi com leitura vagarosa em annos de muito discerni-
mento. Resta por tanto appellar para a promplidão antecipada e pasmosa,
com que observava e meditava quasi sem espaço de tempo; para a pro-
pensão insigne, que lhe facilitava o aprehender rapidamente as mais subtis
dilTerenças, as mais miúdas particularidades, as mais finas delicadezas, e
até os mais impercepliveis graus de decoro da locução ; e emfim para a
memoria firmíssima, que conservava com escrupulosa fidelidade, ainda o
adquirido cora pequeno ou quasi nenhum esforço.
Não será bem que nos esqueça, já que falíamos em decoro de locução,
o discreto esmero, cora que o guardava Vieira, o cuidado, com que afas-
tava tudo o que era mal soante ou abjecto, a repugnância, que mostrava
aos termos, que podiam offender o ouvido e excitar ao mesmo ten)po
idéas menos delicadas. D"esta repugnância é notável exemplo o enojo, com
que elle mesrao confessa em um dos seus sermões, que evita o nome
vulgar do iraan *. As coisas serão ás vezes muito familiares, muito miúdas
e até rasteiras ; mas a linguagem, sem ser desproporcionada ou imprópria,
nunca é senão a das pessoas ingénuas. E se de uma ou de outra palavra
dos seus escriplos se pôde fazer hoje diverso juízo, a eiiuivocação estará
em se avaliar pelos tempos presentes a policia ou falta d'ella, que lhe
competia nos lerapos do auctor ^. Mudam com os annos estes accidentes,
mudam com os costumes ; c o que em uma edade não é senão singelo, em
outra parece descomposto e pôde ser que torpe. Em sumraa, que se a
nossa lingua, como agradecida e em certo modo desvanecida de se ver
tratada por quem a sabia aperfeiçoar e honrar, se prestava com docilidade
e condescendência grata a quasi tudo que delia requeria Vieira, da sua
parte Vieira, pelo desvelo, pela estimação e pelo mais fino respeito, plena-
mente lhe merecia tão primorosa complacência.
1 Foliando Plinio da Magnete, ou Calanúta, ou pedra iman {que me não cabe na
bocca o nome do nosso ruhjoj descreve, olc, vol. 111, serni. III, n.° 86. No sermão XIV
do vol. VII, n." 499 no IV do vol. XI!, ii." H8, ha outros dois cxcellenles exemplos
d'esta delicadeza, qi.e o auctor chama yovíííoí- ou cortesia da lingua.
2 Podem servir de exemplo análogo as palavras Diabo e Inferno, de que Vieira
faz uso muito frequente; e que, vista a sua discrcção em guardar o respectivo decoro^
empregaria hoje com muito maior soiíriedade.
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Mas tempo é de darmos fim a esta memoria, em tjue ao padre António
Vieira, assim no mal, como uo bem, só tratámos de fazer justiça. O iesti-
munho da liistoria deve ser incorrupto; a critica sã rejeita egualmeule
satyra e adulação.
Composto raro de imperfeições e de prendas insignes, serviu António
Vieira muito á religião, e não serviu menos á pátria; mas poderia servir
a ambas ainda melhor. A pátria, se o louvou em seu tempo com demasia,
também o tratou em alguns casos com desmerecidas esquivanças. O seu
zelo politico foi recompensado com injustos desterros; os cárceres da In-
quisição de Coimbra foram pena sobejamente severa das suas singulari-
dades ; as suas prendas e serviços poderam ser mais attendidos e mais
bem satisfeitos por el-rei D. Pedro II. A posteridade, mais cega ainda por
ódio, doestou as suas egrégias qualidades, vilipendiou os seus talentos,
calumniou as suas intenções, escureceu as suas obras, imputou-Ilie aleivo-
samente culpas, perturbou, por ultimo, e affroutou com furor bárbaro as
suas cinzas. Para que vejam os homens (quero dizé-lo, como Vieira o disse
em substancia por varias vezes), para que vejam os homens, que o único
motivo certo, mas por si só superabundante, para se encaminharem ao
bem, e o porem em prática, está nas approvações deliciosas da própria
consciência, e nas esperanças da justiça invariável d'aquelle, que na esti-
mação do merecimento não pode ter erro, nem pode em o remunerar
padecer defeito.
*
Preço 500 réis
l'
J
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Èl^ 'liV"
BX Lobo, Francisco Alexandre
4.705 Discurso histórico e
V55L6 crítico
1897
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